A DERROTA

Mayrant Gallo*

1
O menino acabara de tomar café e fugira de casa, antes que sua mãe o convocasse para alguma tarefa naquela manhã. Ela costumava escravizá-lo, sobretudo aos sábados. Por entre os bambus, viu que o sol arrancava luz da superfície da água, como se tirasse música de velhas panelas. Então correu, admirado. Chegou ao fim do caminho de terra, atravessou aos pulos o breve ajuntamento de pedras e afinal parou, na areia. Embora ainda fria, obrigaria mais tarde a todos saltar como doidos.
Era um sábado alegre, com promessas de grandes brincadeiras, como eram todos os sábados de verão na ilha. Muitos turistas tinham chegado dias antes, com suas crianças. Na véspera ele estivera na casa de Robin, que era filho de um casal americano, mas falava português. Aliás, toda a família falava. Nenhum problema de comunicação, portanto. E era para ali que estava voltando. Além do fato de ser bem tratado por eles, que desde o verão anterior, quando fez amizade com o garoto, cumulavam-no de atenções e gentilezas, pretendia pegar uma coisa, um brinquedo. Um lancha em miniatura como ele jamais vira igual. Linda, em azul e branco, motor de centro. De invejar mesmo, sem dúvida. Seu plano era pegá-la às escondidas e sair. Preferia agir assim a pedir para si o brinquedo. Não conseguiria explicar o motivo, mas sentia que pedir era uma humilhação. Uma derrota.

2

Robin brincava com a irmã Melany e a prima Patrícia na extensão de areia entre a praia e o gramado da casa. Estavam de roupas de banho e só esperavam a ordem do pai para cair na água. O menino era tímido e só cumprimentou o amigo. Mas Melany não se fez de rogada, deu-lhe um beijo na face e disse, o dedo apontando a prima:

“Cê sabe o que o nome dela significa?”

Não, ele não sabia. Então a garota explicou: da pátria, do seu país, patriota. O menino olhou de uma para a outra sem curiosidade. Patrícia era morena, e Melany, loura. Eram ambas muito bonitas e já começavam, em desfile, a puxar olhares de admiração e cobiça. Mas não os do menino, que, se nada de extraordinário ocorresse, ainda levaria alguns anos para descobrir certos segredos e se deixar atrair. Foi Robin quem preencheu o silêncio e fez o convite:

“Vamos dar uma volta?”

Mas naquele momento o pai apareceu na varanda e disse que eles podiam entrar na água.

3

O menino estava sem sunga, mas Robin se prontificou a lhe emprestar uma das suas. As meninas riram. Pareciam advinhar qualquer coisa que ele não compreendia. Aliás, anos e anos se passariam até que ele, mesmo adulto, compreendesse certas atitudes da parte das mulheres. A mais difícil era a que se originava da troca de segredinhos, aos cochichos e risos, como agora. Mas, embora o riso das meninas o intimidasse, aquela era a grande chance de pôr seu plano em prática. Então foi com Robin lá dentro vestir a sunga.

Sabia exatamente onde estava o brinquedo. Na mesa de cabeceira da cama, no quarto do amigo. E as chances de que entrassem ali eram enormes. Em que outro lugar Robin guardaria suas roupas? Era a lógica. Mas o menino não contava com outra, a orientar toda a higiene da casa. A mãe de Robin não queria que ninguém entrasse nos quartos com os pés sujos de areia para vestir roupa de banho. Portanto, sungas, maiôs e biquínis ficariam no quarto dos fundos, desocupado e, além disso, mais perto dos chuveiros externos... Foi ali que ele entrou com Robin e se trocou, depois que este lhe estendeu uma sunga azul.

Ao deixar o quarto, as garotas o saudaram com risos e vaias, e ele corou.

4
Tomaram banho durante toda a manhã. Melany de maiô e Patrícia de biquíni. Por diversas vezes, as garotas se enroscaram com ele, na superfície ou debaixo d’água. Melany até o abraçou com as pernas em volta de seu corpo, literalmente sentada em seu ventre... E depois que escapou de seus braços riu para os lados de Patrícia, que também riu. Duas gatas assanhadas a espicaçar um cão. Robin, um pouco à parte, preferia, de máscara e respirador, procurar peixinhos no raso. O balde, lá longe na areia, já abrigava um monte, que ele capturara com a rede ou mesmo com as mãos em concha.

Quando a mãe de Robin desceu até a orla de espuma, vestida num vistoso maiô amarelo, e chamou os garotos para almoçar, estendeu o convite ao menino, que, no entanto, não disse nada. E não foi senão depois que a mulher mergulhou e nadou até longe e voltou, arrancando os castanhos cabelos de dentro da touca, que ele disse a Robin que aceitaria sim almoçar com eles... Sem que o menino percebesse, as garotas cochicharam algo entre elas e depois se separaram para um último mergulho.

5
Ele almoçou com o brinquedo dentro da sunga. Furtara-o de passagem pelo quarto, quando o pai de Robin pediu que ele apanhasse, “sob a cama de casal, por favor, a caixa de papelão com os espetos da churrasqueira”. Incomodava-o, feria-o, mas ele não pôde desperdiçar aquela oportunidade. A melhor que talvez tivesse durante todo o longo dia. Contorceu-se e acomodou-se tanto na cadeira, que a mulher chegou a perguntar se ele não estava gostando da comida. Pelo contrário: muito.

Depois do almoço teve sorvete e mais tarde gibis, nas redes estendidas na varanda. Patrícia deitou com ele e o apertou como se fosse um bichinho de pelúcia. O menino não compreendia o que elas queriam, Patrícia e Melany... Mas, quando a garota praticamente ficou em cima dele, ao sabor do embalo da rede, ele sentiu que, sobre o brinquedo, seu pênis se endureceu e, pressionado pelo ventre liso da garota, doeu horrivelmente. O menino deu um salto e por pouco não a derrubou. Deitada na ponta da varanda, Melany ria com um gibi sobre o rosto. E Robin, também aos risos, acabara de sair para ir ver se seus peixes, dentro do balde, haviam sobrevivido. Patrícia o puxou pela mão até os fundos do quintal, e entraram no quarto onde ele, pela manhã, vestira a sunga. Dali se avistava, pela janela lateral da casa, parte da cama de casal e dois pares de pernas enroscados e imóveis... Patrícia o levou até um canto sem luz.

Saiu do quarto instantes depois, com o brinquedona mão e um sorriso maligno, o olhar guloso procurando a amiga. Atrás dela, o menino, a ajeitar a sunga, o rosto envergonhado, quase choroso. Derrotado.

*Mayrant Gallo. In: Dizer adeus, São Paulo: Edições K, 2005. 128 p. M. G. é poeta e contista. Publicou O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003) e Recordações de andar exausto (Aboio Livre, 2005). Mora em Salvador.

ONDE ESTIVEMOS ENQUANTO ERA NOITE

Alexandre Brandão*

É tudo silêncio. Nos embrenhamos pela estrada deserta e de oásis em oásis chegamos ao rio. Cedo ou tarde pescaremos as traíras. Por enquanto, avistamos as luzes piscando bem longe. Faço um comentário sobre qualquer coisa sem muita importância. Você acusa de fria, a brisa. Emendo: o frio exige um trago. Você reclama de que não trouxemos bebida. Eu lhe faço a surpresa. De meu embornal, saco o licor de jabuticaba. Quem vai fazer a surpresa agora é você: beber o líquido direto do bico da garrafa, sem tomar fôlego. Rio. O rio passa. Os peixes ainda não morderam a isca. Quero saber se conheço você. Você se despe e pula nas águas geladas. Eu brinco: o peixe caiu na minha rede, e mergulho nas mesmas águas e abraço o seu corpo arrepiado. Eles ficaram para trás, você cochicha no pé do meu ouvido. Outros virão, respondo certo de que, para você, eles são os peixes. Explicito a minha fome do momento. Você abre as pernas. Nos encostamos no barranco e acontece. Um peixe, um peixe. Você vê a vara por mim fincada na terra vergar sob o peso de algo vindo do fundo do rio. Um peixe, um peixe. Estou de costas para você, tentando puxar a tilápia ou o bagre ou sei lá o quê, e você grita que sou apenas bunda e costas e batata da perna e calcanhar. Peço para você fazer o silêncio de pescador. Você vem para perto de mim tão devagar que nem escuto seus passos e abraça-me pelas costas, roçando seus pêlos pubianos em minha bunda. Levanto a vara e tiro das águas geladas o peixe. Você retalha as cebolas, engolindo as lágrimas. Limpo o peixe e descasco os alhos, coisa que você rechaça sem saber explicar porquê. Você aproxima a faca do meu rosto e com a mão desocupada afaga meus cabelos. Peço-lhe para afastar aquela faca de mim. Você fura o chão úmido com a ponta da faca e com as duas mãos livres me abraça. Estamos cheirando a tempero. Estamos que é puro tempero. Nada em nós é peixe? Eu cheiro o peixe e o seu sexo e ambos são gostosos. Você solta uma tremenda gargalhada. Sinto um calafrio. Xô, morte, foge que tô forte. Bato a mão no cabo de madeira da faca. Você bate, de leve, sua mão em meu pênis e fala que prefere os paus de carne e osso. Sigo ao encontro da felicidade. Para desviar-me deste caminho, uma formiga morde meu traseiro. Dói. Levanto-me num salto abrupto. Você percebe que estive sentado em um formigueiro. Estico a toalha e deito de bruços. Você passa pomada nas minhas partes atacadas e canta uma música que nós já nem lembrávamos, uma música do verão de 80. Nu, com a bunda para a lua, e uma mulher passando — vou falar talco embora seja pomada — talco em mim, estou protegido. Cantarolo: “Quando eu era menino, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim.” Sei lá que associação você faz, mas você me coloca para chupar seu peito e pede para tirar algum líquido dali. Eu sugo sangue. Você então diz que a humanidade não entende nada dessa coisa de homem e mulher, que está tudo errado. Me chama de meu homem. Sua voz corta a noite em um tom muito agradável e sugere, depois de dar corpo e sangue ao homem, alimentá-lo com o peixe trazido por ele do fundo das águas geladas. Você se levanta e curva o dorso para apanhar o peixe e os temperos; eu consigo ver — ou penso ver — bem no meio de suas nádegas, o seu ânus, e me recordo da poeta que descobriu, nas palavras dela, a beleza do cu. Miro as estrelas e abro os braços. Você me vê assim e me chama de preguiçoso. Dou um salto, fico em pé. O peixe faz barulho no óleo quente. Você se ajoelha para ficar mais próxima da frigideira que está no fogareiro de tijolo há pouco improvisado. Puxo com cuidado seus cabelos e passo a faca em uma ponta. Atiro aquele cacho nas águas escuras. Você diz que ali vai para eles nossa náufraga mensagem. Se eles não são os peixes, quem são? Você serve a iguaria nos pratinhos de papel, o pedaço maior é o meu. Eu como devagar. Você me aconselha cuidado com as espinhas. Elogio a correção da mão cozinheira. Damos outras bicadas no licor, agora sem fúria. Nunca envelheceremos, você afirma. Quero saber o porquê de você estar dizendo aquilo. Você aventa um certo pacto com nossa juventude, um compromisso perene. Engasgo com uma espinha. Você ri. O rio passa. Ponho meus pés na sua barriga. Você olha bem dentro dos meus olhos. Aliso sua barriga com meus pés. Desço os pés. Esfrego o direito em seu sexo. Você leva minha mão para fazer aquilo. Logo tiro as mãos e aproximo minha boca para beijar e mordiscar seus lábios inferiores, todos os seus lábios, os lábios rosas, os lábios roxos, os vermelhos. Enquanto minha língua age, você conta as estrelas. São 100. São 1000. São um milhão. Sou uma mulher, você diz. Você é uma mulher, eu confirmo. Você é um homem, quem fala é você. Eu então: sou um homem. Agora estou por cima de você, fazendo movimentos constantes e lentos. Não temos o menor temor de olhar um para o outro, um dentro do outro. Continuamos nosso jogo de afirmações. Sou uma vaca. Você é uma vaca. Você é uma ursa. Você é um urso. Eu sou um veado. Não, você diz, isto você não é. Rimos enquanto o gozo, uma descarga elétrica mansa e morna, toma conta de nosso corpo. Adormecemos espalhados na beira do rio.

Acordamos nem bem o sol havia levantado. Não estamos mais a sós. Eles — agora, sim, sei quem são — estão por ali, em algum lugar. Eu e você vestimos nossas roupas e sentamos de costas um para o outro. Onde estivemos enquanto era noite ninguém nunca estará. Eu penso isso e talvez você pense o mesmo. Mas já não trocamos palavras. Apenas aguardamos que eles apareçam e nos levem.

 

* Alexandre Brandão lançou os seguintes livros: em 1995, "Contos de
homem" (Ed. Aldebarã); em 2005, "Estão todos aqui" (Ed. Bom-Texto).
Em 2000, graças ao seu inédito "Amor, sexo, o resto e o que ficou
esquecido" ganhou o prêmio Oficina do Autor da Funarte. "Onde
estivemos enquanto era noite" faz parte desta coletânea.






 
 
 
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