Dificuldades
da crítica literária
Adolfo Casais Monteiro
Existe a convenção
de entender a crítica como explicadora
dos problemas que investiga; é uma
conveção que só a sua
banalidade impõe, pois não
vimos ainda nenhum crítico que explicasse
uma obra: comentar não é explicar;
explicar seria refazer a obra segundo o
processus seguido no espírito do
autor; explicar, seria re-criar, seria fazer
outra vez a obra, mas pondo à mostra
todo aquele trabalho que o autor esconde
para nos deixar ver apenas o acabado.
Como esta função
é impossível, a crítica
é somente um comentário PESSOAL
E RELATIVO; quer dizer: se algum valor quisermos
atribuir à função crítica,
necessário é admiti-la, não
como infalível explicadora, mas como
esclarecedora e orientadora.
Nada de fórmulas: a crítica
é, a crítica faz, a crítica
deve... ; não: a crítica é
uma actividade absolutamente instável
e frágil; querer estabelecê-la
com regras, com receitas e códigos,
é condená-la. Essa é
a crítica universitária, a
crítica que se aprende e se ensina;
essa é a crítica de conserva.
Em primeiro lugar, a crítica
deve ter a noção da sua humílima
atitude de actividade de segundo plano,
envolvendo, seguindo a obra nos seus meandros,
mas nunca submergindo-a, nunca fazendo-a
passar por sua vez ao segundo plano, à
categoria de pretexto.
A crítica não deve arrogar-se
pretensões de polícia dos
costumes; nem de director de consciências;
nem de... Nem, em suma, de ditador. Quando
a crítica pretende intervir na criação,
além de nada conseguir, desacredita-se.
Quase toda a crítica
de hoje vê sem se preocupar com os
olhos do autor. Ora a obra vale não
somente por aquilo que vemos, mas também
por imensa coisa que contém e permanece
invisível se não houver da
nossa parte esse olhar simpático,
esse olhar que nos abra o segredo da personalidade
do autor.
A grande, a verdadeira crítica
– a que sabem fazer incidentalmente
os que não têm o mister de
críticos – é sempre
do modelo que sonho para a crítica
de todos os dias: cingindo-se à obra
que estuda, não pretendendo exemplificar
teses, mas procurar, mas averiguar. Os que
são grandes críticos naturalmente
– sem disso se aperceberem –
não têm as pequenas vaidades
dos que não são senão
críticos, e, como já se tem
dito, parecem querer vingar-se de ser apenas
críticos, incluindo em sistemas,
reduzindo a dogmas que os seus autores nunca
imaginaram, as obras que lhes passam pelas
mãos!
O artista criador tem, pelo
menos, a experiência da sua própria
criação, e daí o saber
adaptar-se melhor à imensa diversidade
de tipos de criadores, ao panorama cheio
de contrastes e decontradições
da sua época e de todas as épocas.
Assim lhe é difícil
aquela atitude do crítico que nunca
foi senão crítico, e, ignorante
da vida da própria obra – obra
que tanto é feita pelo artista como
o artista feito por ela –, a toma
como realidade inanimada, como se tivesse
surgido dum puro e inumano acto de criação,
manejando-a como se fosse um mecanismo,
e dizendo: o autor deveria, o autor poderia,
o autor fez mal, não soube fazer
isto, não viu aquilo, etc.
O crítico vulgar realiza
a feia missão de secar na obra a
vida que é a sua essência,
de lhe sugar a beleza para se deliciar na
exposição do que é
letra, do que é secundário;
nas suas mãos, a obra murcha, dir-se-ia
que os seus dedos, comprimindo-a, lhe fizeram
perder o sumo, para conservar apenas as
linhas mais gerais, a armação
que serve de ponto de apoio ao essor do
artista criando.
Que interessa isto? que importa,
seja a quem for, esta autópsia?
Pelo contrário, quando
alguém que não é crítico
de profissão se aproxima da obra
de arte, e a comenta, sem essa preocupação
de aplicar idéias feitas, que lições
não nos podem ser oferecidas? É
o caso de perguntarmos se os artistas criadores
não serão os únicos
críticos possíveis; não
nos apressemos contudo a concluir: procurando
exemplos, não constataremos que,
o mais das vezes, os criadores se mostram
duma imensa incapacidade de tolerar os seus
iguais. Avancemos cautelosamente: em teoria,
temos todas as razões para crer que
haja de facto num grande romancista a maior
capacidade para descobrir noutro aquilo
que escapará à análise
dum leigo; mas, na realidade, tais casos,
por excepcionais, vêm confirmar esta
regra: contra todas as suposições
teoricamente formuladas, mostra-nos a experiência,
no artista, uma quase invencível
tendência para diminuir, para desdenhar
a obra alheia, sempre que esta não
confirme a sua, sempre que encontre tendências
opostas às suas. Assim, um artista
é levado a concentrar a sua intuição
crítica na defesa da própria
obra, o que terá como consequência
a possibilidade de observações
admiráveis sobre as obras que lhe
dêem razão; e vice-versa: lembremo-nos
da admiração de Stendhal por
Shakespeare, e da aversão de Flaubert
pelo primeiro.
O verdadeiro crítico
seria então aquele que, sendo um
verdadeiro criador, não tivesse,
contudo, atrás de si, uma obra a
coagi-lo, a circunscrever as suas possiblidades,
fazendo incidir sobre um campo delimitado
uma acuidade de visão bem capaz de,
numa mais larga simpatia, alcançar
os horizontes mais diversos. Um criador,
portanto, que não o fosse senão
em potência; ou melhor, uma personalidade
de criador que, todavia, por qualquer deficiência,
por qualquer incapacidade, não pudesse
chegar à criação propriamente
dita, à expressão que não
pudesse realizar uma obra pessoal. Alguém
que, por assim dizer, tivesse a intuição
das experiências da criação,
de tão profundamente as ter vivido
meditando as obras dos outros. Disse eu:
“que não pudesse realizar uma
obra pessoal”; mas a grande, a verdadeira
crítica não merecerá
o nome de obra pessoal? No sentido indicado
ao começo deste ensaio, a verdadeira
crítica surge-nos como um dos mais
belos campos em que ao poder criador do
artista seja dado exprimir-se. Disse “ao
artista” e não o fiz distraidamente:
será acima de tudo artista aquele
que até nós saiba trazer,
sem que pelo caminho a vida se lhes escoe,
as obras que fixem o seu interesse e o seu
estudo. Se o artista-romancista é
grande quando ergue, com funda humanidade,
um mundo que, não sendo embora o
mesmo mundo cujo modelo lhe é dado
pela vida, é todavia real e vivo
porque palpita do sentido da vida que no
seu criador reside e cujo contacto nos inquieta,
transporta e eleva ou deprime tal qual a
vida como para nós existe dia-a-dia;
se o artista-poeta é aquele que do
fundo dos seus abismos e do alto dos seus
céus nos comunica a expressão
da sua essencialidade humana, voz que sabe
cantar os balbuceios inconsistentes e informulados
nos outros homens, o artista-crítico
será aquele que igualmente traga
até nós, sem as reduzir a
esquemas inanimados, e fazendo-nos comungar
na sua contemplação, aquelas
obras que achou dignas do nosso amor. Porque,
muitas vezes, passamos, indiferentes, junto
da obra mais admirável, e a nossa
inatenção poderia tornar-se,
com o tempo, numa injustificada depreciação
baseada na longa ignorância, se a
voz generosa e convincente do crítico
não se interpusesse, levando-nos
a ver o que até ali permanecia opaco
aos nossos olhos distraídos. E só
é capaz de ser esse intérprete
digno dela aquele que muito amor tem por
uma obra, e dela possui um não menor
e clarividente conhecimento.
(de Considerações
Pessoais - 2004)
<<voltar
para a página principal

O POETA E A MÍDIA
 |
CARLOS DRUMMOND
DE ANDRADE
E JOÃO CABRAL DE MELO NETO
FÁBIO LUCAS
|
por Nelson
Hoffmann*
Aricy Curvello é mesmo
um semeador de livros. Há muito perdi
a conta dos muitos que me mandou. E dos
muitos mais que por mim passaram para chegar
à biblioteca da nossa Escola Érico
Veríssimo. E dos outros muitos mais
de que tomei conhecimento e vão espalhados
por aí, por bibliotecas e cidades.
Um semeador plantando cultura.
Há pouco recebi, do
mesmo Aricy Curvello, o livro “O Poeta
e a Mídia – Carlos Drummond
de Andrade e João Cabral de Melo
Neto”, de Fábio Lucas. O livro
acaba de sair, tem bela apresentação
e é uma boa edição
da Senac/SP. Na abertura, aparece a homenagem
de uma dedicatória ao poeta Aricy
Curvello, amigo e conterrâneo do autor.
Fábio Lucas é
nome por demais conhecido no meio intelectual
brasileiro e além. Mesmo aqui, neste
meu fronteiriço rincão missioneiro,
quase escondido, seu nome faz parte do cotidiano
escolar. Muita aula de literatura é
baseada em conceitos por ele emitidos e
desdobramentos por ele efetuados. Eu mesmo,
por quase duas décadas, indiquei
fartamente o seu “O Caráter
Social da Literatura Brasileira”.
Hoje, afastado, encontro-me a toda hora
com o grande pensador, em jornais e revistas
que me chegam. Leio-o sempre com atenção.
Natural de Esmeraldas, Minas
Gerais, Fábio Lucas é economista
e professor universitário. Lecionou
em seis universidades norte-americanas,
cinco universidades brasileiras e uma portuguesa.
Diretor de institutos, faculdades e entidades
de classe, fundador de revistas especializadas,
tradutor e escritor, é autor de quarenta
obras de crítica e ciências
sociais. A mais recente, esta que Aricy
Curvello me enviou: “O Poeta e a Mídia
– Carlos Drummond de Andrade e João
Cabral de Melo Neto”.
Pelo título já
se vê: o assunto é Carlos Drummond
de Andrade e João Cabral de Melo
Neto, dois dos maiores poetas brasileiros
do século XX. O ângulo é
novo, a abordagem. O próprio autor
apresenta o livro dizendo que visa primordialmente
retratar a relação de Carlos
Drummond de Andrade e João Cabral
de Melo Neto com a imprensa. Com base em
pesquisa que perpassa três décadas
de leitura e acumulação de
material jornalístico, o livro traça
o perfil humano e artístico dos dois
grandes poetas e ilumina cantos não
conhecidos dos leitores. Nem de nós,
leitores mais atentos, que por vezes labutamos
no mister.
O livro soma 143 páginas, incluídas
as notas iniciais, a apresentação,
os informes finais e o índice onomástico.
O texto em si, o que desdobra o tema anunciado,
divide-se por onze capítulos. A seqüência
é uma agradável progressão
do assunto e a leitura torna-se prazerosa.
O autor começa por focar, no primeiro
capítulo, o relacionamento nem sempre
fácil dos poetas com os jornalistas,
quando o assunto é uma “entrevista”.
Explicita a essência da entrevista,
que é um “diálogo”
– diálogo em que o entrevistador
provoca o entrevistado para este clarear-se
a si mesmo. Esmiúça detalhes
e comenta a evolução dos dois
poetas em seu relacionamento com a imprensa.
No segundo capítulo,
os dois poetas falam do jornal, como eles
o encaram e vivenciam, como eles o acolhem
em sua poesia. No terceiro, discute-se a
questão de poeta “maior”
e poeta “menor”, que é
uma questão para o Jornalismo sensacionalista.
Isso existe? É possível?
Quando recebi o livro enviado
por Aricy Curvello, abri o envelope, li
o título e folheei um pouco, fiquei
interessado. Interessei-me por esse novo
ângulo de abordagem, por essa nova
perspectiva, e comecei a ler. Um pouco aqui,
um pouco ali, distraído. Fui adentrando,
me entretendo, curioseando. Quando me dei
conta, eu tinha lido o livro inteiro, todinho,
de ponta a ponta. Um livro de ensaios, crítica
literária, o que é raro. Quantos
lêem?
Só especialistas. Meus tempos de
especialidade já se foram, espaireço
na divagação. Gosto da leitura
sem compromisso, só pelo prazer de
uma boa leitura. Sem filosofices nem meandros
de obscura intelecção. Não
era o caso.
Quem sabe, sabe. E expõe
com clareza e segurança. O texto
tem começo, meio e fim. Base teórica
definida, seqüências concatenadas,
deduções lógicas, conclusão.
Passeia-se por teorias e filosofias, apóia-se
ou contesta-se, não importa, avança-se
sempre. A caminhada tem rumo e o rumo, um
fim. Ao fim, um degrau mais alto.
Escalei esse degrau, mais
um. Com o livro de Fábio Lucas, que
é assim, como tantos outros já
o foram, até melhor. Por um caminho
que me era novo. E que palmilhei, com gosto,
graças à amizade do poeta
Aricy Curvello.
Por sinal, aqui, concluindo,
lembro que anotei no começo que há
pouco recebi... Pois agora, neste instante,
acaba de me chegar nova remessa de Aricy
Curvello. Um livro, é claro! Uma
raridade bibliográfica, o último
livro de Uilcon Pereira editado em vida:
“A Educação pelo Fragmento”.
Como se vê, Aricy Curvello continua
semeando livros.
*
Autor de Este Mundo é Pequeno
<<voltar
para a página principal
|