De novo é Natal e
breve será um novo
ano, como sempre acontece
enquanto estamos vivos.
As lutas, vencidas ou perdidas,
fazem parte do passado. É
hora de recomeçar o
que nunca foi interrompido.
Sabemos disso.
E porque o poema é
de quem precisa dele, fazemos
nossa a mensagem de Bráulio
Tavares, que soube dizer melhor
o que queremos.
A todos, um grande abraço
do panorama da palavra,
um agradecimento especial
aos poetas Augusto Sérgio
Bastos e Daniel Santos, a
todos os que criaram e divulgaram
literatura em 2007 e um abraço
reconhecido a Bráulio
Tavares, nosso porta-voz para
2008.
"Não peça
nada a Deus. Seria um contra-senso
Deus fazer algo por você.
Digamos que o Mundo estava
com problemas, pediu a Deus
que mandasse algum tipo de
ajuda, e Deus mandou você.
Agora, é entre você
e o Mundo. Te vira, véi.
Não peça nada
ao Destino. Esta é
uma grave contradição
filosófica, daquelas
de fazer Aristóteles
se revirar na tumba. “Destino”
é um futuro que já
aconteceu, que não
pode mais ser modificado.
Não perca seu tempo.
Não peça nada
ao Acaso. O Acaso é
quem governa este Universo,
e é da natureza dele
não escutar pedidos,
mas aceitar interferências.
Interfira, aja, interrompa,
redirecione, transforme. O
Acaso agradece.
Não peça nada
aos Santos. Santo não
é quem toma providências:
quem toma providências
é médico, bombeiro,
mecânico, assistente
social... Santo é quem
sofre sem se queixar. Deixe
que sofram em paz.
Não peça nada
ao Governo. O Governo é
um brontossauro de cinqüenta
patas e trinta pescoços,
caminhando aos trancos e barrancos
através da jângal
antediluviana. Esperar dele
alguma coisa que se aproveite
equivale a subir pela sua
cauda e ir morar numa choupana
em seu dorso, tentando convencê-lo
a seguir no rumo desejado.
Esquece. Melhor ir a pé.
Não peça nada
aos Bancos. Por definição,
Bancos só dão
remédio a quem vende
saúde, só mandam
marmitas gratuitas para os
donos de restaurantes, e só
oferecem absolvição
espiritual aos cardeais do
Vaticano.
Não peça nada
às Autoridades. Autoridades
são programadas apenas
para obedecer ordens. Ou você
tem cacife pra já chegar
falando grosso, ou então
é melhor deixar pra
lá.
Não peça nada
à Mídia. A Mídia
acha que o anonimato é
contagioso, e que a Fama também.
Olhe pra trás, e veja
se ela está indo no
seu rastro ou não.
Problema dela.
Não peça nada
à Sorte. Sorte foi
feita pra gente abrecar pela
abertura, encostar no canto
da parede, e dizer a que veio.
Se você tiver pegada,
a Sorte se derrete todinha.
Não peça nada
à Humanidade. Ofereça
e faça antes que ela
peça. Existe no Universo
uma Lei de Conservação
da Energia Psíquica.
Mais cedo ou mais tarde alguém
fará o mesmo com você.
E pronto. Feliz ano-novo,
bibibi, bobobó. Vá
à luta, meu camaradinha.
Tá olhando o quê?"
© Braúlio Tavares

VINTE
ANOS DEPOIS DO MALANDRO LUIS
ANTONIO
Por Jair Alves
Para todos
os componentes, de todos os
tempos,
da Cooperativa Paulista de Teatro
Véspera de Natal do ano
de 1987, a classe artística
foi sacudida com uma notícia,
no mínimo insólita.
O diretor teatral Luis Antônio
Martinez Corrêa é
encontrado morto, dois dias
antes, vítima de um assassinato
insano, em seu apartamento no
Ipanema - Rio de Janeiro. Mais
tarde, esse tipo de crime se
tornaria comum na vida urbana,
especialmente em cidades como
Rio de Janeiro e São
Paulo. Para muitos, aquela violência
era uma novidade, para poucos
era o rastro da serpente que
começava a se manifestar
de forma clara e inequívoca.
A tão cantada violência
dos dias de hoje já se
manifestava naquele tempo, e
esse grande artista e amigo
foi vítima. Diante de
tamanha brutalidade, muito pouco
pôde ser feito. De minha
parte, escrevi logo em seguida
um texto teatral, mostrado nas
cidades do México e Washington,
que provocaram as mais diferentes
reações. Nem entendi
direito porque tamanha gritaria.
A peça relata as condições
em que um artista, depois de
ter sobrevivido uma ditadura
do Estado, acaba sucumbindo
diante de um verdugo infame.
Hoje entendo a intensidade das
discussões naquelas cidades,
elas estavam bastante avançadas,
em relação ao
que aqui nós ainda ingenuamente
acreditávamos. Os nativos
da província brasileira
achavam que bastava tão
somente conquistar o Poder do
Estado, para resolver todos
os nossos problemas - as questões
sociais, ao menos. Hoje, passados
vinte anos é oportuno
indagar o que de fato aconteceu
com o contexto social? A seqüência
de modificações
políticas nacionais parece
que perdeu importância.
Para muitos, a História
morreu e a Arte, por sua vez,
nada mais representa do que
um produto de consumo. Dentro
de processo que se inicia era
natural, no final de 1987, que
um artista com a formação
que tivera Luis Antonio fosse
uma das primeiras vítimas,
não a única, apesar
de seu significado simbólico.
No ano seguinte
(1988), as forças progressistas
tiveram importante vitória
eleitoral, vencendo as eleições
municipais nas capitais brasileiras,
expressivamente na cidade de
São Paulo e em quase
todas as cidades do ABC paulista.
Registra-se aí que essa
vitória aconteceu nos
minutos finais do segundo tempo,
fruto da violência explícita
do exército brasileiro
que metralhou operários
em greve, na Usina de Volta
Redonda. O ocorrido, algumas
horas antes, teve grande repercussão
nacional, interferindo significativamente
no resultado do pleito. Nas
eleições presidenciais
de 1989 os conservadores deram
o troco, produzindo o mesmo
fenômeno, artificialmente
(seqüestro do empresário
Abílio Diniz e entrevista
bombástica, acusando
o candidato, hoje presidente
da República –
Luis Inácio Lula da Silva
- de ser pai de uma criança,
o que ele nunca tinha negado).
Naquele momento, a população
ainda se ruborizava com esse
tipo de escândalo, verdadeiro
ou não Era, sem dúvida,
mais um capítulo da luta
pelo poder do Estado.
Nos anos que
se seguiram, por mais de uma
década, mesmo sem ter
perdido o Poder do Estado, os
responsáveis por aquela
miséria social que começava
a se manifestar não conseguiram
estancar seus efeitos. Hoje,
os apelos dos progressistas
de um lado e dos conservadores
do outro se confundem e, na
maioria das vezes, a população
fica atônita sem saber
para que lado corre o rio. Daí
é legítimo perguntar
onde a vida e obra de Luis Antonio
podem ser vista, como contraponto
desse caos urbano? O mundo desse
artista foi elaborado, pacientemente,
numa atmosfera muito rica onde
não faltaram informação
e formação humanista.
Filho mais novo de uma família
de sociólogos e Artistas,
criado num ambiente escolar
formidável. Seu pai,
um educador, foi praticamente
diretor de escola secundária
a vida toda, e sua mãe
a perfeita personagem título
de “Mãe”,
do romancista russo, Gorki.
Seu universo literário,
o melhor. Teve sua primeira
experiência, como diretor
teatral, aos 16 anos, sempre
voltado a aprender. Sua matéria
prima era a vida das prostitutas,
que se reuniam muito próximo
à sua casa - a famosa
Rua 7, na cidade de Araraquara,
para desespero das famílias
conservadoras. Sua devoção
era o teatro, e tinha um carinho
muito especial e fraterno pelas
mulheres, com certeza a retribuição
para a vida diária do
mesmo carinho recebido das irmãs
e mãe. Luis Antonio era
o caçula. Já em
sua terra natal começou
a elaborar seus projetos teatrais,
que marcaram sua vida profissional
e o teatro brasileiro: Casamento
do Pequeno Burguês; O
Percevejo, e o que se transformou
na sua principal obra, apesar
de dividi-la com Chico Buarque
de Holanda, a Ópera do
Malandro. Durante muitos anos
estudou, exaustivamente, duas
óperas predecessoras,
a saber, Opera dos Mendigos
e Opera dos Três Vinténs,
(de John Gay e Brecht, respectivamente).
A morte de Luiz Antonio, em
23 ou 24 de dezembro de 1987,
espetado como um São
Sebastião, significou
que no mundo atual não
se tem espaço para viver,
como queria o artista e amigo,
muito menos espaço para
o sonho que ele projetou. As
cenas criadas por ele, tendo
como cenário de papelão,
são a expressão
mais intensa da vida. Luis Antonio
não ousaria colocar um
corpo morto em cena, ainda que
fosse um ator que, ao final,
se levantaria ao apagar das
luzes. Não fazia isso
porque repudiava a morte e a
violência. Morreu sendo
vítima dela - cenas que
povoam, hoje, os noticiários
do horário nobre e os
filmes que prometem bilheterias
avassaladoras. Tudo blefe.
No lançamento
de O Percevejo, em São
Paulo, fui me encontrar com
Luis Antonio no balcão
da chopperia do Sesc-Pompéia.
Lá estava ele, impecavelmente
bem vestido. Estréia
concorrida, com presença
de Caetano Veloso que, naquele
momento, dava uma canja no show
de Jorge Mautner que animava
a festa. Ficou feliz ao ver
que um dos irmãos Campos
viera com camisa vermelha, para
lembrar os bons tempos da Revolução
(estávamos em 1983 e
o Estado socialista Soviético
só cairia seis anos depois).
Convidei-o para tomar um chopp
e ele, com vergonha, disse que
estava sem um tostão.
Não permiti que o constrangimento
fosse a interrupção
daquela magia, e falei: “Podemos,
enfim, comemorar. Ainda que
indiretamente conseguimos trabalhar
juntos”. Ele respondeu,
“É verdade”.
Naquele ano a Cooperativa produziu
os quatro melhores espetáculos
da cidade de São Paulo.
Percevejo era um deles. Incrível
mundo esse em que vivemos. Cria
cenas como àquela onde
o artista, por essa época,
tinha produzido a Opera, enriquecendo
muitas pessoas e, indiretamente,
gravadoras, multinacionais,
projetando carreiras de muita
gente, mas não tinha
um vintém para pagar
um chop. Não era preciso
naquele momento, ao menos. Eu
pagava. Mas, por quanto tempo?
Luis Antônio Martinez
Corrêa ainda será
mais do que um nome de Casa
de Cultura, e muito mais
que um logradouro. Vai ser
referência para muitas
gerações de
jovens, até o final
dos tempos. Sempre haverá
um piano, tocando ao fundo
The Ballad of Mack
the Knife, em português,
com palavras de Chico Buarque
de Holanda (como se dizia
antigamente).
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