um
bosquinho de romãzeiras
Chato dizer isso, mas a verdade
é que não senti tanto assim
a perda de João Paulo II. Sei lá,
o Vaticano fica tão longe e cercado
por tamanho fausto, que costumo freqüentar
Deus na paróquia cá perto
de casa mesmo.
Ali, tudo é simples
e funciona. Não tenho que beijar
o anel do bispo nem os pés da Santidade,
não tenho que pagar dízimo
nem procurar perdão na amargura.
E costuma dar certo, não tenho nadica
do que me queixar. Pelo contrário!
Sempre que precisei, recebi a bênção
de padre Vicenzo – um italiano que
aqui chegou ainda moço com um bigodinho
louro, quase buço, de nos fazer cismar
acerca dos mistérios gozosos.
Era pau pra toda obra! Alguém
precisasse, ele acorria prestimoso com a
cruz, mas também com a palavra e,
sobretudo, com o exemplo. Nunca se enclausurou
com Cristo para expiar as perdições
do mundo.
Com sua dedicação,
ajudou muita gente. Zenóbia, por
exemplo, se curou do lumbago, depois das
preces que o nosso querido amigo lhe prescreveu,
sem cobrar sequer um centavo nem posar de
sabichão.
Armantilda, que há
anos amargava um panariço, se percebeu
novamente sã durante sermão
na paróquia, quando o italiano lhe
dirigiu algumas palavras, e nem precisou
acender velas para adular a divindade.
Quanto a mim, tenho a mais
grata lembrança de uma certa tarde
que saboreamos juntos, na sala aqui de casa
mesmo, tomando café na porcelana
das visitas e beliscando biscoitinhos de
araruta.
Sabia que ele viria e me
preveni de recatos: um peitilho de crochê
sobre o decote de outros tempos, a barra
do vestido abaixo dos joelhos e (o mais
triste) nenhum batom para me promover.
Ele chegou cerimonioso quase
às três horas com um pote de
mel e um punhado de romãs colhidas
no bosquezinho por ele mesmo cultivado atrás
da igreja desde a saudosa mocidade.
Enquanto a tarde reclinava
e instilava a cordura, nossas vozes baixaram
quase a sussurros e nos entendíamos
mais por olhares do que pelas palavras que
o sotaque de Vicenzo edulcorava.
Sem dúvida, éramos
irmãos em Cristo, mas havia um certo
incômodo, porque um homem diante de
uma mulher é um homem diante de uma
mulher, e isso só faz render assunto.
Zenóbia e Armantilda se coçam
de curiosidades até hoje para saber
o que houve, de fato, naquela tarde. Imaginam
tertúlias, confissões insanas,
heresias de ruborizar o capeta. Quem me
dera!
Se bem até hoje guarde
um certo ar de felix culpa de deixar a todos
intrigados, mas a verdade é que a
tarde transcorreu numa sintonia mais etérea
que os véus profanos de Sherazade.
Houve um esbarrar de dedos,
sim, quando lhe passei a xicrinha de café.
Houve um roçar de cotovelos, sim,
ao pegarmos a louça na cristaleira,
quando senti na nuca a força da sua
morna respiração.
Mas o melhor veio depois:
repetiu o café e devorou meu estoque
de biscoitos com gula pagã, estabanado,
voraz, quase mal-educado, e eu achei aquilo
tudo tão interessante, tão
à vontade!
Em seguida, me disse com
voz alterada “Leonor, esses teus biscoitos,
querida Leonor, são de enlevar a
alma e tenho certeza de que nem Salomão
provou acepipe tão divino”.
Ah, por que ele foi lembrar
de Salomão justo naquela hora, enquanto
passava a lingüinha rosicler no bigode
dourado? Inevitável, então,
foi a lembrança do “Cântico
dos cânticos”.
Que ele me beije com
beijos da sua boca! Melhores são
as suas carícias que o vinho, ao
olfato são agradáveis os teus
perfumes; a tua fama é odor que se
difunde. Por isso te amam as donzelas.
Depois de se fartar, Vicenzo
tirou os sapatos e ficou ainda mais à
vontade, ria alto, coçava a barriga,
perdia a classe que o sacralizava ... e
esperei ouvir dele outro trecho dos “Cânticos”.
Oh, como és formosa,
minha amada, como és formosa! Os
teus olhos são como pombas, por detrás
do teu véu. Os teus cabelos são
como rebanho de cabras descendo das vertentes
pelas montanhas de Galaad.
Depois, o santo homem elogiou
o peitilho de crochê que as tias de
Poços de Caldas me ensinaram a fazer
e chegou a tocá-lo com a ponta de
seus dedos de serafim para “sentir
a tessitura”.
Eu pertenço ao
meu amado, seu desejo impele-o para mim.
Passemos a noite sob os cedros; madruguemos
pelos vinhedos, vejamos se as vides rebentam
e abrem os botões, e se brotam as
romãzeiras.
Sim, romãzeiras que
ele mesmo plantou aos fundos da paróquia
com mãos fortes e dedinhos de insinuar
arrepios, dedos que agora tamborilavam (impacientes?)
sobre a batina.
Arrebataste o meu coração
com um só de teus olhares, com uma
só pérola do teu colar. Como
são deliciosas as tuas carícias,
minha irmã, minha esposa! Mais deliciosos
que o vinho são os teus amores!
Eu observava Vicenzo e era
como se ouvisse da sua santa boca essas
palavras de Salomão, a quem Deus
quis venturoso, porque soube fazer ao Senhor
o pedido mais certo: sabedoria.
Resolvi, então, ser
sábia também. Sábia,
aí, no sentido de espertinha, quase
sirigaita, e sugeri ao meu visitante que
comêssemos algumas romãs com
mel que ele me presenteara.
Os teus lábios
são como um fio de púrpura,
e o teu falar é doce. A tua face
é como um pedaço de romã
por detrás do teu véu. O teu
pescoço é semelhante à
torre de David, rodeada de troféus.
Espalhei as frutas sobre
a mesa, o amigo cortou-as, mostrou-me o
interior rosado e me fez cheirar antes de
comer. Depois, derramou mel e enfiou delicadamente
em minha boca.
Ah, dava-me de comer! Retribuí prestimosa
e, quando seus lábios tragaram a
romã, ruborizei-me como donzela de
Salomão, porque Vicenzo lambeu meu
dedo besuntado com mel!
Depois, me deu mais frutas
e eu a ele, enquanto a tarde desenrolava
do manto escuro a noitinha cheia de sugestões.
Por baixo do peitilho de crochê, eu
suava como virgem ... e nos despedimos.
Zenóbia e Armantilda
não acreditam, mas foi só
isso. Afinal, Salomão pode tudo,
mas não pode abusar, que Deus castiga.
Me benzi, então, e voltei às
lides.
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um homem frente
e fundo
ferreira gullar
(Coleção Melhores Crônicas - Ferreira Gullar Seleção e prefácio Augusto Sérgio Bastos - Ed. Global 2005)
Lembro-me dele como de uma
sombra, de trapo e de poeira vermelha, deitado
junto a um poço, entre matos. E num
tempo que vai longe na memória, e
assim a imagem se afasta a tal velocidade
(ou a tal velocidade se aproxima) que se
incendeia – e a poeira é o
fogo vivo, o trapo é chama –
e a erva, tão calma de fato, parece
roê-lo como câncer.
Chamava-se Gaspar. Não
conheci, desde lá, muita gente com
esse nome e talvez por isso o nome se ligasse
exclusivametne a ele, a essa imagem obscura.
Assim, quando digo em silêncio
– Gaspar – a palavra se torna
seca, velha como pano puído, estopa
usada. E toda essa lembrança é
uma constelação de resíduos,
de coisas sem serventia, direi, uma constelação
de fundo de quintal: como se um balde, uma
pá enferrujada, uma trave de cama
e um paletó abandonado fossem as
estrelas dessa ursa menor, menor, menor.
Dizem que ele comia papel.
A infância é crente, não
sei se falavam de piada ou a sério,
mas o fato é que o vejo com os bolsos
cheios de papel usado, apanhado no chão.
Se o comia ou não, é coisa
que não afirmo, mas ele era um pobre-diabo
sem dinheiro, sem casa e sem família.
Talvez comesse.
Dentro dessa confusa esfera
de lembranças, surge uma outra imagem
em que ele aparece caído, à
margem da linha de bonde, perto do Anil.
Adiante era a casa onde eu
estava passando férias, ou morando.
Passo no bonde e o vejo ali, quero saltar
pensando em ajudá-lo. Alguém
me impede: “você pode cair”.
Mas será que foi assim mesmo? A mesma
lembrança se dá de outro modo:
salto do bonde, caio. Gaspar aparece e me
levanta, meio zangado, meio irônico.
Cheira a suor e cachaça.
Mas a imagem que persiste
é aquela, ao lado do poço.
Aproximo-me e ouço o ressoar de sua
respiração, o peito arfando
dentro dos trapos, o cabelo espesso, enorme,
em tufos ásperos e queimados. Não
estava morto. Deve, mais tarde, ter-se levantado,
mas, hoje, tanto faz. De qualquer modo,
penso vê-lo erguer-se e sair caminhando,
com os bolsos cheios de papel, os pés
rachados pelo chão quente; sair caminhando
para parte nenhuma, sem nenhuma razão
para caminhar, pobre Gaspar de carne e de
poeira.
Nada terá ficado desse
homem que, se tirou retrato, não
teve quem o guardase, e que talvez reste
apenas em mim, menos pelo que foi do que
pela confusa fixação que fiz
de fatos vividos.
Quando criança sempre
me impressionou o fato de que galinha não
tirava retrato. Noutras palavras: não
tinha história. Impressionava-me
ver como se sucediam no quintal de nossa
casa as frangas pedreses, as galinhas carijós,
mesmo os galos. Sumiam sem deixar marca
de sua presença e eram substituídas
por outras, que teriam o mesmo destino.
Ainda agora, daqui da minha
janela, vejo um quintal com galinhas e patos,
e o mesmo pensamento me volta. Não
posso me esquecer que é domingo,
e essa consciência influi no que vejo
com peso equivalente ao da cor cinza do
céu, ao do verde vegetal da amendoeira,
à úmida claridade da tarde.
Tarde de domingo num quintal do Rio de Janeiro
onde há patos, galinhas e um pé
de margarida lançando suas flores
vermelhas no ar. E onde há outras
coisas como um telheiro de telhas-vãs,
duas pedras grandes num canto e um chão
de terra escura com manchas de umidade.
E um homem que vê tudo isso, e que
ouve, por detrás das casas, o ruído
de ônibus e lotações
que passam, certamente, com pessoas em roupas
engomadas, limpas, dominicais.
Mas aqueles bichos que vejo
lá embaixo no quintal não
sabem disso. Estão dentro do domingo,
caminham, comem dentro dele, pisam-no e
o respiram, constroem-no com seus movimentos
e suas penas pretas e brancas, mas não
o possuem. O domingo se reflete em seus
olhos de conta, vem de dentro de sua garganta
com o grasnado ou sem ele. É certamente
um domingo especial, o domingo deste quintal
de Ipanema, que parece contido à
direita por duas paredes claras de um prédio,
à esquerda pela amendoeira e o muro
da escola, ao fundo por pequenas árvores,
e à frente por minha janela e meu
corpo. O escritório está fechado
e do outro lado da porta começa outro
domingo de rádio e televisão.
Saindo por essa porta, atravessa-se
a sala e chega-se ao elevador, que pode
levar-nos até a entrada do prédio
e à rua, onde transcorre um domingo
extremamente diferente deste domingo de
quintal: o domingo público, de namorados
e crianças, de futebol e cinema.
E assim esse edifício é como
um túnel que liga dois tempos contrários,
dois mundos que se submetem à mesma
data, mas que percorrem tempos diferentes.
Descubro que há um domingo das fachadas
e um domingo de quintal e da área,
fora da História, como as galinhas,
os patos e as margaridas.
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