| A
LUZ DO ENTENDIMENTO SÓ
ACENDE NO FINAL
“Todo final
é redondo”, li certa
vez numa poesia de não
sei quem e exultei com essa observação,
apenas porque parecia demais comigo.
Não é que esteja
gorda. Nem tenho tendência
a engordar. Mas a verdade é
que estou redonda, minha vida
faz sentido pra mim, vivo a idade
da síntese.
Longe de mim
afirmar que tudo se transformou
num mar de rosas, que desconheço
problemas, que o que vem eu traço
fácil. Muito pelo contrário!
Se descuido, a vida chupa até
meus ossinhos, sem dó nem
piedade, que a vida é má
mesmo, injusta, e por mais que
a gente se empenhe o final não
é redondo, como diz o poema,
mas espinhoso, cheio de ingratidões
e desencantos.
Mas acontece
que submergi e soube voltar à
tona, devagarinho, sem ansiedade
de me livrar do que me era sufocante.
Aprendi a prender a respiração,
a viver com o mínimo e
tirar, daí, grande diversidade
de espírito. Sim, fiz muito:
não adulei a vida, mas
aprendi a responder prontamente
a cada rasteira que ela me deu.
Sou da turma
da capoeira, gosto dessa ginga
que engana a emoção
e mais ainda a razão, uma
ginga que é só humana.
Parece grande coisa, né?
E é! Fui longe, porque
compreendi a tempo minha própria
miudez. Não podia muito,
ninguém pode, e fiquei
onde estava, avancei quando podia.
De resto ... Ora, cada um que
avance a sua parte, assim iremos
longe.
Mas foi um custo
chegar até aí, porque
a compreensão das obviedades
não é pra qualquer
um. Não, não é
mesmo. A vida não é
para amadores. A gente peleja,
peleja e tudo dá errado.
Só no finalzinho da contabilidade,
quando começamos a fazer
biscoitos para a grande viagem,
é que nos chega a lucidez.
Um dia, sem
mais nem menos, dá um estalo
e a gente entende que é
pouca coisa, um resumo mal desenhado
do que imaginávamos que
éramos. Uns choram, outros
riem. Eu rio. É melhor
assim.
No dia em que
entendi, pendurava umas camisolas
no varal ao lado da cozinha. O
sol me picava com ferrões
de vespa na hora gorda do meio-dia.
Pois olhei para o chão
e, perplexa, vi que minha sombra
diminuía como a vergonha
diante da luz.
Muito maior
que ela, percebi que a sombra
se acanhava conforme as horas
progrediam e só depois
voltava a aumentar, mas para o
outro lado do meu corpo, a tal
parte que um dia vai viajar para
o sempre e para o sim.
Fiquei encantada
com a sombra miúda! Corri
lá dentro, peguei a tesoura
e lhe cortei um retalho de musseline
que guardei no bolso do avental.
Fiquei com um “souvenir”
de mim mesma que guardo e guardarei
para sempre como um trunfo, uma
prova de que estive aqui. E vivi.
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