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A mesma de tempos atrás
Renata
Belmonte
Se você
me perguntasse, responderia assim:
cresci observando minha mãe
colecionar vestidos para o grande
dia, a data do retorno que nunca
aconteceu. Às vezes, me
escondia em seu quarto, apenas
para tentar ser parte de seus
delírios, cada roupa uma
nova dramatização
para o fim da longa espera. Vestir-se
significava experimentar um pouco
da felicidade projetada em seus
sonhos. Quando morreu, tive dúvidas
sobre qual deles ela deveria usar.
Optei pelo que comprou por último,
um longo rosa seco com leves bordados
em prata. Imaginei que em seu
enterro, ela talvez conseguisse
o que tanto almejava. Ledo engano.
Em cada palavra sentida, a ausência
do único que importava.
De preto, despi-me para sempre
da esperança de qualquer
aviso. E fiz a escolha pela nudez,
transformando-a em profissão.
Apenas se você
me perguntasse, eu responderia.
Convivo bem com silêncios,
com a falta de explicações.
Fui menina criada em cantos, tranças
feitas pelas empregadas, órfã
de pai, intervalo incômodo
da vida da mãe. Por isso,
diariamente, sou abandonada e
não me importo.
Eles chegam
sorrindo, camisas impecavelmente
passadas, são suas mulheres
que os vestem para nossos encontros.
Fazem da mesma forma com as crianças,
quando as arrumam para as festinhas
de aniversário dos colegas.
É uma longa tradição.
Crescem acostumados a mandar,
exigir, dispensar. Presto atenção
em seus rostos redondos, escorregadios.
Não, não há
qualquer vestígio de remorso
ou culpa. No final, quando já
estão satisfeitos, colocam
o dinheiro em cima da cômoda
e vão embora agradecendo,
repetindo as mesmas palavras que
diriam para qualquer vendedor
de cigarros. Alguns, enquanto
caminham, ainda olham para trás,
têm esperança de
compreender o que lhes falta.
Outros preferem ignorar a existência
de razões. Em nenhum caso,
sinto-me magoada ou comovida.
Não me cabe essa parte.
Compreendo muito bem o papel que
represento na vida das pessoas.
A amante. Nada
mais ou menos que isto.
Confesso que
sabia que voltaria a me procurar.
Esta porta sempre esteve aberta.
Muitos são os que passam
ou passaram por ela. Seria estranho
que logo você fosse a exceção,
o vácuo da minha história.
Guardo ainda, num álbum
de aspecto infantil, aquela nossa
fotografia. Aquela em que estamos
abraçados e felizes. Quando
não me sinto vigiada, gosto
de revê-la. Um dia feliz,
eternizado em um pedaço
de papel. Às vezes, chego
até a recriar as sensações
daquele momento. No entanto, não
pense que faço o mesmo
que minha mãe. Já
lhe disse, muitos são os
que deitam e deitaram na minha
cama.
Sim, durante
esses anos, estive lhe aguardando.
Porque a sua vinda, o nosso encontro
era uma coisa natural, previsível.
Apenas isso.
A amante.
Olhe para mim.
Não sou a mesma de tempos
atrás.
Convido-o para
entrar.
Novamente, nós.
Você,
sapato preto de cromo alemão,
passos fortes, mesmo perfume daqueles
tempos. Reconheço-o, de
pronto, através dos sentidos
menos festejados. Chegou a hora.
Sou golpeada, estremeço
por dentro, fico gelada, sinto
medo. No entanto, não demonstro
qualquer surpresa ou ansiedade.
Não me permito este tipo
de atitude insensata. Minha mãe
dizia que chegaria a época
em que eu a compreenderia, saberia
o que era amar e sofrer. Sim,
tenho esse homem na minha frente,
só que não lhe concedo
tamanha liberdade, possuo um enorme
respeito por mim. Estou numa camisola
clara, sento-me à beira
da cama. Duas taças de
vinho nos esperam, na pequena
mesa de sempre. Peço que
me informe sobre suas fantasias
e desejos mais secretos. Ignoro-o
quando me pergunta sobre as minhas
preferências. Levanto-me,
acendo um cigarro e fumo de forma
sensual, como faziam as mulheres
elegantes de antigamente, as mesmas
que sempre ameaçavam minha
mãe, em seus devaneios
mais angustiantes.
Ela sempre soube
que eu seria assim. Desde criança,
quando me escondia em vestidinhos
cor-de-rosa e repreendia a minha
maneira de falar, já tinha
certeza de que eu pertenceria
a outra categoria.
Brindamos. Nossos
cálices se chocam, interagem.
Três goles para jamais esquecer.
Uma nova chance. Nossos corpos,
finalmente, se aproximam. E não
há mais nada, além
da pequena distância existente
entre nós.
Faz silêncio,
no universo. Em pouco tempo, começará
mais um espetáculo de amor,
vida e destruição.
De longe, sei que alguns rezam
para que nada de mal ocorra. Julgam
o que sentimos, condenam meu comportamento.
Outros, sim, aqueles que já
viveram isso, aguardam ansiosos
o momento do encontro, desejam
reviver seus sentimentos pretensamente
acabados. Tenho consciência
de que com minha mãe é
diferente, ela está em
posição única,
híbrida, confusa, dramática.
Receia que eu consiga realizar
o que ela sempre quis. Meu amante
está diante de mim, meus
anos de espera não foram
em vão. Consigo vê-la,
ao nosso lado, parada, observando
dividida, cada ato, cada segundo.
Sei que não chora, seu
desespero é mudo, como
o das santas arrependidas que
povoavam o altar de nossa velha
casa. Imagino que tenha uma vela
nas mãos, apesar de não
haver clareza sobre no pedido.
Encontra-se em posição
única, híbrida,
confusa, dramática. Não
sabe ao certo o que é mais
forte, o amor, a inveja, a dor,
o desejo ou o medo. Prevê
que não haverá final
feliz, em nenhuma das hipóteses.
Seu vestido é longo, rosa
seco com leves bordados em prata.
Está pronta. Gostaria que
tudo tivesse sido diferente em
sua vida. No entanto, não
há mais espera, chegou
a hora. A menina cresceu, ganhou
seios do mesmo tamanho dos seus,
tem seus olhos, são seus
olhos que estão fixos nos
de seu amante. Apenas lhe resta
aguardar. E, de alguma forma,
torcer. Porque, afinal de contas,
ainda são uma família.
Ponho meus lábios
à disposição
dos seus. Abro minha boca lentamente.
Nossas línguas se acham.
Nos beijamos.
Passamos a reconhecer
nossos corpos. Sim, não
sou a mesma de tempos atrás.
As roupas como
tapetes, as peles nuas, juntas,
desejando ser apenas uma. Toda
a minha vida eu esperei por esse
dia. O retrato, eles sorrindo,
abraçados e felizes. Sinto-me
muito mais bela quando estou perto
de você. Ele sobre
ela, o toque, as carícias.
Os beijos, as línguas em
choque, o hálito a denunciar
seu passado, leve sabor do vinho,
a bebida dos amantes. Como
num filme. O cheiro, o cheiro
dele, de seu perfume, de sua pele,
o perfume da pele, o cheiro da
pele dela e dele, não há
mais como distinguir, individualizar.
Vamos, faça o que quiser,
meu corpo lhe pertence. Jamais
se deve dizer isso a um homem,
ela sabe, mas, desta vez, não
se importa. As partes, os olhos
fechados, os sussurros, gemidos,
a intensidade, força, a
força dos longos anos de
espera, o prazer. O que Deus
uniu, ninguém separa.
Desde que nasci,
já estava escrito. Minha
mãe sempre previu que,
um dia, isto iria acontecer.
Ouço
os latidos dos cães, logo
compreendo: transmitem a notícia
pela noite. Estamos em silêncio,
todas as palavras foram mortas.
Você permanece inerte, parado,
não pronuncia qualquer
gesto de carinho. É esse
deserto que me faz, subitamente,
perceber o motivo de sua demora:
nos encontramos em lados distintos
da cama. Como em todas as nossas
vidas, nas quais pertencemos a
lados opostos do mundo.
Sofro, sofro,
sofro. Nem o relógio se
compadece. Insiste em me dizer,
repetir que, em alguns minutos,
você irá embora.
Do mesmo jeito, da mesma maneira
que fazem todos os outros.
Procure saber
qualquer coisa sobre mim, como
foram os meus anos, se sou feliz,
se tive um cachorro, se me formei,
como entrei para essa vida, qualquer
coisa, o mínimo, qualquer
coisa.
São os
cães, em seus uivos noturnos,
que me avisam, relembram: a amante.
Nada mais ou menos que isto.
E apenas se
você me perguntasse, eu
responderia.
Enquanto se
veste, passo a me lembrar de minha
mãe experimentando seus
vestidos, glória e decadência,
em questão de minutos.
Estamos no final do grande dia,
da data do retorno. Não
há mais dramatização
para o fim da longa espera. Ela
se encontra rente à cama,
linda em seu vestido rosa seco
com leves bordados em prata. Finalmente
chegou a boa hora.
Sim, pai, agora,
você vai nos pagar.
Você coloca
a quantia acertada sobre a cômoda.
Acompanho-o até a porta.
Vejo ir, sem olhar para trás,
meu primeiro amante, aquele que
me privou de tanta coisa, aquele
que fez com que minha mãe,
eternamente, me culpasse pelo
seu abandono.
Trouxe-o, de
volta, mãe. Pare de me
atormentar. Fique em paz. Descanse
em paz.
Como não
estou sendo mais vigiada, revejo
a fotografia mais bonita que já
vi. Um dia de sol, no parque.
Nós, abraçados e
felizes. Não tenho certeza.
Caso seja realmente você,
os anos lhe foram bastante violentos.
Aliás, para todos nós.
Renata Belmonte
nasceu em 13/03/1982, em Salvador.
É advogada e contista.
Estreou em 2002, com a publicação
do seu primeiro conto, Em
cima da estante de vidro,
na revista eletrônica
Blocos on Line. Desde
então, acumula colaborações
em suplementos e jornais literários
como Iararana, Província
da Bahia, Cronópios e
Bestiário. Seu primeiro
livro de contos, Femininamente,
ganhou o Prêmio Braskem
Cultura e Arte de 2003. Em 2006,
publicou O que não
pode ser, livro vencedor
do Prêmio Arte e Cultura
Banco Capital.
Blog da autora: http://www.vestigiosdasenhoritab.blogspot.com/
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