AFINAL, DO QUE SE TRATA A INVEJA DO PÊNIS?

Dona Leonor

Neuzinha tem poucas letras e, por isso, conseguiu no máximo ser manicure. Chegou a ter raiva da vida, maldizia os santos de todas as religiões e quase virou atéia, mas salvou-a um pastor evangélico que, agora, incentiva essa minha amiga aos estudos.

Ela, então, meio desorientada, escolheu um cursinho de extensão cá perto de casa. Quis porque quis, bateu pé, e se inscreveu na turma de psicologia. Queria entender de gente para ver se entendia a si, e agora deu de arranjar explicações para tudo, para tudo mesmo.
Para ela, qualquer coisa é complexo disso, complexo daquilo, sem falar que noutro dia ela me veio com uma conversa sobre inveja do pênis. É, disse que a mulher, desde a mais tenra idade, sente inveja do pênis, por acreditar que os meninos têm um penduricalho e as meninas, nada!

Não concordei de imediato e até agora estou meio tonta com essa idéia absurda, totalmente despropositada, sem bem me flagrei muitas vezes na vida observando o comportamento masculino com uma pontinha de desdém, de implicância, porque alguns homens fazem com extrema desenvoltura o que a maioria das mulheres apenas sonha.
Urinar de pé, por exemplo. Aquilo é magnífico, magnífico! Já até vi alguns fazerem isso por trás das cortinas. É o caso de Jerônimo e Calazans. Depois do jogo, não importa se os times perdem ou ganham, eles passam no boteco do seu Mateus, bebem até transbordarem e vêm abraçados cantando o hino do clube. Mais adiante, perto do portão da oficina, urinam um jato grosso e dourado que escorre da calçada até o asfalto. Magnífico!

Consertar fogão e geladeira é outro fenômeno. Fico boba só de ver os homens trabalhando. Cortam uns fios, mudam algumas peças, e pronto. O que não prestava volta a funcionar como da primeira vez.

O marido da Neide também me fascina quando começa a calcular a cotação do dólar. Faz cara de compenetrado, pega a calculadora e, com a pontinha da caneta, vai digitando números, fazendo contas e, no fim, com ar de reprovação, diz “não, não é um bom investimento; pelo menos, hoje, mas amanhã, quem sabe ...”
Quando Jerônimo esteve aqui, me mostrou do que um homem é capaz. A caixa de gordura entupiu e ele, sem torcer o nariz nem fazer ar de nojo, socou uma ripa lá dentro, mexeu, mexeu, mexeu e, de repente, aquela nojeira toda desceu pelo encanamento. Cheguei a me benzer, porque o cheiro já me tomava a casa toda. E o prestativo ainda matou as baratas que voaram lá de dentro. Fiquei muito agradecida e agora me pergunto se isso é que é inveja do pênis. Será?

Se for, tenho inveja, sim. Não que queira alguma coisa balançando entre as pernas. Deus me livre! O que tenho e as demais mulheres também têm está embutido e bem guardado. Não somos exibicionistas, mas sutis, sabemos esconder bem escondido e eles vivem de procurar e que lhes deixa com água na boca.

Não é esse, afinal, o tema principal do teatrinho da vida?


 
 
 
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