| FLAMBA
NA AURORA ESSA QUE DORME COM O
REI
Era manhã
ainda menina e despertei subitamente
fulva como uma dessas dissolutas
que aguardam no catre a visita
do amante.
Mas, qual! As
mechas ruivas que me desciam pela
testa vinham de reflexos do quintal,
da rua, de onde alguém
parecia me espreitar.
Tornei-me arisca
como a corça na premonição
do próprio abate, mas sem
medo. E esse simples detalhe não
me fazia caça, mas devassa.
Por isso, não
houve sobressalto quando vi um
grande vulto forçando a
vidraça do quarto. Quando
ela se quebrou, afinal, e antes
mesmo de divisar quem avançava
absoluto, soltei os cabelos e
empinei o busto com uma audácia
que desconhecia em mim.
E não
houve medo, como disse. Porque
ele me tocou primeiro no pé,
um toque morno, aliciante. Depois,
veio aos poucos, mas inteiro.
Um calor só
perturbações circundou
todo o meu corpo e, quase cegada
de desejo diante do Rei, deixei-me
flambar.
Era troncudo
e intenso o monarca que me esmagava
com o imperativo do seu comando
e, sem forças nem vontade
para reagir, franqueei-lhe a intimidade
até os recônditos.
“Hélio”,
ele me disse quando quis saber
seu nome, e nada mais perguntei,
que ele estava ali para me esquentar,
para soprar os carvões
em brasa que a idade escondia.
Poderia dizer
a ele que me chamava Leonor, que
envelhecia sem direito a retorno
no tempo e, portanto, pouco podia
esperar de mim como amante matinal.
Mas talvez ele não acreditasse,
porque suspirava como Julieta,
uns suspiros quase sem força,
à beira do desmaio, e mal
respirava naquela inédita
circunstância de ter exclusivo
na cama aquele mesmo que o mundo
inteiro adulava.
Assim, suspensa
em eflúvios sobre a própria
umidade, crocitei como uma gralha
velha, vagi e cravei-lhe as unhas
no dorso. Mas não era eu,
não me reconhecia mais
em mim. No entanto, suportei agradecida
esse estranhamento que me elevava
aonde a realidade jamais fora
capaz.
Tive, enfim,
de voltar ao chão. Hélio
retirava-se sutil como veio. Foi
para outras casas, outras ruas,
países diferentes.
Levantei pipilando
e a vizinha perguntou “ô,
Leonor, viu passarinho verde?”
Disse que não era verde,
mas ruivo, e se chamava Hélio.
Fiquei de explicar melhor mais
tarde.
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