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Tentativa
Paulo Rogério Diniz
Quatro narrativas atrás ou
adiante perceberam e se tornaram inúteis, acompanharam e ficaram sórdidos, uma
estupidez.
E assim, no meio desta coisa toda
e, parcialmente estranhos, olharam aquele relógio parado, há trinta anos
naquela parede azul ao lado da cortina escura de veludo grená, oito horas,
manhã gelada, ano passado, por aqui mesmo.
Telefone tocando, tocando, e,
caídos nos seus pensamentos futuros, não atenderam, apenas permaneceram naquele
estado letárgico, cósmico, tão pertinente e confuso e tão eficaz como
silencioso, tão transparente e calmo como a voz que vinha de longe e chegava
até aqui, onde estávamos todos.
Pelo caminho discutiu-se sem
parar o que nos afligia naquele momento e surgiram palmas e gritou-se o obvio e
se partiu em três pedaços o assunto mal resolvido e sempre inesperado.
Tinham a esperança e a tentação
de existir.
Já era tarde da noite quando
retornaram. Era uma rotina e precisavam ir adiante, outro dia, outra página,
talvez a última.
E todos aguardariam novamente o
desfecho da estória, como sempre, e ficariam um pouco tristes pela distancia e
pela luz e, acima de tudo, pela saudade.

Assim ficou melhor pra todo mundo
Wander Pirolli
"Um mulato enxuto
fazia a linha de ônibus aqui do bairro. Tinha o cabelo de
brilhantina, bigodinho, um dente de ouro e os lábios rasgados.
Simpatizava com ele. Sentava sempre na frente. Volta e meia virava e
sorria pra mim com seu bigodinho e aquela boca. Logo a gente
começou a conversar. Ele falava e ria com seu dente de ouro.
Às vezes eu ia até o ponto final. Comprava pra mim
laranja na bitaca, me deu um pacote de bala, me contou que era casado,
tinha três filhos. A menina mais velha combinava com minha idade.
Um dia ele largou o
serviço mais cedo, tava quase escurecendo, e foi andando na
frente e eu atrás. A gente não tinha combinado nada.
Só falou a hora que ia sair da garagem. E eu tava lá
esperando. Olhou pra mim com aquela boca rasgada e o bigodinho fino e
foi andando. Vi o jornal dobrado no bolso dele e sabia para o que era.
Sabia, sim. Quando chegamos no campo de futebol, ficou parado. Acho que
ele tava com um pouco de receio por causa dos meus catorze anos, ou
talvez por causa de pai, que era conhecido dele. Aí eu entrei na
frente, segui a trilha e deitei na grama e falei "vem logo". Ele se
chamava Davidson, um nome engraçado, me fazia rir.
Fomos no campo algumas
vezes. O azar é que eu peguei barriga. Mas só fiquei
sabendo isso muito tempo depois, quando começou a crescer.
Davidson viu minha barriga e sumiu, nunca mais voltou no
serviço, e ninguém dava notícia dele. Falei com
mãe, ela chorou. Pai acabou descobrindo. Aprontou o maior
barulho, queria matar, esfolar, encheu mais a cara de cachaça,
me deu uns tapas. Não falei de quem era, podia bater à
vontade. Minha barriga continuou crescendo.
Aí veio o
negócio do hospital, mãe deu força, ajudou, ficou
comigo, tive hemorragia e quase morri. Ela cuidou do menino até
eu levantar da cama. Pai continuou bebendo sem parar, e duas vezes
peguei ele maltratando o meu neném, dando cachaça pra
ele. Um dia tava na casa da vó, pra pegar uma roupa que ela
tinha feito pra mim. Eu fui a pé, tava muito quente e deixei o
menino com mãe.
Tava lá
experimentando o vestido, quando meu irmão Zé chegou e
disse que pai tava batendo com a correia no meu neném. Ele tinha
enchido a cara e falou que ia matar o menino. E mãe? Zé
falou que mãe gritava no quintal, pedindo ajuda dos vizinhos.
Fui na cozinha de vó e catei uma faca pontuda e saí
correndo lá pra casa.
Meu neném tava
chorando no chão e mãe tentava segurar o pai. Eu entrei e
enfiei a faca em pai. Não sei quantas vezes. Enfiei a faca e ele
foi caindo e eu fui enfiando a faca sem parar. Foi isso.
Arrependimento?
Não, não tenho nenhum. Eu tinha de defender o meu
neném. E foi bom pra mãe. Pai não prestava pra
ela, não prestava pra ninguém. E játava todo inchado de cachaça. Acho que foi melhor pra ele também."
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