| O
MORCEGO
Eugenio
Montale
Por
volta da meia-noite, estava o
homem para apagar a luz quando
uma sombra flutuante e sinistra,
um borrão nas paredes,
um ziguezague rápido como
o relâmpago passou sobre
a sua cabeça, desaparecendo
depois em direção
à cortina que tapava o
lavatório. Ouviu-se de
súbito um grito estridente.
– Um morcego! – berrava
ela torcendo-se de horror. –
Que espécie de hotel é
este para onde você me trouxe?
Põe esse animal lá
fora, põe fora!
Berrava debaixo dos lençóis,
com medo de ser tocada por aquele
vôo imundo. As suas palavras
eram surdas e convulsas; sugeria
que se lhe desse caça com
um pau, com uma sombrinha, tendo
a janela aberta e a lâmpada
apagada. Talvez a atração
da luz exterior, quem sabe...
Às escuras, e em pijama,
com o cabelo protegido por uma
toalha, ele percorreu o quarto
de cima a baixo tropeçando
nas cadeiras, agitando o “cartucho”
de uma revista ilustrada (–
A sombrinha! – gritava ela,
mas não tinham sombrinhas)
e emitindo sons inarticulados;
até que, encontrando com
a mão um botão na
parede, tocou-lhe, fazendo jorrar
uma onda luminosa que partia de
uma concha transparente postada
no alto, lá muito no alto.
– Deve ter saído
– disse, procurando mostrar-se
calma; e chegou-se à janela
para fechá-la. Mas logo
um adejo viscoso lhe passou rente
à testa, a sombra louca
borboleteou ainda pela parede
e extinguiu-se nos inatingíveis
cimos de um negro armário.
– Socorro! Socorro! –
Gritava a mulher espreitando por
baixo de uma almofada que tina
posto por cima da cabeça.
E, depois, com voz mais calma,
não vendo já o arabesco
na parede: – Foi-se embora
o monstro? Responde-me.
– Receio
que não – disse ele
procurando atenuar a dura verdade
(a sombra estremecia em cima do
armário como se o “monstro”
estivesse sob pressão,
pronto a atirar ainda). –
Receio bem que não, mas
agora o obrigo a fugir. Tape a
cabeça, não tenha
medo.
Subiu a uma cadeira,
envolveu outra vez a cabeça,
e com um esticão bem calculado
fez cair o seu “cartucho”
no topo do armário; deste,
com o baque, se levantou uma poeirada
e o vôo andrajoso e convulso
do pequeno monstro, uma breve
parábola que acabou, tremente,
no pequeno cesto dos papéis.
– Socorro,
socorro! – continuava ela
a estrebuchar; mas já o
homem, armado de um chinelo, erguia
a todo o comprimento um tapete
diante dos olhos e avançava
cautelosamente para o cesto de
vime, dizendo com voz mais calma:
– Já não sei
o que faço, viro o cesto
e o deixo prisioneiro.Não
se excite, não faça
escândalo.
Quando lhe pareceu
estar a jeito, que não
estava, atirou um pontapé
ao cestinho, um pontapé
que segundo os seus cálculos
devia virá-lo sem sair
o seu conteúdo. Ouviu-se
um outro baque, mais leve, o cesto
rolou sobre si espalhando à
sua volta cascas de ovo, cinza
e fósforos apagados, e
uma sombra dardejante partiu daquelas
relíquias para atingir
a concha de alabastro na qual
luzia, como uma pérola
na ostra, a lâmpada do teto.
–Nada
feito-confessou, sentando-se na
borda da cama – Não
quer ir embora. Não se
inquiete: descanso um momento
e depois continuo a dar-lhe caça.
– Toca
a campainha – chorava ela
das profundezas de dois cobertores
postos por cima da cabeça
- Chama a criada, foi esse estafermo
que abriu a janela. Ela que dê
cabo deste vampiro....
– Acalma-te,
amor, não estamos em Itália,
a esta hora não viria ninguém.
Mas o que se podia, ora deixa
ver, podia-se...
– Telefona
ao porteiro – disse lamurienta
lá do fundo. – Ponha
qualquer coisa na cabeça,
deite-se junto de mim, sem me
descobrir, ai, ai! Levante o fone
e fale você que sabe línguas.
– Línguas,
dizia ele meio sufocado pelo tapete
e meio estendido na cama. –
Como se diz, como diabo se diz
morcego noutra língua?
(De baixo alguém se esganiçava
“alô alô”
no fone levantado.)
– Chauve-souris,
morcego, talvez bat –chorava
a voz dela lá do fundo.
- Ah! Os romances
para alguma coisa te servem –
disse ele pondo um olho fora do
tapete. E encostando a boca ao
fone:
-Alô,
alô: chauve-souris,
morcego, talvez bat.
Não, não sou doido
(ele diz que sou). Chauve-souris,
talvez bat, in my
room. Venha, por favor. Help!
help! Au secours!
Alô, alô (Do aparelho
chegaram blasfêmias e palavras
incompressíveis: depois
se ouviu o clique do fone abaixado.)
– O que
é que disse? – perguntou
a voz abafada.
– Vem
já, não, não
é já, mas vem...
talvez venha. Não sei se
percebeu. Mas espera, querida,
espera um pouco.
Tinha-se levantado
com uma coragem e uma decisão
que o espantavam. Tirou o tapete
dos olhos e sentou-se numa poltrona
de ramagens, a única do
quarto. A sombra convulsa continuava
a esgaravatar na concha de alabastro
e a luz desaparecia de espaço
a espaço, em pancadas,
a toda a volta:
– Espera
um pouco – continuou ele.
Tem certeza que morcego se diz
bat? Tem mesmo certeza? Sim? Também
aquele asno do porteiro repetiu
bat como se fosse uma palavra
compreensível. Acalme-se
agora, vem aí com uma vassoura
- a broom –deve
ter tido broom –
e porá tudo em ordem. Mas
o Bat –diga –
não era o restaurante onde
nós nos conhecemos, a primeira
vez? Parece-me que por cima da
porta da entrada estavam pintadas
umas grandes asas negras...
– Certo,
certo – insinuava a voz
chorosa do subsolo da estopa.
–Era o "O Morcego",
é isso mesmo.
– Estranho,
continuava ele, com a concha debaixo
de olho. – Sabe que o morcego
foi o único animal que
eu matei? Diziam-me que era impossível
atingi-lo, por causa do seu vôo
irregular. Basta uma balazinha
para fazê-lo descer, basta
um furo nas suas asas viscosas.
Mas quem é capaz disso,
quem é capaz de lhe acertar
com essa balazinha? Dispararam
todos, duas, três, quatro
pessoas, e nenhum morcego caiu,
pelo contrário, outros
saíram em maior número.
Parecia que troçavam de
nós. Depois disparei eu,
quase ao acaso; era a primeira
vez que dava um tiro com uma calibre
doze. E o morcego caiu, bateu
no chão como um lencinho
mole, agitou-se ainda um pouco...
e morreu....
– (Ai,
ai, ai!)
– Não
são feios, sabe? No fundo
são uns pobres ratinhos
com asas de teia de aranha. Alimentam-se
de mosquitos, não fazem
mal a ninguém. E o meu,
desgraçadamente, não
estava morto, mexia...como este.
(Ai, ai!) Não chore, vem
aí esse outro animal, o
porteiro. É preciso dar-lhe
dois ou três xelins; que
não demora muito. Mas estou
pensando: este não é
o segundo, é o terceiro
morcego importante da minha vida.
O primeiro você já
sabe; o segundo... é você,
ou quase, não se ofenda;
o terceiro caiu aqui esta noite
e nós recebemo-lo assim,
atirando contra ele revistas de
papel cuchê, chinelos, tapetes;
daqui a pouco, se está
meio-morto, acabará à
vassourada. Não sei se
é justo, não sei....
não sei. (Ai, ai!) Não,
não chore, falo por falar.
Agora veremos o que se há
de fazer. A única coisa
seria agarrá-lo com delicadeza
a e pô-lo lá fora.
Se tornasse a meter-se no cesto
dos papéis, por exemplo.
Se pudéssemos atirar tudo
pela janela, a gaiola e aquela
alma negra. Ah, ah! Deixe-me pensar...
Atirara-se sobre
a cama, enfiando a cabeça
entre os cobertores amontoados,
até encontrar a cabeça
dela: – E se fosse –
sussurrou-lhe ao ouvido –
, se fosse o meu pai que tivesse
vindo visitar-me?
Com um grito,
ela atirou ao ar cobertores e
almofadas e sentou-se hirta na
cama. Já quase não
pensava na alma negra que ainda
palpitava na enorme concha.
– Enlouqueceste,
com certeza,– disse-lhe
depois, olhando-o fixamente. –Anda,
pomos qualquer coisa nas costas
e descemos. Mudar-nos-ão
de quarto ou passearemos um pouco
no jardim. Faz calor e lá
embaixo não há mais
ninguém. Falarei com o
porteiro da noite. O teu pai?
Por quê? Um morcego?
– Não
sei! – dizia ele quase a
chorar. – Foi o único
animal que matei; com qualquer
mosca ou formiga, compreende-se.
O único, e o meu pai ficou
muito consternado. Creio que ele
volta de vez em quando à
minha procura, num ou noutro disfarce.
– Encontrar-nos-emos em
qualquer parte –disse-me
na véspera de morrer. –
És pateta demais para te
governar sozinho. Não te
preocupes, arranjarei uma maneira,
tratarei disso. – Mas quase
me esqueci: só, às
vezes, quando vejo esvoaçar
um desses animais, levanto o dedo,
aponto e pum, vejo-o cair como
um trapinho. E agora a recordação
dele...
Levantou o dedo
para a concha e logo o rápido
vôo pavoroso se ergueu,
bateu contra o teto e passou através
da janela, engolido pela escuridão
densa do siroco. Ela, com outro
grito, afunda-se de novo entre
as almofadas. Ao mesmo tempo alguém
bateu à porta.
– É
o porteiro – disse o homem
apressando-se em fechar a janela,
e com voz forte: – Um momento,
se faz favor, um momento. –
Depois baixinho: – Vê
se tens uma meia coroa, qualquer
coisa de prata,mas pouco, no fundo
aquele idiota nada fez.
Agarrou a moeda,
abriu a porta e sussurrou muito
tempo no corredor. Ela, com os
olhos esbugalhados, olhou ainda
para a concha, agora quieta, e
pensou no restaurante das asas
negras; depois, lembrando-se de
repente de que, poucos anos antes,
a curiosidade de assistir ao Morcego
de Strauss a salvara da morte,
da bomba que destruíra
a sua casa, teve um novo ímpeto
e atirou-se perdidamente sobre
o amontoado de cobertores com
um riso prolongado e confuso.
COCA GELADA
Helena
Ortiz
A imprensa noticiou que pegaram
cocaína dentro de pedaços
de carne congelada. Há
três anos lia todos os jornais
pensando que um dia ia aparecer.
Há três anos espero
por isso sem saber no quê
vai dar. Mas espero bem longe
de tudo, numa praiazinha pequena
com padaria, restaurante barato
e gente calma; pescadores, pequenos
comerciantes poucos carros e bêbados
conhecidos.
Comprei um terreno e construí
uma casa como nunca pensei que
teria, embora sonhasse com ela:
embaixo sala grande, cozinha nos
fundos, janela para a lagoa; em
cima um quarto enorme, janelas
para todos os lados. O banheiro
é envidraçado e
dá pro mato. Tenho aqui
uma horta, um pé de manga
e outro de maracujá.
Não foi difícil
decidir. Não tinha casa
mesmo, nem ninguém que
jamais me esquecesse. Estudei
pouco. A quem pergunta digo que
sou escritor. Que estou pesquisando
para um livro. Como um ou outro
nativo me vê no computador,
pensa (e falam) que eu sou escritor.
Até já acho que
sou escritor porque eu precisava
fazer alguma coisa desde o que
me sucedeu. Também leio
jornais porque às vezes
a coisa vem numa notícia
menor. Mas eu sabia que quando
descobrissem ia ser primeira página.
Há três anos espero
(não é que eu queira
que aconteça), mas pô,
pensar que eu, um nada, um coisa
nenhuma, que perdeu a mãe,
não pôde estudar,
está aqui descansado, numa
casa própria, sem preocupações
com o futuro, achando, enfim,
que já pode estudar...
por que eu, um bosta que ganhava
uma merreca como motorista de
caminhão, sou agora um
escritor? Não comprei carro
porque não ia precisar,
mas comprei uma bicicleta com
a qual vou ao farol, constatar
mais uma vez que a terra é
redonda. E então, por que
aconteceu logo comigo? Sei lá.
De qualquer forma agradeço
por esse presente, e se isso um
dia acabar e a polícia
me alcance, vou dar graças
por eu ter vivido assim, feliz,
três anos da minha vida
até então pra lá
de fodida.
E quando digo que é hora
de estudar já estou tomando
umas lições de francês
com uma professorinha que até
vem em casa. A aula é aqui
na varanda mesmo, estamos descalços,
daí a pouco a gente vai
comer uma fruta. Ela gosta de
mim. As aulas são de sexta
a domingo, que ela estuda na cidade
e só vêm nos finais
de semana. Mas aí ela chega
falando francês e me faz
até cantar.
Agora saiu a
notícia. Vou esperar para
ver no quê dá. Se
eu mereço, com certeza
ninguém vai se lembrar
mais daquele caminhão.
Porque não sou bobo de
pensar que logo eu, que perdi
minha mãe e estava sem
saber o que fazer naquela estrada
vazia e aí aparece um maluco...
eu, que era motorista de caminhão
sem querer, um dia pudesse ter
a chance que eu tive. Certo que
veio num susto, mas aí
eu pensei que era agora ou nunca;
Se o caminhão vira quem
vai pagar? De qualquer forma era
rolo, se eu voltasse. Voltei não.
Durante toda a noite descarreguei
pra dentro da lona e arrastei
pra uns ermos. Andei até
o lugar mais próximo. Contratei
um caminhão, dei uma paga
a mais. Tudo colega. A carga era
minha. Sumi. Não tive culpa
do acidente, mas acabou que eu
vi.
Comprei roupa
e cheguei com a grana na mão.
Perdi um pouco, porque podia ter
vendido no varejo. Vendi no atacado.
Foi bom de qualquer jeito. Meu
envolvimento com droga foi esse
e digamos, só mercadológico.
O que demorou foi encontrar uma
ponte, porque nunca fui do ramo,
mas quando encontrei foi pá
e pá. Tudo limpo.
Agora finalmente saiu. Leio que
o cara é sócio minoritário
de dois restaurantes da burguesia
contente. Eu sempre quis saber
que rolo era aquele, mas eu era
só o motorista. Se dançar,
dançou. Eu devia ter imaginado
porque era grana boa. Mas e aí?
Às vezes é por causa
da urgência. Agora dançou.
O majoritário diz que não
é bem assim, que o outro
não faz parte, mas é
assim mesmo. Cada um salva o seu
rabo. Peixe grande cai mais rápido,
mas também sai mais rápido.
Eu, se cair, é pra gramar
na cadeia. O governo finge que
não está na pior
e a polícia se mexe. Tem
muito delegado esperto. Não
há quem se lembre disso
(que pra mim foi muito) perto
da lama diária. A polícia
se escondendo dela mesma. Se acontecer
alguma coisa, eu também
danço. Mas enquanto isso
o tempo passa e estou numa casa
que é minha, lendo jornal
na varanda, pegando praia direto,
escrevendo muito, ao lado de uma
moça que me namora quando
quer.
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