A
ENGENHARIA POÉTICA DE IGOR
FAGUNDES
Tanussi
Cardoso*
"Igor Fagundes
consegue, já em seu terceiro
livro, incorporar, a sua maneira,
um corpus próprio,
numa casa habitada por muitas vozes.
Quase obsessivo com o tema da arquitetura,
dos limites, da harmonia, do fazer,
que remete diretamente ao rigor da
elaboração de sua poesia,
Igor é um engenheiro das palavras,
mas, diferentemente da estrutura cabralina
(uma das suas muitas vozes), de onde
se originam seus tijolos e argamassas,
o poeta dela se distancia pela habilidade
da linguagem emotiva. O rigor de seus
versos não o aprisiona em rédeas
curtas, mas o faz viajar, tantas vezes
lírico, permitindo-o verdejar
além de suas paredes. |
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Num dos primeiros poemas
do livro, o poeta já indica o seu
jeito de ver a poesia – nem seca nem
inundada, mas em equilíbrio e harmonia:
não te quero, poema, pantaneiro
/ folha inundada pelo que não preenche
/ palavra vazada em desperdício /
afogada no excesso de sempre / não
te quero, poema, caatinga / rasgar teu cacto
na hora da seca / se no ardor do cansaço
/ parto em êxodo à procura
da vida (“geografia”).
Igor Fagundes, com apenas
24 anos de idade, é um engenheiro
do seu tempo, à procura da melhor
massa para as suas paredes, para a realização
da sua casa, metáfora correta
para seus poemas. Muitos deles vêm
carregados de citações, numa
linguagem cifrada, em que os bons leitores
de poesia conseguirão encontrar suas
matrizes. Entretanto, sem ser hermético,
o poeta não menospreza a inteligência
do leitor: entrega-se, mas deixa um véu
de perguntas sem respostas, indagações
a serem completadas pela sensibilidade de
quem o quiser acompanhar em sua aventura
poética.
O título deste
volume, por uma gênese do horizonte,
é extraído de um poema já
publicado em seu belo livro anterior, Sete
mil tijolos e uma parede inacabada.
A repetição do poema, agora,
passa a idéia de um trabalho em constante
andamento, de uma poesia em construção,
com seu sentido de obra em aberto, como
se, obrigatoriamente, numa eterna incompletude.
O poeta parece nos lembrar que estamos sempre
em mutação, mas presos a nossa
raiz, a nossa gênese. Igor
lança um olhar inquieto para dentro
de si mesmo e para o que o cerca, com a
seta ruminando o horizonte. À busca
da perfeição. Ou da sua possibilidade.
por uma gênese
do horizonte se constrói (ou
se desconstrói?) em seis blocos temáticos
onde os poemas se unem, se entrelaçam,
a continuar a idéia contida no anterior,
sem perderem a individualidade e mantendo
uma engenhosa unidade estilística
e temática, num labiríntico
jogo de inter e hipertextos, numa linguagem
líquida, em que o campo semântico
traz a raiz genética da água,
que, por sua vez, transforma-se num cantar
metalingüístico. Como se o poeta
houvesse escrito um único e grande
poema, em moto-contínuo, ou bumerangue,
sempre voltando ao ponto em que a procura
começa (“em tradução
a arte de um círculo”).
Igor é um poeta
com a dimensão que a palavra deve
possuir em humanidade, criatividade e beleza,
produzindo um trabalho profundo, temático,
complexo e maduro. Sem medo de se expor,
Igor Fagundes é, desde já,
um dos grandes talentos de sua geração,
e, a persistir pelejando na luta nem sempre
vã das palavras, o futuro o aguardará
com um gesto de eternidade.
* poeta, crítico literário,
jornalista e presidente
do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro
“Em por uma gênese
do horizonte, o jovem poeta Igor
Fagundes urde jogos de linguagem de natureza
poética, enredando signos e leitores
numa trama misteriosa. Porque, realmente,
de mistérios se trata. Mistérios,
há-os na liturgia católica
que os denomina “mistérios
dolorosos, mistérios gozosos, mistérios
gloriosos”. Também na liturgia
poética deste livro (...), os mistérios
nutrem-se de dor, gozo e glória
em torno do signo verbal.
(...)
Não se define
como fácil a leitura da poesia,
muito menos da poesia refinada no cadinho
de uma imensa sensibilidade e perspicaz
inteligência e promissora erudição
(...), raiando os clássicos, rasurando
os surrealistas, dialogando com o Apollinaire
dos caligramas, com o Kandinsky do ponto
e da linha, ressonando a doçura
das cotidianas “quintanilhas”,
reescrevendo, na obsessão da metalinguagem,
os modernos, configurando uma indecidível
pós-modernidade, com “fio
interminável” na poética
geométrica, plástica, apolínea,
agreste de João Cabral de Melo
Neto.
O livro (...) por
uma gênese do horizonte (...)
constrói-se como um quebra-cabeças,
um puzzle poético, um mosaico,
onde tudo gira, ao redor do eixo do signo
do verbo, sem rumo certo, mas com significação
prolífera. Revisitando, à
sua maneira engenhosa, a clássica
coroa de sonetos, quando um verso gera
outro verso, este repertório de
poemas age qual aranha, que tira de si
suas teias. Os versos e as estrofes formam
uma rede de signos, que se reenviam a
cada poema, constituindo um todo orgânico
(...) Oracular, bíblico,
arcaico, o verbo, na voz e nas mãos
do poeta, revigora-se, renova-se, ressignifica-se,
imerso nas águas da história
– o Oráculo de Delfos não
decifra: designa. (...) Em por uma
gênese do horizonte, o verbo
se reencarna na poesia, jovem e ancestral.”
Latuf Isaias
Mucci.

por uma gênese
do horizonte
hoje quero amanhecer com os afogados
implorar que voltem a caminhar comigo
penteá-los como se evocasse filhos
abraçá-los como quem pede
um chamado
hoje à tarde vou morrer
com os afogados
engolir a água que invadiu suas sebes
me arder no sal que arranhou suas malhas
e arranhar as minhas com o que partiu suas
pedras
hoje à noite vou salvar-me
entre afogados
ler em seus olhos alguma paz em riste
embora nas pupilas ouça ainda
uma voz rouca para sempre dilatada
amanhã estaremos todos
acordados
em mar profundo poderemos ser crustáceos
cavaremos até chegar ao mais escuro
ninho de pérolas e tudo será
claro
para amanhã iluminar
outro afogado
que na voragem de salvar-nos será
salvo
e se unirá ao nosso fio interminável
de corpos sob o pôr/nascer do sol
e amanhã saberemos
de que é feita
esta linha vista ao longe:
de um pouco de mágoa e muito de água
lavando por dentro o peito dos mortos
premissas
enquanto não se abrir em mar vermelho
em terra prometida a quem folheia
enquanto não vir cais
naquela fé
de ser moisés frente ao deus de alguma
página
e não enlouquecer conosco em ondas
girar com a gente em carrossel feito de
água
e esquecer com quanto desse
sal
se faz a ponte rumo ao fértil de
algum nada
enquanto não gritar
lá no seu fundo
um morto que se enterra na palavra
enquanto não viver
mais do que tudo
ser mais humano do que pode um absurdo
e não nos inventar
em seu real
realizar-nos quando rastro de invenção
um livro não será
ainda um livro
pedra oca de sua própria solidão

SONHOS(?)
DE KAFKA
Joaquim Branco
“Envolve a criança nas dobras
do teu manto, sonho sublime.”
Este é o último
fragmento do livro Sonhos, de Franz
Kafka, traduzido por Ricardo F. Henrique
(Editora Iluminuras). Poucas palavras, verdadeiros
touchestones onde o leitor pode se fartar
de beleza e, ao mesmo tempo, se perder em
suas variadas formas significativas.
Para conhecedores da obra
deste grande escritor tcheco, que viveu
na confluência do século XIX
com o XX e assombrou o seu tempo (e por
que não dizer o nosso?) com sua prodigiosa
literatura, fica um pouco difícil
pensar num título desses.
A obra de Kafka, considerada
um autêntico pesadelo da e na modernidade,
tornou-se a emblemática tradução
de nossas perplexidades ante o mundo que
se nos apresentava como indecifrável
e absurdo pelas guerras e outras aberrações
do ser humano.
Kafka, um jovem judeu
intimidado pela arrogância paterna,
pressionado no gueto de Praga, enredado
pela burocracia de um trabalho mecânico
demais para sua vocação de
escritor, escreveu um relato que até
hoje desafia o pensamento crítico
e remete sua reflexão para o futuro.
O processo, O castelo,
A metamorfose, América são
livros cuja linguagem é até
acessível ao público, mas
o pensamento que ela conduz, a tortuosidade
do dilema que propõe, a densa névoa
com que o autor reveste as palavras sempre
dificultam os caminhos do leitor.
Mas nada disso embaça
a beleza do seu texto erguido em cima de
uma simplicidade ao mesmo tempo poética
e enigmática.
Os fragmentos desta coletânea
denominada Sonhos foram recolhidos
em cartas a suas namoradas Felice e Milena
e ao amigo Max Brod e ainda em páginas
soltas de seu diário. E se não
constituem propriamente sonhos de uma pessoa
comum são viagens numa nave encantada
que só alguns poucos como Kafka podem
(e sabem) pilotar.
• Joaquim Branco -
poeta, crítico, professor de Literatura
(FIC – Faculdades Integradas de Cataguases),
doutorando em
Literatura Comparada na UERJ, autor de Passagem
para a Modernidade.

Processos de Aculturação
e Alteridade em Miltom Hatoum
Fernanda Massebeuf
*
Relato de um Certo
Oriente, de Miltom Hatoum (1989), é
o relato da volta de uma mulher a Manaus,
após longos anos de ausência,
e seu diálogo com o irmão
distante. É a história de
um regresso à vida em família
e ao mais íntimo, nos quais o destino
do indivíduo se enlaça ao
do grupo familiar, na busca de si mesmo
e do outro.
Por vir ao encontro da
ótica dos processos de aculturação
e alteridade, destacaremos o segundo capítulo
da obra, iniciado com a evocação
do acidente de Samara Délia, através
de um processo analéptico. A digressão
discursiva utilizada, estratégia
narrativa utilizada pelo autor, também
nos confronta à anedota em torno
do papagaio, símbolo dos processos
de assimilação e aculturação,
a partir das circunstâncias da aquisição
da Parisiense, passando pela evocação
da relação entre Emilie e
o relógio, e entre este e Samara
Délia.
Dentro do contexto do segundo
capítulo analisaremos brevemente
o trecho situado entre as páginas
25 e 27:
“Ao fim de quatro
meses de propostas e contrapropostas, ficou
acertado que não apenas o relógio,
mas também os espelhos e lustres
venezianos, as cadeiras art-decô e
um jogo e talheres de prata com cabo de
marfim ficariam em posse de Emilie; esta,
no jogo paciente e obstinado do toma-lá-dá-cá,
ofertou ao marselhês duas peças
de tecido importado de Lyon e um papagaio
dotado de forte sotaque do Midi e capaz
de pronunciar “Marseille”, “La
France” e “Soyez le bien venu”.
Separar-se do papagaio foi penoso para Emilie,
porque lhe fora presenteado por Hindiê
Conceição que durante muito
tempo amestrou o aracanga na arte de bem
falar. Da sua moradia suspensa, construída
no meio do pátio dos fundos da Parisiense,
ele rezava uma Ave-Maria, citava um versículo
do Deuteronômio e no início
da noite e nas manhãs ensolaradas
as palmas de Emilie ritmavam a canção
predileta das duas amigas: “Baladi
Baladi”. Ao anoitecer, os fregueses
e visitantes mais distraídos pensavam
tratar-se de uma transmissão radiofônica
em ondas curtas, de uma novena ou missa
realizada no outro lado do oceano. Parece
que vovô os corrigia, dizendo-lhes
“aqui no Amazonas os que repetem as
palavras dos apóstolos são
cobertos de penas coloridas e cagam na cabeça
dos ímpios”. Emilie sabia que
Laure, ao emitir cânticos com vozes
de brinquedo de dar corda, irritava o marido
a ponto de mantê-lo sempre afastado
do pátio. No entanto, ela só
começou a desencantar-se com a ave
quando esta embirrou com uma das empregadas
que serviu à família, antes
da chegada definitiva de Anastácia
Socorro. Era uma negra orfã que Emilie
escolhera entre a enxurrada de meninas abandonadas
nas salas da Legião Brasileira de
Assistência; estava tão faminta
e triste que havia esquecido seu nome e
sobrenome e só se comunicava através
de gestos e suspiros. Laure, no primeiro
contato com a novata, antipatizou com ela:
recusava-se a bicar as bananas e os mamões,
a ingerir a tapioca com leite servida pela
doméstica e interrompia uma canção
ou uma reza ao notar a presença da
menina no pátio. Emilie tolerou essa
birra por algum tempo, mas dispensou a empregada
no dia em que Laure amanheceu com o bico
coberto por uma pasta que era a mistura
de uma baba gosmenta com sal, desde então,
a ave silenciou. Nos meses de negociação
com o marselhês, Hindiê levou
o papagaio de volta à sua casa, empenhou-se
arduamente para que ele recuperasse e logrou
ensinar-lhe algumas frases em francês.
O marselhês ficou tão impressionado
com a desenvoltura fonética da ave
que, temendo a sua fuga, aparou-lhe as penas,
construiu-lhe uma gaiola de bambu e, contrariando
o sexo do animal, rebatizou-a com o nome
de Strabon. Os franceses e clientes do restaurante
“La Ville de Paris”, situado
na rua do Sol, ficaram surpresos ao ver
uma gaiola quase do tamanho de uma jaula,
pendendo sob o eixo do ventilador de teto:
a gaiola oscilava e girava como um móbile
gigantesco flutuando à deriva no
meio do pé direito de oito metros.
Só quando as palhetas do ventilador
paravam de girar é que era possível
enxergar Strabon, encolhido, as penas eriçadas
e a cabeça enfiada no corpo. Livre
das rajadas de vento, a ave recobrava sua
forma original: o calor lhe devolvia a plumária
furta-cor e o jeito sobranceiro, e uma voz
grasnenta repetia a última frase
aprendida: “Je vais à Marseille,
pas toi?” Uns riam sem compreender,
outros se entristeciam porque o porto para
onde Strabon se destinava era-lhes impossível
e só aguçava a nostalgia do
Midi distante. Emilie, por sua vez, enfureceu-se
ao saber que o marselhês expunha Laure
ao vendaval artificial para que o animal
se aclimatasse, desde já, às
lufadas de vento frio do inverno europeu.
Um dia resolveu ir até o restaurante,
mas estacou diante da porta ao ver a colônia
francesa concentrada debaixo da gaiola e
olhando para cima, enquanto um cego acompanhava
no acordeão a marselhesa, entre garrafas
de vinho tinto e champanha. Voltou para
casa indignada e desabafou:
- Com tantos galos soltos por aí,
decidiram fazer de um papagaio o símbolo
da Pátria. Só falta transformar
bichinha numa arara tricolor.”
O trecho entre as páginas
25 e 27 é narrado pela voz de um
narrador hetero e extradiegético,
ou seja, ele narra uma história que
já acabou, da qual não faz
parte. Constatamos a partir daí uma
focalização interna, acentuada
pelo elo psíquico entre narrador
e leitor, marca incontornável dos
romances memorialistas. A sensibilidade
do autor, no que diz respeito à sua
origem libanesa, e a relação
dessa cultura com uma outra, transparece
aos olhos do leitor através de elementos
que estudaremos a seguir, tais como 1) a
influência francesa na cultura libanesa;
2) a adaptação ou não
do imigrante à terra prometida; 3)
a exclusão do imigrante que se recusa
à adaptação e 4) a
aculturação, que servirão
a mostrar o quanto todos nós somos
susceptíveis à hibridez.
Esses elementos citados
passam pelo olhar, peça fundamental
que propicia a busca de identidade pessoal,
a integração do imigrante
e as conseqüências do processo
imigratório. Os espelhos, adquiridos
por Emilie no início do trecho, representam
o olhar das personagens sobre si mesmas,
a alma exterior delas refletindo a imagem
subjetiva e favorecida que muitas têm
de si, como diz Hilda Hilst : “a aflição
de ser eu mesma e não ser outra”(1999).
O espelho é o primeiro elemento que
induz à reflexão acerca da
identidade e da concretização
da assimilação do imigrante,
que passa impreterivelmente pelos olhos
do autóctone.
1) O espelho é adquirido
juntamente com outros objetos de decoração
de estilo francês. Aliás, a
cultura francesa é fortemente presente
ao longo do trecho. Ela é reflexo
dos tempos em que o Líbano foi possessão
francesa. Desde então, no Líbano,
há quem fale francês, quem
aprecie a culinária francesa, quem
tenha adquirido o gosto por objetos de decoração
pertencentes a movimentos provenientes da
França. Enfim, há quem tenha
integrado um pouco do estilo de vida francês
ao libanês. O autor realça
esse aspecto através do exemplo da
cadeira art-decô, do nome do restaurante
francês, de nomes de personagens ou
animais, etc. É interessante também
observarmos a precisão da referência
ao sotaque marselhês do papagaio que
falava francês, clin d’oeil
ao irmão de Emilie, quando este viveu
em Marseille, o que remete a uma ponte direta
Marseille-Libano-Manaus, que talvez se relacione
à vida pessoal do autor ou que então
seja simplesmente uma anedota.
2) Em seguida, a questão
da adaptação ou não
do imigrante libanês em relação
a Manaus é exemplificada através
da citação de um versículo
do Deuteronômio, livro do Antigo Testamento,
escrito por Moisés, no qual ele faz
recomendações aos israelitas
, quando estes se preparam para entrarem
na terra prometida. A repetição
sistemática do texto bíblico
serve sobretudo para se manter a origem
libanesa sempre fresca na memória,
sem deixar de lado as expectativas positivas
ou negativas em relação à
terra desconhecida, o momento em que tudo
começou, quando o primeiro membro
da família de Emilie chegou ao Brasil.
Aliás, essa família, composta
por comerciantes bem sucedidos, era bem
estabelecida financeiramente, o que facilitou
sua aceitação pela sociedade
manauara. Mas, no tocante à religião,
percebemos controvérsias entre seus
membros, o que facilitará ou não
a adaptação a Manaus. Emilie
seguia o cristianismo, era adepta da culinária
do Amazonas e tinha como animal de estimação
um papagaio, oferecido por sua amiga, Hindiê,
outra libanesa radicada em Manaus. Constatamos
que ela não teve problemas para se
adaptar ao Brasil. Além disso, ela
não esquecera sua cultura natal,
o que é reforçado pela citação
de sua canção predileta pelo
papagaio “Baladi, Baladi”. A
palavra baladi significa “meu povo”,
podendo representar a terra natal e tudo
o que tenha origem popular. Emilie tem seu
coração dividido entre o Líbano
e Manaus.
Em contrapartida, seu marido demonstra decepção
em relação à imigração,
ou melhor, à assimilação
da cultura brasileira da parte de sua esposa.
Ele mantém as tradições
libanesas, sendo mais refratário
à cultura brasileira, pois segue
o Alcorão, critica sempre que possível
as rezas proferidas pelo papagaio do meio
do pátio dos fundos da Parisiense,
evitando o local nessas ocasiões.
As diferenças entre essas duas personagens
ilustram os casos em que o imigrante tem
ou não uma certa abertura a uma nova
cultura, que será mesclada à
cultura natal que ele traz em si.
3) Supõe-se rejeição
ao imigrante que não se enquadra
aos padrões de comportamento vigentes
pela cultura da terra que o acolhe. Essa
questão é exemplificada pela
menina adotada por Emilie, diferente de
todos, negra e muda, e que foi imediatamente
antipatizada por Laure, sucitando a vingança
que acarretou em sua demissão. Há
também a menção do
nome Strabon, com o qual Laure foi rebatizada
pelo francês dono do restaurante.
Strabon foi o autor da
Geografia, obra na qual estudou a antinomia
entre os civilizados e os bárbaros.
Estes, romanos ou gregos, que viviam em
cidades, e aqueles, os outros povos que
viviam na periferia das cidades. Estrabão
salientou que alguns bárbaros passaram
a ser vistos como mais civilizados à
medida em que foram introduzidos ao modus
vivendi romano. A noção de
bárbaro e civilizado se constituía
basicamente em torno da noção
de centro e periferia, o que nos remete
à idéia de que os imigrantes
são apreendidos pelos autóctones
num primeiro momento como cidadãos
marginais, de segunda classe, pois seu estilo
de vida não vai ao encontro ao da
sociedade que o acolhe, gerando estranheza
em ambas as partes. No caso em que o imigrante
aceita ser introduzido ao estilo de vida
supostamente ideal, passa a ser assimilado
pelos autóctones, deixando de ser
apreendido como marginal.
4) Não podemos deixar
de mencionar a questão da aculturação,
processo voluntário ou imposto pelos
autóctones aos imigrantes, fragilizados,
numa situação entre dominantes
e dominados, o que é exemplificado
pela troca de nome do papagaio, de Laure
para Strabon, nome que vem de estrabão,
termo dado pelos romanos aos portadores
de estrabismo, os que deformam a realidade,
os que recusam a realidade que lhes é
imposta, vivendo reclusos num meio social
restrito, onde só praticam o idioma
e a cultura natais.
A nova realidade imposta
é exemplificada na passagem em que
o papagaio é vendido ao marselhês,
dono do restaurante, que o pendura numa
gaiola sob o ventilador para que ele se
aclimate ao clima frio europeu. A aclimatação
forçada remete à imposição
da nova cultura, forma agressiva de se arrancar
do imigrante os elementos de sua cultura
natal e lhe impor brutalmente a cultura
do país que o acolheu.
Todos esses diferentes
pontos de vista acerca do imigrante servem
a mostrar que somos suceptíveis ao
fenômeno da hibridez. Uma pessoa que
deixa sua terra natal traz em si uma certa
bagagem cultural adquirida desde o nascimento
e a mescla à cultura da terra que
o acolherá. O fenômeno se reproduzirá,
assim por diante, à medida em que
ela continuar a se movimentar em novas terras.
Em suma, nesse trecho, o autor tratou, dentre
outras coisas, da hibridez do imigrante
libanês no Amazonas, que traz em si
um pouco da cultura francesa mesclada à
libanesa, que será por sua vez mesclada
à manauara. A partir do momento em
que passamos por diversos lugares diferentes,
nos impregnamos com seus elementos culturais,
fazendo jus a Edward Saïd, quando ele
diz que “não existe fronteira
entre o oriente e o ocidente” (1979).
* Fernanda Massebeuf é
graduada em LLCE (Língua, Literatura
e Civilização
Estrangeira) pela Universidade Sorbonne
– Paris IV.
Realiza atualmente um Master (Mestrado)
a fim
de se especializar em literatura brasileira,
desenvolvendo estudo sobre a poesia de Hilda
Hilst.
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