| A
força de uma poesia
Antonio
Olinto
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Ganha a poesia brasileira, cada
vez mais, um ritmo de canção
que pode ter recebido um antigo
impulso no livro "Canções",
de Cecília Meireles. Ainda
há pouco também
Carlos Nejar publicou suas "Canções"
cuja força aqui realçamos
em artigo recente. Recebo agora
o livro "Cantares",
de Lúcia Fonseca, digno
de figurar entre os belos volumes
de poesia publicados entre nós.
Veja-se a beleza de seus versos
em "Noturno II".
"Aqui é
noite./ Definitiva noite/ como
dentro de um fruto./ Um peixe
que se percebesse só no
oceano/ talvez sentisse medo./
E no entanto é só
que ele nada/ o mais das vezes.
Aqui é noite./ Apalpo sementes
no ventre escuro do sono./ Tudo
é tão quieto, calado,
enrodilhado em pelúcia./
Que longas as gestações;/
o mendigo, o palhaço, o
príncipe, o bêbado,
o triste/ se fazem assim, no escuro
- só mais tarde, sob as
luzes/ serão coroados./
Nessa hora, entre todas, a mais
silenciosa/ imóveis dormem
sonhos e poemas - sementes na
bruma./ Ouvir-lhes o silêncio,
o sono,/ confiar - eis tudo".
Em seus "Cantares",
descobre Lúcia Fonseca
uma coisa dentro da outra, numa
faculdade lúdica do poeta,
que vem a ser também uma
busca de realidades e da realidade.
Seu domínio sobre as palavras
provoca, em geral, a desejada
adequação entre
conteúdo e linguagem. Com
esse domínio, consegue
a autora chegar a essa transmutação
da realidade em cantos. Em cantares.
Consegue também infundir
nos seus versos aquele "autêntico
e inimitável sabor da vida",
que Reverdy coloca no ápice
da função poética.
Há na
poesia uma posição
que poderíamos chamar de
"posição da
dignidade". É certa
finura no perceber as coisas e
no mencioná-las. Estou
falando ainda do momento que antecede
a feitura do poema, da predisposição
interna do artista, do modo como
pega a realidade, antes de glorificá-la
em palavras. Esse modo de ver
- sereno a aparentemente distante
dos objetos - quando desligado
da sensoriedade dos românticos,
já levou muito poeta ao
parnasianismo e ao simbolismo.
O afastamento
do sensorial provoca ligeira guinada
para o cerebral e, aí,
adquirem as palavras certa pureza
que um romântico de verdade
dificilmente conseguiria exibir.
Se quisermos situar Lúcia
Fonseca numa linha de antecedentes,
poderíamos citar Alphonsus
de Guimaraens, Raul de Leoni e
Cecília Meireles.
Importa pouco
tenha a forma poética mudado
tanto desde o tempo desses poetas.
Merece, sim, ser assinalada a
existência de uma atitude
interior que os coloca - a eles,
a Cecília e a Lúcia
- na disposição
de, repetindo Mallarmé,
"não ceder a iniciativa
às palavras".
Para mostrar
o modo como Lúcia Fonseca
se apossa das palavras, levando-as
a um ritmo dramático e
forte baseado no verso "Vim
para morrer", transcreverei
os vinte-e-quatro versos de seu
poema Trânsito:
"Vim para
morrer. Trago comigo/ os panos
de linho claro, mão fechada,
um lenço/ e o gesto do
recém-nascido. / Ao pescoço,
/ sete voltas do cordão.
Medalha. // Quem disse que trouxe
nos olhos abertos/ lendas de antigas
infâncias? / Quem disse
que, das mãos, escapou-me
a ânfora, / lançando
ao chão, em cacos, o vinho?
/ Vem para morrer tão simplesmente,
/ como caem as folhas e se apagam
os cigarros/ no final de um ciclo.
/ Decerto o que tinha de cumprir,
cumpri./ Embora esperasse mais.
(Somos sempre uns príncipes
em pensamento).// Ainda as vísceras
se esforçarão em
seu inocente exercício./
Ainda o pulso latejará
por obrigação de
mais um dia./ O sol pousará
no horizonte. Pela janela ainda
verei a lua/ nascer dourada no
mar./ Então partirei, madrugada./
Deixo - infelizmente - / o quarto
desarrumado,/ a cama desfeita/
os papéis em desordem".
"Cantares"
é um lançamento
da Editora da Palavra. Revisão
de Rosane Ramos, capa de Gabriel
Voser. Prefácio de Reynaldo
Valinho Alvarez, que apresenta
uma ótima análise
da obra de Lúcia Fonseca
que é detentora do Prêmio
Emílio Moura do Governo
de Minas Gerais, a ela concedido
no começo de sua atividade
literária.
TRIBUNA
DA IMPRENSA, RJ 03 de junho
de 2008, por Antonio Olinto.
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