O
EVANGELHO SEGUNDO KING
Boaventura de Sousa
Santos
por Márcio-André
de Sousa
deve haver um deus
que não nos governe
canine wisdom
Boaventura de Sousa Santos é um cara
estranho. Além de ser o único
sujeito no mundo que conjuga o verbo ir
na segunda pessoa do plural, escreveu um
dos livros de poesia mais estranhos que
eu já tive a oportunidade de ler.
Escrita INKZ, antimanifesto para uma arte
incapaz, lançado em 2004 pela
editora Aeroplano, é estranho em
seu sentido primordial – se refere
àquilo que é excêntrico,
àquele que é de fora.
Se Escrita INKZ fosse estranho meramente
por ser desconcertante ou extremamente inovador,
características que o livro possui,
não faria jus à estranheza
de seu autor. Mas ele é, em sua estranheza
verdadeira, uma possibilidade real de se
pensar o outro, esse excêntrico, esse
estranho tão próximo que escapa
de nós.
É preciso salientar
que Escrita INKZ é um livro bilíngüe.
Como todo livro bilíngüe, é
dividido ao meio, deixando cada uma de suas
duas faces de papel reservada a uma língua
diferente. Mas essa divisão simétrica,
deveras dual, única possibilidade
de articulação num livro que
permita ser aberto por uma das extremidades,
separa, não duas línguas humanas,
mas uma língua humana e uma língua
canina – criação de
uma terceira página possível
dentro das limitações da tecnologia
de um livro. Em poucas palavras, é
um livro editado em português e em
cão. De um lado, as imagens narradas,
sem que haja necessariamente um narrador,
desdobram uma série de personagens
arquetípicos (observados, é
bom dizer, nunca observadores) articulados
em suas seis mónadas –
palavra utilizada por Boaventura para se
referir às imagens concomitantes
que figuram no homem. A saber: figura,
cidade, andamento, momento, mulher nua e
orador-ninguém. Essas imagens
também poderiam dar conta, numa interpretação
bem particular, de tensões como indivíduo
x todo, mudança
x permanência, animus
x anima; sem maiores explanações.
Do outro lado, o lado
normalmente reservado à língua
traduzida, a mónada-cão,
chamada King. Dessa vez, além de
nomeado, o personagem é um observador
crítico e interferente. A sua
especificidade é ser a voz autônoma
e livre das outras mónadas.
Ser nomeado lhe dá o poder de dizer
algo verdadeiro sobre os observados. E é
justamente por isso, por ser “livre”,
por ser uma janela, como diz o autor, que
a mónada-cão, apesar
de ser dependente de todas as outras, é
a única que se expressa na primeira
pessoa.
No prefácio, ou
melhor, no desfácio do livro,
King, como todo cão, é impedido
de entrar em um bar. Esse fato é
o que revela sua condição
fundamental: a de excluído. É
essa condição que vai constituir
sua verdadeira força de atração.
King é aquele que por ser não-humano,
não-civilizado, não-eu, tem
o poder de traduzir essa língua que,
por estarmos nela inseridos, não
somos capazes de compreender. Para cada
fala da voz que nomeia as atitudes em nossas
próprias escalas de compreensão,
King nos dá uma tradução
canina, por isso humana e compreensível.
Ladrar é orgânico, Falar
é sobressalente. King não
aluga o cérebro a pensamentos, mas
aponta aqueles que o fazem. Um anjo exterminador
às avessas, mundano e impotente.
Se
Uma figura morre
Atropelada pelo trânsito interior
Uma figura faz todos
os dias ginástica
Para caber em si
Uma figura entra no
hospital
Com uma urgência fora de prazo
Uma figura sofre escoriações
Numa disputa com as mãos
(p. 60)
King avalia:
Noutro dia foi atropelada
pelo senso comum
Quase a matou
Para acordar é
preciso ter a dimensão dos outros
Para dormir é preciso ter dimensão
própria
(...)
Vejo apertos de mão
Que são combates
Há mãos que não recuperam
Nunca mais
(p. 61)
A tradução
kingueana, coisa na boca de qualquer vira-latas,
age como um transmutador do sentido poético
para o que eu chamaria de sentido metapoético.
Essa terminologia um tanto fajuta é
uma maneira paliativa de evitar uma leitura
simplista calcada nos conceitos clássicos
de subjetividade e objetividade.
O papel do King não termina no de
mero observador desses transeuntes. King
é mónada, e por isso,
parte constituinte das outras mónadas,
logo, não é independente,
como acontece nos elementos da classificação
kantiana de sujeito e objeto. King é
criador e criatura, observador, mas também,
fruto. O que diz não melhora ou piora
o dito da primeira página, mas o
reenvia criptografado, mordido, babado e
cavoucado, aos seus donos verdadeiros. Essa
nova versão possui agora uma estética
mais mundana. As imagens do livro, humanas
ou caninas, que poderiam ser vulgarmente
qualificadas como surreais por
algum crítico reducionista, mas que,
sabe-se, e é preciso um espírito
poético para sabê-lo, revelam
a face real das coisas:
Uma figura abre a porta
E surpreende-se com um buraco enorme
Deve ter sido aberto de noite
A rua mal se vê ao longe:
É possível sair de casa sem
entrar na rua?
(p. 48)
Versos como este nada mais
são que verdadeiras constatações
do real, obscurecido pelo simulacro do cotidiano.
King rosna sobre o papel e regurgita:
As ruas sempre foram
feitas de buracos
Os intervalos entre eles é que são
recentes
(p. 49)
A figura pode agora, graças
aos retoques plásticos da saliva
de King, tentar soluções de
buracos ou intervalos.
Através desse jogo
de criador e criatura, troca e transmutação,
o leitor perde a própria dimensão
de sua “subjetividade”, esquece
o eu e se entrega a esse outro-eu. O leitor
já não é leitor, é
King, é figura, é cidade e
todas as outras mónadas
a ver-se no microscópio de sua própria
fragilidade. Passamos a nos questionar se
há um autor. Se foi Boaventura quem
criou King ou King quem criou Boaventura.
Separadamente, cada um deles segreda a criação
do outro. Em que mundo confiar então?
O “verdadeiro” ou o “poético”?
Se pensarmos em Octávio Paz, não
há diferença. Talvez agora
fique claro o sentido pleno da terceira
página possível citada anteriormente.
Essa terceira página não se
detém em nenhuma fronteira. Como
na complementaridade quântica, ambas
as páginas, direita e esquerda, apesar
de serem “excludentes”, representam
aspectos igualmente essenciais da coisa
referida, e só através desse
contraste é que se pode dizer algo
realmente verdadeiro desta coisa. A terceira
pagina é então o próprio
real. Mais: é o real mais real que
o real. É o real evidenciado através
das diferenças.
A escolha de um cão
para figurar como o tradutor da in-diferença
não é aleatória. O
livro é essencialmente anti-estético,
anti-sublime. Para ser verdadeiro, King
não pode ser nem consoante nem dissonante.
Ele não se enquadra numa classificação
achatada. É preciso que ele seja
paralelo, tenha a convivência do homem,
mas não seja homem, pois
Só os cães
Sabem
Universalizar para dentro
(p. 151)
A Literatura sempre teve
o poder de oferecer imagens fundadoras ao
homem, imagens reais que possibilitam a
solidificação da própria
realidade. Imagens compactas que, como num
caleidoscópio, se desdobrem em milhares
de questões fundantes. Aquiles, Orlando,
Don Quixote, Macunaíma, os deuses
de Hölderlin, o mar em Saint-John Perse,
são imagens fundadoras-questionantes
de seu tempo, de sua terra e do mundo subseqüente.
Parece que isso foi esquecido pelos poetas
de hoje. A ninguém interessa mais
propor imagens fundamentais, e o próprio
Boaventura evidencia isso ao falar, no
desfácio, do vazio de sua geração.
Seu cão filósofo assume-se
então como a mais forte das imagens
a propor questões para o homem moderno.
Mas apesar dessa imagem-cão chamar-se
King, ela não representa a carta
do rei, não tem poder para, caminhando
em todas as direções, ser
o centro do tabuleiro, nem participa de
uma grande tragédia shakespeareana.
King não é, e nem poderia
ser, por exemplo, um poodle. King é
o cão que ninguém quer, escorraçado,
vagando a esmo pelas ruas, enxotado dos
restaurantes e lambendo suas feridas. King
é a imagem daquilo que não
desejamos ver: o lado feio e sujo do mundo.
Nossa geração prefere os lugares
limpos, os shoppings, as ruas bem iluminadas,
as pessoas alinhadas, a limpeza visual do
cinema norte-americano e a assepsia acústica
da música pop. King prefere a sujeira
dos filmes de Godart, a imperfeição
do jazz dos guetos, as ruas tortas, as casas
abandonadas, os transeuntes desgovernados
caminhando desconexos e sem sentido. King
é o cão picaresco, chapliniano,
amante das mulheres e fugitivo da policia.
King é a evidência mais forte
da hipocrisia e da solidão humana:
Uma figura geométrica
Para só ter liberdades
Previsíveis
(p. 26)
Vive no meio do tempo
E o tempo no meio dela
Mas não se conhecem
(p. 31)
Num mundo ainda tão
centralizado e plano, King é aquele
que fareja as margens à beira do
mundo. Percebemos agora que a grande questão
a ser evidenciada, pelo livro como um todo,
é o que há por trás
das aparências da maravilhosa ordem
moderna e quais os mecanismos de enquadramento
sobre os indivíduos. A falsidade
das vivências ofertadas pelo simulacro
do sistema de produção e do
consumo, oprimindo e escondendo o real real
revelado pela terceira página. A
cidade está a ser produzida/ Em algum
lugar/ Tudo que se passa é analogia/
De alguma outra coisa.Como transfigurar
essa realidade, King é quem se encarrega
de tentar responder. Não como um
pensador, mas como um mártir, que
vai dar seu corpo canino à experiência
do excluído. King é a resposta
à questão da figura na sala
de banho: onde estou quando não
estou aqui? Somente sendo o outro é
que podemos ter a dimensão de nós
mesmos:
Se os humanos ladrassem
Seriam mais humanos
(p. 133)
Na margem
Quem fala é falado
(p. 131)
Ainda que o suposto autor
de Escrita INKZ afirme que King vive com
ele, sabemos que Boaventura é ocupado
o suficiente para saber por onde o seu cão
anda. Quando se dá conta de encontrá-lo,
ele já vagueou por todos os becos
de todas as cidades do mundo. King, ademais,
é um cão cosmopolita.
Sou um flâneur
Gosto de medir o movimento da cidade
Pelo pulso das formigas
(p. 91)
A ironia, como marca desse
nosso mundo moderno, é sua filosofia,
seu canine wisdom, formulada na
escrita do chão, à altura
do focinho. Escrita INKZ é um livro
lúdico, divertido, coisa rara. Talvez
por isso, polêmico. Trata o mundo
com ironia desconcertante a ironizar a própria
ironia do mundo.
Boaventura, por profissão
sociólogo, tem se saído melhor
do que a maioria dos poetas de profissão,
que, quando raro, só sabem fazer
má sociologia. Escrita INKZ não
é meramente poesia do cotidiano,
como tem feito, a torto e a direito, esses
poetas. O cotidiano é a imagem eleita
pelo autor como espaço possível
para seus personagens-instantes serem “observados”
por seu personagem-permanente, King. Seu
livro é uma cosmogonia do presente
incapaz de dizer-se a si mesmo, pois o presente,
matéria feita a todo instante, escapa,
pela previsibilidade da mudança,
da imprevisibilidade permanente do próprio
livro. Aliás, como toda obra que
permanece, Escrita INKZ será sempre
uma incógnita para qualquer presente,
este ou futuro. Ele só pode ofertar
o mundo à medida que o questiona
e o descompreende. E sua descompreensão
o coloca em profunda sintonia com as questões
mais cruciais de nossa humanidade hoje.
O poeta, sábia divindade descida
a terra no corpo de seu messias-cão,
aconselha-nos a ser menos humano, menos
perfeito. Pronto para salvar o mundo da
soberba, a partir do evangelho da mediocridade:
Dormir é o ato
mais próximo
De deus
A seguir
É foder
(p.237)
Em sua escrita ideogramática,
quase um jogo imagist, onde imagens
se opõem com forte contraste, sem
diluição, sem explicação,
sem amenizações, suas frases
concisas são versículos proféticos.
E do choque abrupto dessas imagens contrastantes,
Boaventura vai construindo pouco a pouco
o evangelho do King. Nele, sua mensagem,
sua boa nova, ainda mais nova, e tão
conveniente para um mundo à espera
de novas palavras de ética, é
esta: o homem é histórico
e esse é seu maior dom. Viver e fazer
história são o mesmo. Esse
é o ensinamento que nos deixa King,
ao final, crucificado pela solidão
de ser outro. Consola-o saber que o
juízo final será um juízo-cão.
Fazer história é deixar-se
ser falho, caído, longe da perfeição
ofertada, à distância, pelo
Deus dos vencedores, esquecer o sublime
que cunhou para alcançar e deixar-se
ser um pouco cão.
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