A árvore
que pensava
Oswaldo França
Júnior
Houve uma árvore que
pensava. E pensava muito. Um dia transpuseram-na
para a praça no centro da cidade.
Fez-lhe bem a deferência. Ela entusiasmou-se,
cresceu, agigantou-se.
Aí vieram os homens
e podaram seus galhos. A árvore estranhou
o fato e corrigiu seu crescimento, pensando
estar na direção de seus galhos
a causa da insatisfação dos
homens. Mas quando ela novamente se agigantou
os homens voltaram e novamente amputaram
seus galhos.
A árvore queria satisfazer
aos homens por julgá-los seus benfeitores,
e parou de crescer. E como ela não
crescesse mais, os homens a arrancaram da
praça e colocaram outra em seu lugar.
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a cidade e
as serras
Eça de Queiroz
– Oh! Jacinto, e quando
nós andávamos por Paris com
o Pessimismo às costas, a gemer que
tudo era ilusão e dor?
O meu Príncipe, que
o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava
a grandes passadas o soalho, enrolando o
cigarro:
– Oh! Que engenhosa
besta, esse Schopenhauer! E a maior besta
eu, que o sorvia, e que me desolava com
sinceridade! E todavia, – continuava
ele, remexendo a chávena –
o Pessimismo é uma teoria bem consoladora
para os que sofrem, porque desindividualiza
o sofrimento, alarga-o até o tornar
uma lei universal, a lei própria
da Vida; portanto lhe tira o carácter
pungente duma injustiça especial,
cometida contra o sofredor por um Destino
inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
sobretudo nos amarga, quando contemplamos
ou imaginamos o bem do nosso vizinho: –
porque nos sentimos escolhidos e destacados
para a infelicidade, podendo, como ele,
ter nascido para o Fortuna. Quem se queixaria
de ser coxo – se toda a humanidade
coxeasse? E quais não seriam os urros,
e a furiosa revolta do homem envolto na
neve e friagem e borrasca dum Inverno especial,
organizado nos Céus para o envolver
a ele unicamente – enquanto em redor,
toda a humanidade se movesse na luminosa
benignidade duma Primavera?
– Com efeito –
murmurei eu – esse sujeito teria imensa
razão para urrar.
– E depois –
clamava ainda o meu amigo – o Pessimismo
é excelente para os Inertes, porque
lhes atenua o desgracioso delito da Inércia.
Se toda a meta é um monte de Dor,
onde a alma vai esbarrar, para que marchar
para a meta, através dos embaraços
do mundo? e de resto todos os Líricos
e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão
até o maligno Schopenhauer, lançam
o seu cântico ou a sua doutrina para
disfarçar a humilhação
das suas misérias, subordinando-as
todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cósmica,
e ornando assim com a auréola de
uma origem quase divina as suas miúdas
desgraçazinhas de temperamento ou
de Sorte. O bom Schopenhauer formula todo
o seu schopenhauerismo, quando é
um filósofo sem editor, e um professor
sem discípulos; e sofre horrendamente
de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro
debaixo do sobrado; e redige as suas contas
em grego nos perpétuos lamentos da
desconfiança; e vive nas adegas com
o medo de incêndios; e viaja com um
copo de lata na algibeira para não
beber em vidro que beiços de leproso
tivessem contaminado! Então Schopenhauer
é sombriamente Schopenhauerista.
Mas apenas penetra na celebridade , e os
seus miseráveis nervos se acalmam,
e o cerca uma paz amável, não
há então, em todo Francoforte,
burguês mais optimista, de face mais
jucunda, e gozando mais regradamente os
bens da inteligência e da Vida!...
E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
rei de Jerusalém! Quando descobre
esse sublime Retórico que o mundo
é Ilusão e Vaidade? Aos setenta
e cinco anos, quando o Poder lhe escapa
das mãos trêmulas e o seu serralho
de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente
supérfluo. Então rompem os
pomposos queixumes! Tudo é vaidade
e aflição do espírito!
Nada existe estável sob o Sol! Com
efeito, meu bom Salomão, tudo passa
– principalmente o poder de usar trezentas
concubinas! Mas que se restitua a esse velho
sultão asiático, besuntado
de Literatura, a sua virilidade, –
e onde se sumirá o lamento do Ecclesiastes?
Então voltará, em segunda
e triunfal edição, o êxtase
do Livro dos Cantares!...
Assim discursava o meu amigo
no noturno silêncio de Tormes. Creio
que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo
outras coisas joviais, profundas ou elegantes;
mas eu adormecerça, beatificamente,
envolto em Optimismo e doçura.
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pernas puras
duras penas
helena ortiz
crianças
carrinhos babás corre-corre pressa
trabalho dinheiro horário ai que
vida corre-corre a mãe onde estará
crianças carrinhos babás e
o pai e o pai por onde dinheiro trabalho
dinheiro dormir comer ir à praia
no domingo você me leva papai mcdonalds
domingo mamãe eu fui com a minha
mãe a vida o dinheiro carrinhos babá
papai viajou volta quando não sei
não disse carrinho babá onde
vão ao mercado padaria criança
as pernas já não cabem mãe
pai que bonitinha tchau vovó ao salão
ao bingo à biriba trabalho horário
dinheiro agenda avião a semana que
vem prometo que sim prometo que não
eu vou buscar deixa que eu vou você
não foi já volto não
volto pode ir criança babá
pensão mensalidade colégio
criança quatro anos as pernas premidas
o pai esqueceu de buscar ela está
estressada a babá estressou a criança
cresce no carrinho cinco anos a pressa a
natação dona cráudia
a nenê está crescida não
me vem com isso daqui a pouco não
revisão de sentença advogado
juiz banco o banco os bancos crianças
crescendo as pernas crescendo as pernas
puras crescendo moles a criança dura
e já são seis anos a babá
contrita as crianças nem tão
católicas e agora vê-se: eram
muitas (tantas) crescidas vão sozinhas
às academias pernas fortes correndo
esteiras correndo para os carros correndo
correndo perfeitas pernas poderosas pernas
potentes postura garbosa crianças
saradas malhadas mamãe não
está papai nunca esteve é
preciso malhar sarar criar músculos
tornar preciosas as pernas crescidas academia
para malhar para bonitas para gostosas para
manequins atrizes modelos todas crianças
de carrinho a babá varizes a mãe
o pai trabalhar dinheiro trabalhar dinheiro
avião segunda mulher terceira mulher
cartão cartório avião
pernas em movimentos povoam a noite carros
em movimento povoam as pernas promíscuas
carros carrões cartões as
moças em seus carros tantas pernas
duras povoam carros correndo para todas
as noites suarentas sustentam seios sarados
mamãe papai minhas pernas foi o que
pude salvar
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