Chegamos

afinal, ao número 50. Não podemos dizer que alcançamos um objetivo, porque nenhum objetivo fôra estabelecido. Não podemos dizer que a tarefa está cumprida, porque nunca consideramos que fosse tarefa.

Chegamos, apenas, como quem dá um passeio e, de repente, em meio à paisagem, se dá conta de que atingiu um momento único, de luz única, que nunca se repetirá; que outros se seguirão, a despeito disso; que os poetas é que os traduzem e eternizam.

leia o editorial

Sete Vozes

Izacyl Guimarães Ferreira

No fim do ano passado a Editora da Palavra, dirigida por Helena Ortiz, que edita o jornal panorama da palavra, publicou um antologia muito especial. Muitos aspectos a fazem especial. Para começar, é uma antologia em que figuram só mulheres poetas. Em segundo lugar, inclui uma cuidadosa apresentação, dupla - nas orelhas do livro e em notas individuais sobre as autoras. São de Luiza Lobo as orelhas, e de Rita Moutinho as notas.

crítica

poeta da vez - daniel santos

Daniel Santos, jornalista, carioca, foi repórter e redator em O Estado do São Paulo, Folha de São Paulo e O Globo, entre outros jornais. É autor de poemas - A Filha Imperfeita, (Ed. Arte e Ler - 1995) e de contos Pássaros da mesma gaiola (Ed. Bruxedo - 2002), e cronista do jornal de literatura panorama da palavra.

 

Guerras greco-pérsicas

sérgio faraco

Essa Cláudia de quem falo, por causa dos gregos, era repetente, e a mãe dela vivia se queixando para a minha: “Ai, a Claudia”. E não era só a mãe. Professores, colegas, bastava alguém mencioná-la e todos suspiravam: “Ai, a Cláudia”. Porque ela era muito esquisita, tonta, e se não conseguia guardar nem os nomes das cidades gregas, como poderia lembrar-se de algo como “ Viajante, vai dizer em Esparta que morremos para cumprir suas leis”?

 

TESTA, MARMITA, BUZANFA

a crônica de dona Leonor

Chega a dar nojo quando os motoristas da Viação Estrela, que faz ponto na esquina cá de casa, comentam o traseiro das mulheres que passam.

“Que testa!”, assim eles se referem às nádegas dessas coitadas que se esgueiram constrangidas, enquanto eles se cutucam e metem o garfo na marmita para encher de lascívia suas bocas sujas.

 

pequenos crimes

roberto dutra junior

Poucas coisas são tão melancólicas como voltar para uma casa vazia numa sexta à noite. Escuro, silêncio, as vozes dos vizinhos atravessando as paredes, a geladeira provavelmente vazia – escolha você o seu fantasma. É como se o mundo fechasse suas possibilidades. Um mergulho em uma cidade silenciosa que repousa dentro de outra, inconsciente. Depois que a porta se fecha, depois da primeira volta da chave no tambor frio da fechadura, resta apenas você e aquele que se parece contigo dentro do banheiro. Mas o resultado é a mesma pessoa. Um multiplicado por um. Seria tristeza o silêncio que invade? Na verdade, talvez nem tristeza exista; apenas um vazio que você não sabe como preencher. Alguns definem o sentido da vida como uma busca por preencher cada momento com um evento que resulte naquela sensação de comunidade, pertencimento a um todo, ou mero reconhecimento grupal. Outros sequer levam a discussão ao curso dos fatos.

mais

cassiano ricardo: a poética da inovação

Cassiano Ricardo Leite nasceu em São José dos Campos, Estado de São Paulo, em 26 de julho de 1895. Filho de Francisco Leite Machado, pequeno agricultor, e de D. Minervina Ricardo Leite. Os primeiros estudos foram feitos na cidade natal. Fez o curso de Direito, que iniciou em São Paulo e concluiu no Rio de Janeiro, em 1917.

Augusto Sérgio Bastos

“O poema ricardiano, de livro para livro, parece a descrição do pensamento estético e dos resultados das gerações que vêm desde a sua estréia até hoje. Há uma antena atilada nesse poeta. "

Mário Chamie

poesia sempre

poemas de

walmir ayala . suzana vargas
sérgio pachá . vera americano

nauro machado . flora furtado
igor fagundes . álvaro mendes
floriano martins

alfonsina storni . joe rosa
manoel de barros . wibson carvalho
humberto fialho guedes

Bernardim Ribeiro (comentários de álvaro mendes)

 

publicitário do ano

uma crônica de joão antônio

O nome da peça era Jacarandá.

O sujeitinho chega à casa dos vinte anos e está puro, purinho, invicto como nasceu. Ou por outra, não esquenta, longe de preocupado da vida. Para tanto, mantém uma alergia, sofre de pavor pânico a todo tipo de trabalho. Na verdade, por sobre a folgança e o carro-esporte, gosta mais de três coisas – dinheiro, mulher e bicho-de-pé. O poeta do momento vibra com a coceirinha aguda.

 

porcos de espírito reino dos réus

um conto de Helena Ortiz

morreu a mãe de maria luiza. ela se olha no espelho: é sua mãe. a mãe a olha com olhos de viva. a mãe está viva ela está morta. precisa tomar os remédios dizem todos. não se sabe se não os toma porque não acredita em médicos em remédios ou na necessidade de tomá-los. os médicos acham que deve tomar; os irmãos também. ela não acerta. precisa então refazer as estatísticas de compra e venda de arroz beneficiado no último biênio e como a política cambial e os transgênicos a monocultura a desapropriação as invasões fizeram com que poderia ter se aposentado por doença, mas as leis as mudanças a família o médico acham bom que trabalhe. maria luiza não acompanhou bem as coisas acontecerem.

 

 
 
 
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