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PÉS
FRIOS, CORAÇÃO QUENTE
Às vezes,
Deus escreve certo por linhas
tortas, e sempre me lembro disso
nesta época de festas juninas,
quando sinto mais frio e recordo
com gratidão e saudade
aquele que me esquentou na urgência
da carne.
Pois, naquela
época (e bota aí
uns 50 anos atrás!), ajudava
na organização do
arraiá da Igreja de São
Camilo de Lelis, onde padre Vicenzo
pedia a colaboração
das filhas de Maria para fazermos
a festa.
E era uma festa
daquelas! Uma coisa, um treco,
um negócio, um trem bão
de nunca mais ninguém esquecer;
em grande parte, devido às
comidas que nós levávamos
para vender e arrecadar fundos
pra igreja.
Pois, coube
a mim contribuir com um curau,
desses de estalar a língua.
Mas me prontifiquei de metida
que sou, que era já na
mocidade, porque nunca soube preparar
aquele prato. Pedi, então,
ajuda às amigas.
Lurdinha, se
não me engano, foi quem
me recebeu, uma tarde em que o
marido não estava. Não
só me deu a receita, como
ainda me ensinou a fazer ali mesmo
no seu fogão “Cosmopolita”
de quatro bocas.
Ah, foi de chuá!
Passamos uma tarde de comadres,
daquelas gostosas e demoradas,
trocando receitas, falando (mal,
no mais das vezes) das outras
e, lá pelas tantas, o tal
assunto recorrente: namorados.
Ela, já
casada e cheia de princípios,
pouco falou de si, mas me incitava
a ter mais iniciativas, porque
estava já na hora de casar.
No entanto, ainda nem arranjara
pretendente! Tinha de pedir a
Sto. Antonio.
Estava mesmo
decidida a recorrer ao santo,
mas, conversa vai, conversa vem,
ela me falou do filho de um amigo
do marido, um latagão que
jogava no Várzea de ponta-direita.
Um tal de João Petra.
Ai, ai, ai.
Quando ouvi, aquele nome caiu
redondinho no meu ouvido, cheguei
a sentir umas coceiras, enquanto
meus vasos internos encheram-se
subitamente de líquidos;
na certa, hormônios –
hoje, sei.
Mas, então,
eu só fazia me coçar.
E Lurdinha rindo e rindo de mim,
da minha precisão, chegou
a me oferecer o ralador de coco
pra eu dar conta de tantos pruridos
inconfessáveis, de urgências
que logo teriam fim.
E chegou a noite
da festa. Armei minha barraquinha
pra vender o tal do curau, quando
lá pelas tantas me apareceu
o latagão, mas eu não
sabia que se tratava de João
Petra. Comeu um, dois pedaços
e elogiou.
Depois, se apressou
ao palco, que padre Vicenzo reunia
a turma para dançar a quadrilha.
O “meu” João
lá no meio, grandão
e desengonçado, sem jeito
pra dança, tropeçando
nas próprias pernas.
Muito me diverti
com a cena e comentei com Lurdinha
que o tal guloso gostara do meu
curau. Ela arregalou os olhos
e exclamou “então,
vai sair casório, pois
aquele é o ponta-direita
do Várzea, o João
Petra!”
Bendito vaticínio!
Porque ele, afinal, se cumpriu!
Ela mesma nos apresentou, começamos
a namorar e menos de ano depois
adentrávamos a igreja de
São Camilo, os amigos todos
jogando arroz, eu aos prantos.
Aliás,
só chorei duas vezes: quando
ganhei o marido e quando o perdi,
mas disso não falo. No
mais ... uhm ... aprendia com
ele os mistérios gozosos,
a arte que Salomão ensinou:
fechar os olhos e ver estrelas.
Mas o aconchego
mesmo veio em junho, quando o
frio castigou como numa provação.
Na época, o meu João
deu duas demonstrações
de espírito superior e
tive a certeza de ter feito a
escolha certa, certíssima.
A primeira,
quando fomos à janela da
sala para ele fumar depois da
janta, e passou um cão
abandonado, quase morto de frio.
Pois, o Petra, condoído,
deu-lhe abrigo e ainda lhe serviu
água e restos de comida.
A segunda ...
ah! Enquanto lavava a louça,
cismava com o repentino sumiço
do marido, a casa pequena demais
para tanto silêncio. Só
quando entrei no quarto encontrei-o:
estava deitado, mas no meu lugar.
Não entendi
de pronto, mas ele logo se explicou:
apenas esquentava a cama para
eu deitar naquela noite de arrepios.
E mais arrepios senti quando ele
encostou nos meus os seus pés
frios, pés de ponta-direita.
Pés frios,
coração quente –
é o ditado de que me lembro
sempre nesta época. E quem
me disse foi Lurdinha num longínquo
junho durante o arraiá
de padre Vicenzo. Até hoje,
lembro. Com saudade e gratidão.
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