PIEDADE AOS EXILADOS

Dona Leonor

Noutro dia mesmo, a filha da vizinha trocava os dentes e, agora, como se já transcorridos muitos anos, ela empina peitos sob a blusa e passa pelos garotos com olhos cheios de promessas como os de uma adulta.

O tempo escoa rápido para ela, e não só por causa da urgência dos hormônios. Não. O mundo a quer assim, servil a uma velocidade que lhe tira o direito de experimentar seu próprio momento. Ela vive no futuro!

A mãe vai mais devagar e, ou muito me engano, é mais feliz. Nem seis da manhã e já está varrendo a calçada, depois apronta o café, acorda marido e filhos, toma banho, sai às compras e ... Cada coisa à sua hora.

É dessas que põem rótulos nas caixas de quinquilharias e guardam as sobras de comida na geladeira para juntar tudo no final de semana e aprontar um belo empadão de variados sabores que sempre rende elogios.

Quanto à filha ... Essa garota, coitada, tem vergonha de ser virgem, anseia por formas mais arredondadas, pinta o cabelo de louro toda semana e se angustia por lhe faltar dinheiro para comprar as modas das vitrines.

Parece que nada é mais capaz de detê-la. Seu futuro é exílio e claustro a um só tempo. Portanto, de lá não escapa. E, no entanto, meu Deus, não passa de uma menina, uma menininha. Ah, gente, é de dar dó!

Por isso, tudo o que peço para o mundo nesta época desvairada é mais tempo, prazer de gozar as horas, estar confortável dentro do próprio instante e relaxar bem gostoso, deixar que as coisas de ajeitem por si.

DURAÇÃO – essa é a palavra. Porque o que mais há é passado e futuro, enquanto o presente passa batido. O gerúndio que o anima esgota-se rapidinho, logo vira particípio e fina-se pretérito. Irrecorrivelmente.

Não se vive mais o processo. Num átimo, ele vai do princípio ao fim só aflições. Não sabemos mais como as coisas acontecem, perdemos sabedoria, identidade e poder. Mais corremos, mais nos atrasamos!

Por isso, tanto corre a filha da vizinha. E também o resto do mundo que observo daqui da janela. Todos têm medo de ficar antigos. Não percebem que a velocidade não conduz à juventude, mas à fadiga final.

 

 
 
 
poeta da vez
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