Sobrevivi à tsunami

dona Leonor

 

O ano é novo, mas sou velha. Não caquética, macambúzia, santarrona. Nada disso. Padeço até suores inconfessáveis e, se visto aquele antigo vestido de gorgorão amarelo, tiro assovios aos motoristas da Viação Estrela que almoçam de marmita na calçada ali defronte.

Mas é só. De resto, sou velha mesmo. O espelho até que emite reflexos favoráveis, tenta me atribuir outra idade: esconde rugas se não as quero ver, tinge cabelos quase totalmente brancos e põe uma chispa sirigaita nestes olhos já sem a antiga capacidade de se surpreenderem. Mas não me engano: estou velha.

Soube disso (ou melhor, admiti, afinal!) na passagem de ano, quando vi Carlinhos passar a caminho da praia com sua prancha de surfe. Ia pegar ondas esse meu aluno de linguagem que, em criança, aparecia toda tarde de calção de suspensórios, acompanhado da cadelinha Pipoca. Num piscar d´olhos, cresceu rápido, virou homem ou quase – um latagão, dizia quando moça. Pois ele já não era menino e eu...

Em 2005, essa foi a grande notícia que, de início, me arrastou à depressão com a força avassaladora de uma tsunami. Mas sobrevivi, porque consegui me manter à superfície e, para tal, me agarrei ao que pude, ao que restou de mim, de meus sonhos e de minhas esperanças.

Estou velha, mas não morta – concluí, então. E me peguei repentinamente enternecida pelas dobras de pele, principalmente nos braços, nas pernas, debaixo do queixo e ... quase no corpo todo, é verdade. Pra ser sincera, acho que só os calcanhares escaparam das pelancas. Mas gosto delas, constituem uma espécie de acervo e me mostram que já fiz muito, já senti muito, a ponto de me empilhar em cima de mim mesma como um valioso arquivo.

Antes, quando o espelho queria me punir, me sugeria a metáfora de um tecido qualquer que alguém atirava com displicência à cadeira e ali permanecia amarfanhado de abandono e de desencanto.

Agora, a coisa mudou. Mudou muito, minha comadre. PORQUE GOSTO DE MIM! Gosto de ser velha, de me livrar do arbítrio do espelho e da fita métrica, de me livrar do apelo pervertido do consumo para me manter na crista da onda. E, a esta altura, de que me serve uma onda, se tenho a minha própria tsunami?

Podem cochichar à vontade, podem até pensar que Leonor desistiu, porque estarão todos enganados. Na verdade, Leonor surfa agora perfeitamente equilibrada, sem mais aflições, a caminho de uma linda enseada que a receberá em amoroso regaço. E logo vou chegar à praia!

Por enquanto, estou só surfando ao lado de Carlinhos. Estamos felizes na crista de uma onda muitíssimo pessoal, cada um na sua idade, mas ele (talvez por respeito aos mais velhos) cuida da minha segurança, que sou novata nessas águas.

“Aloha” – ele me saúda logo na chegada.

“Cuidado com a vaca, tia” – o moço me adverte e, espertinha, logo entendo que a tal vaca significa tombo, queda.

“Pô, tô gostando de ver. A tia tá no rip” - e aprendo que estar no rip significa estar em forma.

“Cuidado que aqui é point break” – ele adverte com expressão preocupada e aponta para o fundo. Mais uma lição: point break é praia com fundo de pedra.

E lá vamos nós, crista abaixo, sem medo de sermos felizes. De repente, Carlinhos me dá um susto daqueles: com destreza de acrobata chinês, surpreende a todos com um 360 perfeito, de embasbacar até os mais experientes mestres havaianos! O que é 360? Ora, essa também aprendi: é um giro completo que o surfista dá com a prancha em cima da onda sem interromper a surfada.

Não é mole, não! O garoto a quem ensinei linguagem me ensina, agora, novas palavras, um vocabulário que sai das águas para dar nomes a movimentos – isso mesmo de que minhas articulações tanto precisam.

“Vamos, vamos, tia – Carlinhos me incentiva –, que uma larica muito show nos espera lá na praia!” – e, dessa vez, tive de perguntar do que se tratava. Soube que larica é qualquer gororoba de preparo instantâneo que o surfista devora depois de sair do mar. E, se a larica é muito show, quer dizer está saborosa.

Por isso, surfo agora, a esta altura da vida, com determinação redobrada: posso não ter mais a faca nem o queijo, mas tenho a fome! E é essa busca de saciedade que me leva adiante, sempre adiante.

OUTRAS ONDAS, OUTROS MARES

Marolas – Não servem para o surfe, mas ensinam a nadar a quem nada sabe das águas, dos seus perigos e ciladas. Em Paquetá, quando ainda não havia favelas por lá e era o paraíso dos namorados, meu falecido João Petra me ensinou a boiar. Primeiro, com uma bóia mesmo, depois sem nenhuma ajuda. Levei um tempão para deixar de sentir medo mas, se gritava, meu querido acudia prestimoso com seu abraço de siri safado e me mantinha no colo mais tempo que o necessário.

Ondas – Há de vários tipos. Em geral, são ótimas para aprender a nadar e a surfar. Elas ensinam que, apesar das aparências, as águas guardam debaixo da tona a inconsistência que constitui a matéria-prima da realidade, o abismo que pode nos tragar a qualquer momento, sem aviso prévio nem o mais sutil dos sintomas. Para enfrentar o inesperado, é preciso aceitá-lo e conviver com ele, sem estranhamentos

Tsunamis – Depois de a onda gigante arrastar ao fundo do oceano quase 300 mil pessoas, logo após o Natal/2004, os observadores da tragédia tiraram várias conclusões e uma delas é que muitos se salvaram, porque se agarraram a qualquer coisa. Houve uma resistência, ainda que mínima. Por isso, sobrevivi à minha tsunami. Estou velha, mas bem viva.

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facetas cariocas

Glória Horta

Quem olha não diz.


Tamanha belezura passando por tantas dificuldades. É que Deus te fez forte, morros de pedra, hidratada, azul no céu dos olhos, marejada, alegre mesmo na dor.

As maravilhosas também enfartam.

Quando tensas, pressionadas, sem recursos, baleadas pela indiferença.

Não são os tiros que matam, é a indiferença.

Há épocas na vida da gente em que vivemos sob condição suspensiva. Como o enforcado do Tarô, só nos resta olhar, ver tudo de cabeça pra baixo e sorrir. Nada acontece mas prepara-se muita coisa. Não vivemos num país feito para planejamentos. Reduzimos os gastos com energia elétrica, quase andamos em casa de lanterna no chapéu como os exploradores de cavernas e grutas, quase tomamos banho de roupa para economizar a máquina de lavá-las. Aí vem a conta de luz reduzida e nem há tempo de sorrir, aumentam-se as tarifas. Fazemos percursos a pé para economizar combustível e mal temos chance de comemorar, a gasolina sobe. Ficamos menos consumistas, passeamos menos, bebemos menos, fumamos menos, por vezes até paramos com tudo aproveitando o embalo pra ficar bem, ótimo, de saúde. Levaremos lanchinhos pro cinema um dia. Obrigatoriamente hippies, de vestidinho preto porque a gente pode repetir variando os adereços comprados no camelódromo Fashion Mall. As leis são passageiras como os amores. Passageiros como os idosos correndo seus passinhos pequenos atrás de um ônibus que foge deles numa espécie de jogo soturno. Os motoristas calculam a distância entre o velho e a porta de saída que, por ser a de entrada deles, permite esse avançar e parar do motorista perverso e ilegal. Ninguém dá a mínima pra isso. Zumbis, os pagantes nunca se manifestam. É diferente quando quem faz sinal é uma mulher jovem ou bonita. Pra ela o transporte coletivo pára na porta de casa, no meio da curva, da rua, pouco importa. São dramáticas as regras do ir e vir cotidiano. Organizar, planejar as nossas economias é como pegar ônibus, sendo idoso. A porta nunca está onde estamos. A chance que perdemos fica sempre a alguns passos adiante, há alguns minutos passados. Alienados, semi-adormecidos, cabeça pendendo de sono, sentados, em pé, seguimos nosso trajeto diário, quase cegos. Desviando o olhar dos meninos que fazem malabarismos nos sinais, dos ambulantes brilhantes com sua oratória vendendo balas, canetas e até livrinhos com tabuada, estes que entram pela porta de saída dos ônibus sem ar condicionado. O povo trabalha, mesmo contra disposição implícita de nossas autoridades. A gente segue, tentando manter o bom humor, como o louco do Tarô carrega seus pertences numa trouxinha nas costas, olhando para o céu, em direção ao abismo, seguido pelos latidos de um cão nervoso que nos acompanha e que, provavelmente por não ter contas a pagar, consegue perceber o perigo.

 

 
 
 
poeta da vez
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