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PELOS MAIS SIMPLES GESTOS, AGRADEÇO A DEUS
Acordo, às
vezes, com vontades que nem te conto. Se o sol ainda não raiou,
tenho ímpetos de tomar uma chuveirada de água fria.
É ótimo para reorganizar o esqueleto. Aí, dou umas
sacudidelas, solto uns guinchos e desando a rir sozinha de pura
satisfação de mim com a boba que eu sou.
Depois, comadre, abro
a porta dos fundos e o primeiro espectro de luz adentra pelos azulejos
da cozinha com a solenidade de uma noiva. As rolinhas já
estão esperando lá fora e lhes atiro a rapa de arroz que
sobrou da janta. Expeditas, ligeirinhas, amontoam-se umas sobre as
outras na disputa pelos grãos.
Só isso seria o
bastante para me divertir, valeria o dia, mas a
satisfação cresce quando passo a escova nos cabelos,
ponho o arco e, montada na vassoura, varro a casa em questão de
minutos. Não sinto dor nenhuma, nem nos braços nem nas
pernas, estou sempre prestes.
Por isso,
agradeço a Deus sempre que lembro pela saúde danada de
boa que Ele me deu. Devo ter puxado a uma das tias de Poços que
nadava na piscina do clube já passada dos noventa anos!
Se encontro Neide
regando os pés de dália cá nos fundos, a conversa
é certa. Já chegamos a ficar até uma hora
(é, uma hora!) com os cotovelos fincados no muro que separa
nossas casas numa lorota que não tinha mais fim, enquanto
à nossa volta o tempo, ansioso, aguardava que fizéssemos
coisas. E nós nem aí.
Depois, dou uma geral
nos mantimentos e saio às compras. Sou chatinha pra comprar que
a comadre nem imagina. Exijo do bom e do melhor, mas a preços
acessíveis, que a aposentadoria de pouco me provê. Mas
também não sou como aquelas enjoadas que enfiam o dedo no
toucinho pra ver se está magro ou gordo. Acho isso de um acinte,
de uma desfaçatez, que deixo para as mal-educadas.
E o dia está
ganho. Faço o almoço, como o que quero, depois descanso,
lavo a louça e, se consigo alunos para as aulas de Linguagem,
nós estudamos no final da tarde.
Ganho pouco com isso
e, se atrasam o pagamento, perdôo a dívida, porque
é melhor tê-los por perto do que amargar a solidão
da velhice. E, como todos sabem ou ficarão sabendo, velhice e
intransigência não combinam. Já fui dessas de
sentar de pernas cruzadas e fumar com a afetação das
divas do cinema. Mas o tempo adocica a todos, arreia a testa das
criaturas e chega-se, afinal, à idade dos humildes.
Hoje, sou só
Leonor. Tenho um colo enorme, onde o mundo pode vir chorar, se quiser.
Mas resisto. Na minha pequenez, nesta fase em que a síntese me
reduz à expressão mais simples de mim mesma, dou conta
dos dias com a bravura de uma amazona, me arrebito, me empino toda e
desentoco a manhã a vassouradas, como se comandasse a roda do
tempo.
Sucede, então, o sol. E eu vivo. O mais que posso.
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