POR QUE GOSTO DE POESIA?

jomard muniz de britto

Entre a agonia da página em branco ou da tela do computador, é sempre bom lembrar: “há uma gota de sangue em cada poema”, como dizia Mário de Andrade. Essa gota de sangue, na condição de metáfora, significa a urgência de não separar a arte da existência, o poema da vida e da convivência. Isso que não se aprende nos dicionários nem se apreende das gramáticas, retóricas e poéticas. Nosso desamparo fundamental. Nossa perplexidade diante e dentro da “máquina do mundo”.

Agonia em saber que gosto se discute. E que fazer poesia é talvez a mais fácil das artes. Agonia de suportar e transcender nossas ingenuidades, teimosias, vaidades e até mesmo desinformações. Agonia para enfrentar a necessidade de LER poemas: ler interpretando, ler discutindo e sobretudo reler nossos poetas fundamentais. Isto não é fácil.

Como escrever poesia, poemas (e até mesmo “atentados poéticos”), ignorando inocentemente as obras (in)completas de Bandeira, Cardozo, Drummond, Cabral, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Mário e Oswald de Andrade, Sousândrade, Gregório de Matos e Guerra...? E os nossos contemporâneos? Essa agonia – rima pobre e rica com poesia – é nossa guerra particularíssima contra a hipocrisia de nossa preguiça mental, pedante, provinciana, tão eterna quanto efêmera. Que seja nosso desafio.

Desejar saber que POESIA (em maiúscula ou não) é um trabalho permanente com a linguagem; que as palavras são palavrAÇÕES; que as inspirações são válidas quando passam pelo crivo das transpirações e transfigurações estéticas; que o aparentemente fácil pode ser o mais difícil, sem temer as incompreensões e até a má vontade dos leitores; que “lutar com palavras é a luta mais vã” (Drummond), sem temer a urgente necessidade da metacrítica, da metalinguagem e das potencialidades da alegria conjugando-se com a agonia de sempre.

 

O MAIS e MENOS da POESIA

jomard muniz de britto

O mais e menos terrível é a ingenuidade.
Curtição do ego com retórica de supereu
em sedutores e singelos malabarismos.
Enlevantes suscetibilidades.
Exprimindo-se pela natureza das coisas,
afetos, devaneios, suspiros, saudades.
Palavras suportando memórias ilusórias.
Envolvendo-nos pelo véu da sublimação.
O sublime e o ingênuo se interpenetram?
Do-eu-amante-de-si-por-si-mesmo.
Enovelando-se. Desvelando-se.
Do-eu dormente em angústias domésticas
e até metafísicas e mesmo patafísicas.
Do-eu dissipado em pop-surrealismos.
De tanto doer nos corroendo e contaminando.
Do-eu doído cão mulato endoidecido.
Sem pátria. Sem ser pária. Sem paz.
Inserindo a internet no território das paixões.
O mais e mesmo terrível é o poder da ingenuidade.
Do-eu no con-domínio de férteis ensimesmamentos.
Inocências seqüestradas. Precoces demências.
O sempre terrível é desprezar a poesia que NÃO
possua o sopro mínimo, finito, cruel da
indesejável, inóspita, famigerada criticidade.

 

O QUE FAZER SEM HORMÔNIOS NEM ILUSÕES?

Dona Leonor

Não sei se estou perdendo a arrogância do critério ou se “seu” Mateus, grosseiro desde sempre, civilizou-se. Fato é que nos entendemos melhor, agora. Nada às mil maravilhas, mas ... Vá lá: estou gostando!

Porque noutro dia ele cá esteve em caráter de visita e ... Bem, na verdade, fui eu quem convidou aquele vascaíno de peito peludo para um lanche no final da tarde. Mas não foi um convite desinteressado.

Queria, na verdade, que ele me quebrasse um galho. Literalmente. É que, há tempos, a goiabeira empurrava o muro lá dos fundos, que se inclinava já a ponto de cair. E pediria a Mateus para podar a árvore.

Pois ele aceitou o convite, trouxe uma dúzia de ovos como presente (ovos bons, graúdos, de granja!) e nem fez questão da mesa da sala. Com uma intimidade que não lhe dei nem reprimi, sentou-se na cozinha.

Descalçou os tamancos e suspirou (de prazer, acho) ao experimentar a umidade dos ladrilhos na sola dos pés. Depois, desafrouxou o cinto e, com ares de patrão, esperou que lhe servisse o tal lanche.

Coloquei uma toalha de ponto-de-cruz, bule e xícaras de louça fina, herança de umas tias de Poços de Caldas, mais garfinhos e faquinhas de prata para ele provar o bolo de cenoura que Zenóbia me ensinou.

Chegou calado e comeu calado, embora eu reclamasse do calor e apontasse alguns defeitos no bolo para ver se ele dizia “não, está ótimo assim, nunca provei nada igual”, mas o bronco só fazia mastigar.

Seus maxilares fechavam-se sobre cada porção do alimento com uma quase fúria de mastodonte que, depois de muita correria, conseguiu abocanhar sua presa. Mastigava com intensidade e logo engolia.

Para facilitar a ingestão, bebia talagadas de café, a ponto de tomar três xícaras durante aquele lanche. De impressionar! Mais ainda, quando derrubava farelos sem a menor compostura, nenhum verniz social.

Fiz que não vi porque, conforme suspeito, estou perdendo a arrogância do critério. De fato, sempre fui muito seletiva mas, de uns tempos para cá, o que cair na rede é peixe. Ou quase isso.

Você sabe, minha comadre, que depois dos sessenta, lá se foram os hormônios e as ilusões. Pois, é. A vida começa a ficar difícil para quem não teve filhos. Sem ambições, o horizonte se estreita demais.

Às vezes, a solidão é tanta que me flagro passando a mão na minha própria cabeça como consolo, na falta de alguém que me acuda. Mas não me desespero, me controlo e, mais alguns carinhos, pego logo no sono.

Por isso, talvez, estava tão receptiva ao meu visitante da tarde que, às tantas, satisfeito e preocupado com a noite que já acenava de longe seus lencinhos de musselina, evadiu-se ao quintal para fazer a poda.

Tirei a mesa e lavei a louça, enquanto ouvia o roc-roc do seu serrote e, quando dei por mim, embrulhava num guardanapo de papel um pedaço de bolo para ele comer em casa. Ou melhor, embrulhei dois pedaços.

Terminado o serviço, noitinha já, ele me estendeu do escuro a mão fechada. Ao abri-la, vi um vaga-lume luzir. Para mim! Cegada de arrebatamento, desabei. Mas, como fez ao muro, Mateus me escorou.


 

 
 
 
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