Sangue e Areia.

Mariel Reis

Toda vez ele mandava ajoelhar no chão de cascalho. Doía. Apontava as traves. As linhas de cal cercando o campo. Ali, dizia, eu costumava jogar ali. Zagueiro, e cuspia enquanto falava. O trezoitão enfiado no cinto, por dentro da calça. Toda vez ele mandava percorrer a quadra de joelhos, como uma penitência. Pensando que é mole, meu irmão. Corria isso aí, cinco, dez vezes. Minha perna igual à de um cavalo. E enquanto ele dizia, um rastro vermelho lambuzava todo a extensão da primeira parte lateral do campo. As janelas dos barracos entreabertas. Nos ônibus ninguém se atrevia a descer e acabar com aquela desgraça. Lembro de um jogo, tinha um cara chamado Bodão, o cara era foda. Ninguém parava o filha-da-puta. Aí falaram para mim assim “Cobrinha, pára o cara, custe o que custar”. Eu sorri meio banguela, satisfeito. Porque não tinha outro para o serviço. E o capitão do time, o Tarzan, confiava em mim. Então o Bodão dançou de um lado a outro tirando onda com os trouxas. O cara jogava. Passou pelo Marcinho. E entre ele e o goleiro só eu estava. Cutucou a bola para a lateral esquerda, pensou que eu ia na dele. Ele tinha essa mania: fingia que ia tocar prum lado e danava a correr pro outro. Dei um carrinho no filho – da – puta pra ele não brincar mais assim com ninguém. Agora de pé! E amarrado à trave, ele arrancou minha camisa, e pediu para um menino ir até a venda do seu Zé do Alicate. Que tinha uma carroça. Para pedir o chicote. Ninguém interrompia aquilo, o horror encheu de sangue a minha boca. Os joelhos esfolados. As costas ardiam a cada lambada. Lá em cima morava o Miolo. Era nosso atacante. O moleque batia um bolão. Se você tivesse nascido antes. É, morreu na estação. O trem o cortou no meio. Toda gente daqui ajudou no enterro. Miolo era daqueles caras que sabiam o que iriam fazer com a bola antes que ela chegasse aos seus pés. Parecia um canariozinho da terra. Veloz como um diabo. Desamarrou as cordas das minhas mãos. Sem força alguma para lutar, engrolei algumas palavras. Senta aí. O sol queimava indiferente. Sem a calça, porra! No meio do campo um par de tênis velho, sujo, abandonado. Na vendinha ele me via fritar no sol, enquanto tomava a sua cervejinha. E minha cara arrebentada. Aí ele voltou “Pra que isso, né, amizade. Não sabe escolher companhia, tem que tomar um corretivo”. Chamou dois caras. E ele ensinou. Você tem que saber como chutar uma bola. O meu treinador dizia que de todos os fundamentos, era essa minha maior dificuldade. Batia chute a gol toda à tarde. Estava ficando melhor que o Pelé. Começaram a chutar minhas costelas. Levantei as mãos ao rosto. E não adiantou muito. “Minha irmã, cara, minha irmã”. Era o que chutava com mais força. O outro procurava acertar mais por ordem Dele. “Não afrouxa com ele não, boneca”. O rapaz intimidado melhorou a pontaria dos pontapés e a força. “Mata logo esse viado!” O rapaz que dizia minha irmã, minha irmã cara, pedia que ele terminasse logo comigo. “Com esse eu não tenho pressa”. Não sabia se era raiva ou piedade, ou tudo junto o que movia o rapaz. Um dos meus olhos, fechados. Não enxergava muito com o outro. Leva ele lá pra pedreira. A sugestão partiu não sei de onde. Ninguém tira esse filho – da – puta daqui. E o trezoitão disparou pro alto. Mando ou não mando nessa porra. Olha só meu amigo, não sei como você se meteu nessa, mas já está levando o seu corretivo. Logo uma mina daqui do morro. Sabe o que aconteceu com ela? Eu não sabia. Quer dizer que você gosta de vender bagulho na área dos outros? Não sabia que a área tinha um dono. Nequinha era o lateral. Saiu do morro assim que eu entrei pra vida. Habilidoso, cruzava as bolas com perfeição na cabeça do centro – avante. Não vi de onde saiu a coronhada

(in Linha de Recuo - lançamento dia 8 demarço na Livraria da Travessa)


 
 
 
poeta da vez
poeta da vez
editora da palavra