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Conversação no umbral da grande sala

Izacyl Guimarães Ferreira

Em texto recente, na edição 115 da revista que edito para a UBE, “O Escritor”, utilizei como epígrafes palavras de Antonio Machado e T.S.Eliot, insinuando o que o título acima prenuncia. Isto é, que a poesia pode ser lida ou ouvida como fala, conversação. Para os dois poetas, a poesia e a fala diária têm muito em comum, tendem uma para a outra, segundo a leitura que fazemos de seus conceitos.

Ou seja: após tantas idas e vindas, voltas e revoltas, a poesia que fica, tem ficado, deverá ficar na memória e na história, seria a que se esconde ou se mostra na fala, a que a língua possibilita sem precisar ser destruída, desconstruída.

Nada contra as procuras ou as tentativas de invenção do discurso poético. É através delas que a poesia sobrevive, tal como se aprimora a fala entre a infância e a cultura adulta. A frase famosa de Picasso, sobre voltar a desenhar como criança, ou a outra, de pintar com a mão esquerda, tem a ver com o que penso a respeito. Isto é: o novo, essa incessante busca para dar alento à vida, é válida como contínua transformação do já existente, alquimia, troca entre o que morre e o que vive. Mas que na aprendizagem da mão esquerda ou do desenho que a “criança” faz, valha o resultado, o produto criativo, mais que a simples procura, nem sempre bem sucedida.

Penso e digo estas coisas ao ler Astrid Cabral escrevendo poesia,como a deste seu último livro, “Ante-sala”. Ante-sala é sua metáfora para a vida, a que conhecemos, antes de cruzada a porta para onde já se encontra, em “plena sala”, o poeta a quem ela dedica o livro, seu marido há pouco desaparecido, Afonso Felix de Sousa.

São características constantes na poesia de Astrid, iniciada décadas atrás, versos que são conversas com o leitor, conversações de pessoa a pessoa, sem afetação, sobretudo sem perda alguma do que se entenda,essencialmente, seja a poesia. A sua consegue um tom que já começa nos títulos de livros e poemas – uma arte à parte, pois nem todo poeta
sabe dar títulos ao que escreve. Astrid sabe, e em toda a sua obra seus títulos funcionam como auto-epígrafes.

Sua obra aborda numerosos temas, não importando se aqui e ali eles sejam de aparência “trivial”, como ocorre com alguns dos poemas da segunda parte deste livro e nos anteriores, ou se a poeta enfrenta, como agora, ou no recente “Rasos d´água”, o mais doloroso “assunto” : a morte, ocorrida ou esperada. Sempre, sua dicção é uma conversação.

“Ante-sala” é um achado, conceitual e de título, em que a simplicidade e a imediatez já nos preparam para o que vamos ler, bastando para tanto o primeiro poema do livro, parcialmente reproduzido na contra-capa:

Este o mundo
de mistérios
refratários
a microscópios.

Este o mundo
de muralhas
inexpugnáveis
a máquinas.

Aqui a noite
opaca e parca
de estrelas.

Aqui os olhos
embrulhados
em dobras e sombras.

Esta a ante-sala:
áspera espera
de outra era.

Precede o livro uma frase lapidar de Guimarães Rosa: “Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala.” E os poemas se dedicam a lembrar-nos que vivemos na incerteza do que virá, de que luz seria essa, que clareia a sala. Pode-se, talvez, só talvez, pensar que a poeta teria a visão cristã de que o que vale é o depois, que “este vale de lágrimas” é só uma espera, “áspera”, diz ela.

Mas creio que não. Embora só os otimistas em excesso, os cegos, achem que a vida, esta, a da ante-sala, é maravilhosa, nós, os mais cientes, sabemos desde há muito o que dizia Gonçalves Dias (viver é lutar, etc). Então, a atitude que nos salva do desespero, do tédio ou do suicídio – estes extremos – será a consciência de que aqui está o que sabemos, nesta ante-sala. E há que desfrutar e celebrar, sem medo ou desperdício, os olhos abertos, “ao rés do chão”, como se titula a segunda parte do livro. A fé num depois, à luz possível da
grande sala (definitiva? temporária?) é outra questão.
Nas duas partes do livro Astrid nos fala da vida “no limite do ser”, como propõe o poeta prefaciador Igor Fagundes, leitor de Heráclito, que recorda o fragmento 18 na abertura de sua apresentação do livro:“Se não se espera, não se encontra o inesperado, sendo sem caminho de encontro nem vias de acesso.”

Rés do chão. Ou seja, consciente, atenta, entre lamentos e celebrações do quotidiano, vivendo o dia-a-dia sem nada perder do que ele oferece, sabendo que o tempo é escasso, é o que temos e deve ser bem vivido.
Uma passagem a ser atravessada:

Atravessar a dor

a ópio, a espasmos.

Atravessar o entrave

a treva, a carne.

Atravessar o ser.

Dar na outra margem.

 

Mas a poeta resiste ao desafio do “imenso labirinto”e o persegue(pg.32):

Nada sei a não ser
este desejo infinito
de um Deus explícito.

Na falta deste explícito, divino mostrar-se, entre crer e duvidar, entre o dia e a noite: esperar, operar. Ser para a morte, como nos define o filósofo, ao homem cabe a tarefa de Sísifo, a de levantar sem cessar a pedra ladeira acima enquanto a vida escoa ladeira abaixo. Que seja preciosa a pedra e valha a pena o esforço. Pois o homem é também um ser para o Canto. É o que faz Astrid Cabral nesta ante-sala em que estamos todos: cantar a vida,“morte adiada”,ao encarar o destino comum:

chamo à vida sobremorte
e à morte sobrevida.

Nada fácil essa atitude de enfrentamento, essa consciência da finitude que aprendemos desde cedo alguns, algo mais tarde outros. Porta-voz da espécie, cabe ao poeta a tarefa de iluminar a ante-sala, como faz este pequeno livro que é uma exemplar conversação no umbral da grande sala.

 

ÓRBITA

Izacyl Guimarães Ferreira

No Rio de Janeiro, no âmbito da poesia, Helena Ortiz põe em órbita livros de poesia da ep - editora da palavra, e no portal panorama da palavra, que durante anos foi impresso, divulga poesia de hoje, de ontem e de amanhã. Empreendimentos escritos assim em caixa baixa, mas de alta qualidade.

Creio que o livro “Fora de órbita”, o primeiro de Luiz Otávio Oliani, estará orbitando por um bom tempo, graças à incomum capacidade do autor em conciliar silêncio e palavra, risco a que estão sujeitos os poetas que temendo ou rejeitando o excesso podem deixar inconcluso ou dificultado o seu dizer. Não é o seu caso.

Como em boa parte da poesia mais recente, vejo aí um eco ou vereda do que freqüentemente compõe Gullar, do que pretendeu Cassiano Ricardo: importaria a tal poética, formalmente, os elementos de ritmo e silêncio em estrofes apenas “alinhavadas”- para usar uma palavra de Oliani - e não estrofes “costuradas”, silêncio esse que dá pausa também espacial à leitura, que libera o verso de qualquer medida imposta ou externa.”Linosigno” é o nome que Cassiano dá ao procedimento.

Nada contra essa poética, que ao comentar livro de Helena Ortiz utilizei como título a frase “Quando o menos é mais”. Assim seu editado Oliani. Aqui, também, o menos é mais. Importa mais a essa poética (usemos termo quase em desuso:) a mensagem, à qual a forma deve ajustar-se.

“Fora de órbita” tem momentos em tom de oração, ainda que só sussurrada ou insinuando protesto “na inútil tentativa / de ser Deus por um minuto.”
Como mergulha em reflexões filosóficas, que o prefaciador Igor Fagundes, também poeta e professor (mas de poética distinta, senão diametralmente oposta), lucidamente aponta apoiando-se em Sócrates e Platão.

Poesia, filosofia e religião,sabemos,têm em comum a procura do todo, do ser, do mundo, da vida e da morte. Procura sem achamento, ousando dizer que a poesia é que mais se aproxima, por prescindir de sistema ou de fé, nem buscar, como a ciência, comprovação, por provisória que seja. À poesia basta a crença na realidade da palavra, no poder da palavra para tentar expor o “claro enigma”.

“Em mim a palavra se faz morada” diz este poeta num decassílabo desfeito em três linhas. Quando quer, escande redondilhas, como neste “Rascunho”:

na engenharia do verso
os andaimes permanecem
escancarados na folha
de papel jamais escrita
- o que não veio sucumbe
ao esboço do poema
em construção silenciosa

O livro todo é um questionar sobre a finitude certa diante da eternidade que seria alcançável somente pelo verso, pelo passaporte da poesia, como revela no poema “Despedida”. Ciente da escassa dimensão do tempo que nos é dado, Oliani se entrega a explorar o entorno com os sinais verbais e as pausas que a reflexão lhe concede, mais descrente que esperançoso, mas à sombra e até à espera da divindade, na mão um “Castiçal” de que quer ser “vela e luz”.

Epígrafes são mais que homenagens. São motes, faróis, sinalizações. Oliani abre o livro com Paulo Henriques Britto e o fecha com Ezra Pound:

Mas a semente espera. Ela é insistente e acerta / mesmo sem saber que erra

nos prepara no início, e pontua assim no fim: sou um poeta /e bebo a vida

Ou seja, se assim queremos ler: viver é tentativa e erro, é destino e fruição, pois “nada detém a vida” que “só faz sentido / quando se reparte o pão”, mesmo sabendo que “ninguém escapa da cruz”.

A dor geral, a consciência do sofrimento alheio, a caça à palavra e a sempre companhia do silêncio na luta constante com as medidas do tempo, a areia da ampulheta, os ponteiros dos relógios,a morte à espreita, eis marcas de uma poesia que não esconde o medo, a cal sobre o túmulo, o ponto final. Por confiar, mesmo “fora de órbita”, na morada do ser, a palavra.

Nas abas do livro Teresa Drummond fala do “confinamento” que envolve os poemas de um autor que estréia maduro, embora amplamente premiado em, suponho, concursos de peças esparsas. “Confinamento” é palavra de uso do poeta, e nele é a um tempo traço existencial, formatação poética, habituação ao constante silêncio que atravessa como vocábulo e conceito seu livro que conscientemente diz ser “fora de órbita”,título também de poema em que se pergunta “como escapar / ao confinamento?” Finalmente escapou e fez bem a seus textos a espera para apresentar-se com a segurança desta “Inquietação”:

na guerra das palavras
- fogo cruzado -

a vitória do verso

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