Campo
de pouso
Joana Maria Neves Guimarães
Editora da Palavra
103 págs.
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A última epígrafe
do livro de poemas Campo de pouso,
de Joana Maria Neves Guimarães, parece
reunir, em síntese, toda a problemática
que perpassa a obra da poeta piauiense,
em seu primeiro livro solo: “Havia
um vôo abandonado no chão/
à espera das asas de um pássaro”.
Os versos, de Joaquim Cardozo, poeta-engenheiro,
transmitem sentidos múltiplos, não
se restringindo apenas ao fazer poético.
O aporte da metalinguagem é viés
possível, por meio do qual poderia
revelar-se o “chão” como
a folha em branco; o “vôo abandonado”,
as palavras ainda não pronunciadas;
as “asas de um pássaro”,
o sopro dado pelo poeta para que as coisas
nasçam, se não do branco da
página, pelo menos de qualquer região
onde habita o vazio, ou a rotina, que, para
Joana, pode ser transmutada “em uma
clareira/ aberta com palavras/ recolhidas
devagar”. Mas logo após vivenciar
o momento epifânico, retorna à
lide diária, que nem por isso deixa,
agora, de ser sagrada: “volto às
panelas/ às vassouras/ ao sono: iluminada”;
versos do poema “Em rota”.
O diálogo não
só com Joaquim Cardozo, mas com inúmeros
outros poetas, evidencia o recurso estético
utilizado por Joana Maria. As citações
e alusões apontam para a intertextualidade
vivenciada nas malhas do cotidiano, em pequenos
objetos, ruas, cidades, entre pessoas do
círculo familiar, entes que partiram,
ou até figuras anônimas. De
fato, a autora não só sai
“iluminada” de seu trajeto poético,
mas ilumina as coisas com palavras outras,
procurando, como pescadora, fisgar o “peixe-palavra”
das “águas-revoltas”
que constituem nosso dia-a-dia. Foucault
já apontava para a cisão entre
palavra e coisa, constituinte de nossa contemporaneidade
poética. Joana Maria, também
em diálogo com Rilke, está
à procura da palavra-coisa, que talvez
se esconda atrás das cortinas, o
tigre que, de seu avesso, “unhas afiadas/
olhar agudo/ se sabe preso/ a um cômodo/
sem portas/ a liberdade/ atrás das
cortinas”.
Nossa “liberdade”
partiria então desse momento único
em que o poeta celebra o nascimento pela
palavra. Tal gesto não o afasta de
um poder divino. Hölderlin dizia que
a poesia nasce de um sopro, como o de Adão,
que ao nomear as formas do mundo se apercebe
de que tudo pertence à sua própria
voz. O mundo é então criado
pelo poeta, ou este, deixando-se tomar pelo
mundo, inventa-se? Em “Poética”,
Joana Maria parece estar de acordo com a
última afirmação, ao
dizer que a poesia “sem que a veja
por inteiro/ me toma”. Aqui se assinala
um dos caminhos possíveis pelo qual
age a literatura: o escritor se faz veículo
da poesia, porque ela antecede ao homem.
Maurice Blanchot punha em dúvida
se era o poeta a mover a pena ou a pena
a mover o poeta.
A par dessa preexistência
do poema em relação à
realidade, ou, dito de outra forma, do fato
de toda a vida ser literatura, linguagem,
Joana Maria também não se
isenta, de modo algum, de nos lembrar que
a emoção e a arte não
podem prescindir da técnica. Assim,
em “O engenheiro”, poema que
abre Campo de pouso, a poeta nos
confessa sua dívida a João
Cabral de Melo Neto, para quem, tomando
a paráfrase dos versos de Joana,
o objeto poético “diz um canto/
lavado/ e não tocado/ por flauta
florescida”.
Nesse trecho, metonimicamente,
se apresenta a estética procurada
por Joana Maria Neves Guimarães,
em Campo de pouso. Busca uma anti-lírica,
poesia mais voltada para a iluminação
dos objetos do cotidiano e a metalinguagem,
caracterizada pela contenção
verbal, versos às vezes mínimos,
dando preferência ao conteúdo
imagético acentuado por uma agudeza
do olhar que sabe ler as rasuras do aparentemente
comum. Escapando ao florilégio verbal,
a poeta, em diálogo constante com
os campos ainda não semeados, parece
pedir a nós, leitores, que pousemos
em sua superfície nossos olhos atentos.
Emanuel Levinas comparava o livro à
porta de uma casa; a leitura a uma forma
de acolhimento. Ou dito de maneira semelhante:
o livro poderia ser o campo; a leitura,
a forma de um pouso. Joana também
nos dá a liberdade de escolher o
inverso.
LEONARDO VIEIRA
DE ALMEIDA é escritor, Mestre
em Literatura Brasileira e Doutorando em
Literatura Comparada na Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Autor do
livro de contos Os que estão
aí (Ibis Libris, 2002), e de
contos publicados no suplemento literário
Rascunho, do Jornal do Estado do
Paraná, no jornal Panorama
e nos sites literários Paralelos
e Bestiário. É
também tradutor e mora no Rio de
Janeiro.
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