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AFETO NA MARRA
Daniel
Santos
De vez em quando,
ainda me visitam. Nem entram mais
pela porta dos fundos, como antes,
mas esperam que eu apareça
na janela do sobrado para me acenarem
amistosos. É como se dissessem
“tudo bem” e se vão.
Ignoro o que pretendem desde
quando me surpreenderam a sós,
me imobilizaram sem violência
e tiraram mostras de pêlos,
unhas, saliva, sangue, pele ...
Um acervo a meu respeito. Ou a
respeito da espécie?
Talvez estejam criando seres
à minha imagem e semelhança,
me desdobrando noutros mundos.
Têm planos para mim e nada
posso obstar! Não me querem
mal, e admito certa reciprocidade,
embora com cautela.
Trata-se, afinal, de afeto em
desvantagem: eles me quiseram,
mas eu tive de aceitar a escolha,
como criança sob ordens
de um adulto. Chegam a adivinhar
minhas necessidades e, antes mesmo
de senti-las, eles provêm!
Das duas, uma: ou sou previsível,
ou assim me tornaram para imposição
dessa tutela que imobiliza e conforma.
Já não reajo, nem
quero, E quando eles demoram a
aparecer, vou até a janela
dar uma espiada.

o
silêncio das xícaras
Helena
Ortiz
quando dei pela
falta não estavam mais
umas xícaras que eram do
tempo de Pierre antes de Pierre
ir para sempre lembrei das xícaras
quando ela disse que ia embora
você pode achar que isso
é mesquinho mas eram minhas
minha mãe me deixou aquelas
xícaras e também
um conjunto de copos com jarra
de cristal tcheco presente de
casamento eu os guardava tinham
grande valor estimativo agora
ela se vai lembro que um dia lhe
dei para guardar as xícaras
e os copos dentro do armário
que ficava na sala depois desceram
para o quarto dela onde agora
está juntando seus trastes
trouxas nada de valor nada que
importe ou que precise cuidar
para embalar coisas juntadas trecos
cacos cacarecos penduricalhos
que se moldam a pano plástico
elástico prendendo tanto
tecido quanto louça bruta
a louça dela sem caixote
sem papelão sem passado
objetos acumulados sem lembrança
só coisas sem precisão
não como as xícaras
de porcelana o fio prateado ou
os copos de cristal de minha preciosa
pia pundonorosa santa mãe
não deixarei que leve que
se aposse dê sumiço
sucumbam as xícaras nunca
mais foram usadas depois e mesmo
antes de Pierre as coisas dela
pobres apenas juntadas mal juntadas
caindo saco sacudindo não
é justo vou falar com ela
que não era assim espaçosa
não deixarei que leve a
minha ou a de minha mãe
presente de casamento tcheco e
o conjunto de xícaras de
porcelana inglesa que estavam
no armário os copos de
cristal não eram nossos
eram meus eram minhas não
pensará que esqueci as
xícaras com um fino fio
prateado nunca usamos estão
lá envoltas em jornal os
copos a jarra inglesa a porcelana
tcheca o casamento de presente
pode embrulhar ela vai embora
mas não pensará
que esqueci as xícaras
você não se lembra
(a minha voz doce) de umas xícaras
com um fino fio prateado meia
dúzia de xícaras
como já não eram
seis? quando quebraram? ah quebraram
ficaram só quatro estão
lá envoltas em jornal as
xícaras os copos as jarras
as inglesas e as tchecas e o casamento
onde está o armário
porque eu me lembro bem você
não viu por acaso (a minha
voz mansa e crua) ela respeitosa
juntando trouxas e trastes arrumando
as suas as minhas coisas eu guardei
não estavam no armário
o armário eu vi muito tempo
depois na casa da vizinha mas
naquela ocasião os copos
onde estariam não me lembrei
do presente de minha mãe
preciosa lembrança sem
uso que foi para o armário
depois foi para o quarto dela
que um dia disse não quero
mais o armário eu disse
tudo bem o armário desceu
o vizinho quis lá está
ele mas só agora que se
vai eu me lembro não posso
me lembrar de tudo afinal por
acaso você não viu
sua desgraçada sua negra
mentirosa por acaso você
pensa que as xícaras não
me farão falta as xícaras
de minha doce mãezinha?
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