TICE
Guaracy Micceli
Andava silenciosa quase
roçando pelas paredes. Desapercebida.
Tinha um rosto lindo. Olhos amendoados.
Pele morena. Lembrando um impossível
ancestral inca de encantadora nobreza. Seus
gestos eram muito delicados e harmônicos.
Sua voz sussurrante.
A mãe era uma doméstica
que vivia sempre falando ou cantando. Rindo
às gargalhadas por pouca coisa. Difícil
entender que fosse ela a mãe de Tice.
O diminutivo de Beatriz lhe tinha sido dado
desde novinha num gesto de carinho. Contudo,
traduzia fielmente, a maneira como era vista,
diminuta, silenciosa sempre olhando para
além das paredes, além das
pessoas. Sua aparência era muito limpa,
os compridos cabelos sempre bem penteados.
Aos nove anos, freqüentava a escola
e era sempre elogiada por seu comportamento.
As notas variavam muito para a mesma matéria.
Evidenciando às vezes sua profunda
atenção às aulas, com
uma grande capacidade de memória.
Outras, ficava quase incapaz de responder
às questões, como se estivesse
distante, em outro ambiente.
Em casa estava sempre carregando
um pequeno gato de pelúcia, tratando-o
como um filhinho, mas sem lhe dedicar qualquer
carinho. Dizia para ele, em voz sussurrante
palavras que não se podiam entender.
Nestes momentos a mãe lhe perguntava
o que estava falando e recebia de volta
um olhar que nada traduzia. Escondendo e
negando sua preocupação por
esse alheamento punha-a no colo e a cobria
de beijos que, se eram correspondidos, traduziam
apenas um gesto mecânico, sem calor.
Uma tarde, a mãe
passando perto do quarto, ouviu a voz de
Tice. Chegou perto sem que ela a visse e
ouviu algo incompreensível. Se pudesse
ter entendido teria sabido que Tice declamava
uma quadrinha em francês que dizia:
“Mur pourrit.
Trou se fit.
Rat se mit.
Chat lui prit.”(*)
A quadrinha era repetida
muitas vezes e Tice segurava seu gatinho
com as duas mãos, como se quisesse
que o bichinho entendesse o que ela dizia.
Depois de tentativas, pôs o gatinho
em cima da cama e ia saindo do quarto quando
a mãe lhe perguntou o que fazia.
“Nada, mãe”. “Mas,
o que é que a minha filhinha estava
cantando?”. Tice repetiu a quadrinha:
“Mur porrit.
Trou se fit.
Rat se mit.
Chat lui prit.”
“Mas, o que é
isto?”, perguntou a mãe. Para
ter como resposta, um vago:”As meninas
da 4ª. série cantam isto”.
De nada adiantou perguntar o que os versos
queriam dizer. Tice, no seu jeito distante,
olhava a mãe como se estivesse querendo
ver através dela. A mãe buscava
esconder sua preocupação,
procurando se convencer que não havia
qualquer problema. Mas passou a prestar
mais atenção à menina.
Procurou saber na Escola algo mais sobre
a filha. A Professora disse que seu comportamento
era exemplar embora parecesse um pouco distraída.
A mãe falou sobre o episódio
do gatinho. Por não saber repetir
a quadrinha, foi muito difícil que
a Professora se situasse. Finalmente entendeu
o que era: “Ah! A professora de francês
recitava essa quadra como um exercício
de entendimento e as meninas da 4ª.
série a adotaram nas suas brincadeiras”.
“Mas o que a Tice tem a ver com isso?”.
“Bem, essa quadra tem todo um ritmo,
que pode atrair a atenção
e lançar um desafio para quem a ouve,
repeti-la”. Em seguida traduziu para
a mãe o significado da quadrinha.
A mãe não conseguia atentar
para a coisa e balbuciou um não convincente:
“É. É bonitinho!”.
Voltando para casa, contou tudo à
sua patroa para dela ouvir um comentário
distraído: “Que gracinha!”.
Tice continuava sua vida
em casa sempre silenciosa com suas pequenas
obrigações cumpridas sem que
sua mãe precisasse se preocupar.
Estava sempre pronta e vestida para o colégio.
Pronta para as refeições sem
que a chamassem. Ia, religiosamente para
o seu banho. Deitava-se depois da novela
que ela não via, sempre com seu gatinho
no colo. Quando a mãe a olhava, percebia
que os lábios de Tice se moviam sem
som. A sua curiosidade em saber o que tanto
Tice falava, ganhava como resposta o silêncio.
Após muita insistência obtinha
um “Tou falando com o gatinho”.
A mãe veio a observar que apesar
de Tice estar sempre carregando o gatinho,
não havia qualquer gesto de carinho
para com ele. Só então é
que a mãe se deu conta de que Tice
não tinha nenhuma atitude real de
carinho para com ela, também. O beijinho
que dava religiosamente ao ir e voltar do
colégio e à noite, antes de
ir para a cama, parecia mais um hábito
distraído e vazio. Não havia
um pai. A mãe não tinha com
quem compartilhar suas dúvidas que
assumiam, crescentemente cores de preocupação.
Ao mesmo tempo, Tice não trazia nem
criava problemas. Era uma criança
dócil. Nunca precisou que lhe ensinassem
a comer direito, a tomar banho e escovar
os dentes, a se vestir, a guardar sua roupas.
Seu sono era calmo. Boa saúde. Nunca
tinha tido as doenças infantis. Não
demonstrava nenhuma curiosidade por não
conhecer um pai. Os momentos de amargo orgulho
da mãe era quando visitas elogiavam
sua filha: “Como ela é boazinha!
É sempre assim?”. Isto a fazia
sorrir e ao mesmo tempo buscar afastar de
sua cabeça a preocupação
latente por esse inexplicável alheamento
de Tice.
Uma tarde a mãe
ouviu a voz de Tice num tom mais elevado.
Parecia que ela repetia aquela quadrinha.
Chegou-se sem fazer barulho. Tice estava
sentada no chão, segurando o gatinho
como quem quer empurrá-lo para a
frente. Olhava fixo para a parede onde se
notava uma pequena fresta na madeira do
rodapé por onde o rabinho de um camundongo
aparecera rapidamente. Ouviu então,
a familiar quadrinha:
“Mur pourrit.
Trou se fit.
Rat se mit.
Chat lui prit.”
Tice parecia querer empurrar
o gatinho. …depois, com um estranho
olhar que expressava uma raiva autoritária,
Tice arremessou o gatinho contra a parede
e caiu num pranto convulso.
(*) – “O
muro apodreceu. Fez-se um buraco. O rato
nele se meteu. O gato o pegou”.

quatro minicontos
de Carlos Barbosa
Titânico
Assim: faz-se uma incisão
e depois descola-se a gengiva, expondo-se
o osso. Em seguida abre-se um buraco com
uma broca. O passo seguinte é introduzir
ali um pino de titânio como quem enfia
um plano no bestunto de um obtuso. Chega-se
até a usar uma chaveta para apertar
no limite máximo. Então completa-se
com a sutura da gengiva. E abre-se outro
e mais outro, pois quem nasce na roça
sempre perde uns quatro dentes, no mínimo,
até a adolescência - os que
ainda têm dentes, é claro.
E o sujeito fica então com a boca
repleta de pontos a espetar a língua,
e com pensamentos mórbidos. Quatro
dias tomando sucos e sorvete, quatro dias.
Engole-se mais saliva nesse período
que se diante de Giselle nua por todo um
fim de semana. Pior de tudo é o desgosto
que se pega de sorvete. É assim,
titânico.
EUROPELES
A irmã do Juca casou-se
com um alemão que conheceu na praia
de Piatã. E foi morar na Alemanha
com seu galego. O Juca, que não é
pato, em dois tempos lá estava fazendo
seus bicos e ganhando em euros. Vencido
o visto de turista, voltou.
Duas semanas depois, apareceu na padaria
do velho Firmino, na Amaralina, montado
numa moto vermelha. Contou causos, esbanjou
no lanche, sorriu pro forno, alisou uma
forma de bolo, e contou mais causos.
- E pra que compraste esta moto, ô
Juca?
- Ora, seo Firmino, a moto é minha
passagem de volta, brevemente.
- E o dinheiro que tu ganhaste lá,
moleque?
O Juca perdeu o rebolado.Por um instante
voltou a ser o aprendiz de padeiro.
- A verdade é que gastei tudo com
mulher, seo Firmino.
Só então riu, o Juca.
Gastou tudo com as amigas da irmã,
na praia de Piatã.
A PRIMEIRA BOLA
Era emborrachada. Mas quase
do tamanho oficial e de gomos brancos e
pretos pintada. Presente de Natal. Saiu
do quarto quicando a bola no piso, tóim!
tóim! A mãe proibiu-o de jogar
dentro de casa. Foi pra rua e de lá
foi expulso pelos intrépidos carros.
Ficou na calçada, pra lá e
pra cá, a driblar imaginados adversários.
Uma tristeza. Mas a bola era só dele
e não a dividiria com outros facilmente.
Chegou a tarde e ele continuava agarrado
à bola. Na praça do cais,
exibiu-a como se fosse sua primeira namorada.
Não a beijou publicamente por timidez,
mas vontade teve. Anoitecia e os rapazes
pulavam do cais, o rio pesadamente cheio.
De repente, um puxão e a bola virava
brinquedo nos pés da rapaziada. Ele
pediu a bola de volta, gritou esganiçado
e acabou chorando. Mas a bola não
voltava: rebolava-se faceira entre os rapazes,
tóim! tóim! Antes de escurecer
completamente, a bola foi chutada com ímpeto
rio adentro. Deu seu último tóim
ao tocar as águas barrentas e velozes
do rio. Engasgado pelo choro, do alto do
cais, horrorizado e impotente, assistiu
ao sumiço da bola na escuridão,
rio abaixo. No retorno ao lar, levou uma
surra por ter perdido a bola, seu caro presente
de Natal.
Belezaria
A beleza tonteava pelas
calçadas do Comércio. Era
noite avançada e a beleza mostrava-se
esquálida e seminua: a calcinha preta
negava-se à bunda murcha, e o sutiã,
igualmente preto, procurava em que se prender
no busto.
A beleza era assim empurrada por fomes seculares
e sedes imediatas. Tão solitária,
aquela beleza, à procura de luz e
vapor...
Ao volante do carro, cruzei por ela, e fugi
do seu olhar; o meu, turvo por lágrimas,
enquanto os caronas achavam muita graça
da beleza perdida na noite do Comércio.
Carlos Barbosa é
escritor, autor de A Dama do Velho Chico
(BomTexto, Rio de Janeiro, 2002)
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Na praia com celular
Helena Ortiz
Na praia, esticada. Toca o celular. Atende
sem levantar: Oi pai.
Tudo bem e com você? (Levanta um pouco
a cabeça)
Você está nervoso? (A barriga
dura se comprime, vai levantar, não
levanta)
O que foi que você fez? (senta-se
de um salto encolhe as pernas.
Eleva o tom da voz) Por que você contou,
papai?
Era um negócio meu, por que você
se mete nas minhas coisas pai?
Como não consegue se controlar? Quando?
Quando? Não importa. Eu iria contar
quando eu tivesse condições.
Amanhã. Depois, depois de amanhã.
No meu tempo, papai. V. atrapalhou tudo,
papai. Por que v. fez isso? (Gesticula e
repara nas pessoas que olham. Baixa o tom
da voz mas em seguida o eleva de novo já
sem se importar).
Como, de que jeito? De um jeito. Ia falar,
conversar, ele ia entender.
Impaciente) Ele não é irrascível,
papai.
Vai entender sim. Vai entender. As coisas
acontecem. A gente sabe que acontecem.
De que jeito ele ia saber papai? Ele sabe
que as coisas são assim. Ou você
acha que todas as coisas que acontecem são
as que saem no jornal?
Eu falo, pode deixar que eu falo. Vai ser
mais difícil porque agora v. atrapalhou
né papai?
Vou, vou explicar.(Relaxando)
Vou, vou explicar. Fique tranqüilo.
Eu estou na praia
(Impaciente) É papai, estou na praia,
qual o problema?
Por que não haveria de vir? O que
é que eu posso fazer?.
Por favor papai, não me venha com
esse papo de “eu não lhe disse?”.
Nem todas as coisas que v. diz se confirmam.
Não se preocupe comigo. (As mãos
vão se aquietando)
Não é escárnio papai
é um pedido. (Curva-se um pouco,
aparentendo cansaço)
Você está bem agora? (um suspiro)
A gente almoça na quinta? (Ergue
o tronco devagar, num alongamento)
Sim, até lá já falei.
Agora vou ter que falar, né? Ele
já sabe.. (limpa distraída
a areia da toalha)
Tchau papai. (e vai deitando devagar).
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