Rinha

Milton Dacosta
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um conto de Mariel
Reis
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A aguardente no balcão. Jonas conversa.
A cabeça oscila de um lado a outro
como se fosse tombar. As palavras saem engroladas.
A fala áspera, entrecortada de palavrões,
vai enchendo o ambiente. O dono do bar despeja
outra vez a branquinha no copo. As entranhas
remexem-se a cada gole. Não se confia
em mulher, eu já disse. Homem que
confia em mulher é trouxa. E outra
talagada. Conta aí, Jonas. Já
digo. A puta me fez uma tremenda falseta.
Vocês nunca vão entender. Nunca.
Sebastiana, mulher de Jonas, entra na venda.
Um quilo de arroz. Pode pôr na conta
desse pau d’água aí.
Jonas levanta o corpo da mesa aos solavancos.
O ambiente empesta-se de suas pragas. A
mulher sai do armazém sem olhá-lo.
Puta, isso é que ela é. Conta
aí, Jonas. Vocês não
vão crer no que fez esta desgramada.
Num domingo de um ano destes, saindo de
casa para o trabalho, encontrei o compadre
Josemar animado. Numa animação
suspeita, se eu o não conhecesse
bem. Dizia que eu devia vir. Que a coisa
ia pegar fogo mais tarde, pros lados do
Tamba. E a minha curiosidade só aumentava.
No trabalho minha cabeça não
saía desse negócio do compadre
Josemar. E no fim do expediente me arranquei
pro Tamba. Lá o negócio esquentava.
Cada homem que chegava trazia um embrulho
embaixo do braço. Do embrulho saíam
cabeças de galo. Uma mais enfezada
que a outra. Só que não é
isso ainda. A briga de galos da noite. Os
homens pareciam endemoninhados. Gritando
e urrando. Os animais se esporeando. Afinal,
meu compadre Josemar me abraçou emocionado,
trazendo nos braços o vencedor. O
galo com as penas cheias de sangue. Jonas,
meu camarada, vou lhe dar um presente assim
que chegar lá em casa. E Josemar
me deu. O frangote era desajeitado. Mas
bonito que só. Cheio de elegância.
Posso treiná-lo para quando ficar
mais velho. Pra encher de cacete os outros
franguinhos da região. Que nem o
pai, um vencedor nato. E apontou prum canto
onde estava o galo campeão. Embrulhei
o bichinho no jornal e piquei pra casa.
Lá a mulher me esperava. No portão
anunciei a novidade. Sebastiana achou engraçado.
Por que não um cachorro, homem? E
fechando a cara se enfiou no quarto. Dia
e noite eu cuidava do molecote. O melhor
milho. Fazia correr em torno do terreiro
pro bicho fortalecer os pés. E o
bico era afiado na pedra de amolar. Mas
de briga mesmo, eu não queria que
ele fosse. Era mais uma companhia pra mim.
Sebastiana não pegava filho. E aquele
franguinho era como se fosse o meu. Só
que o diabo não quer a felicidade
de ninguém. E tampouco iria querer
a minha. Se mudou para minha rua uma dona.
Sozinha. Sem homem. E toda vez que eu passava,
cumprimentava. Ela com aqueles olhões
me lambendo todo. E Sebastiana de longe,
espiando. À noite, discussão.
Todo tipo de aporrinhamento. E lá
ia eu pra rua com meu galinho. Vê-lo
estripuliando era minha felicidade. A tal
dona, um dia, deu com as costas lá
em casa. Sebastiana desconfiada. A intimidade
chegou depressa entre as duas. Sebastiana
queria era arrancar dela a confissão
de que eu adulterava só porque a
moça me dava uma atenção
terna por causa do meu bichinho. Sebastiana
prometendo que iria aprontar uma comigo.
Que eu colocasse as barbas de molho. Castigo
vem a tartaruga e não a cavalo. E
veio. Saí pra trabalhar na segunda.
Amarrei o galinho no terreiro. Me despedi
dele. Dei um beijo em Sebastiana e recomendei
que cuidasse bem do bicho. Quando cheguei
a moça ria na cozinha com Sebastiana.
Fazendo receita e assuntando coisas de mulher.
Sai daqui homem. E no quintal nem sinal
do meu frangote. O cheiro forte vindo do
forno. Sebastiana assava alguma coisa. A
moça veio pra varanda pra perguntar
sobre o franguinho. Como ele estava e coisa
assim. Falei que ele tinha fugido. O barbante
arrebentado. O que saiu do forno foi porco.
Ao contrário do que eu pensava. Ela
não me daria de comer o meu pobre
bichinho. Se fizesse maldade, seria coisa
pior. Ela não perdoava a atenção
da moça nova pra mim. E o ciúme
é uma serpente que abocanha calcanhar.
Os dias passaram e já me acostumava
com a ausência do meu menino. Sebastiana
zombava da minha saudade. Josemar me perguntava
do desinfeliz. Eu dava sempre desculpa.
Até que disse que tinha morrido.
Josemar lamentou e nunca mais me deu cria
nenhuma. Espalhou que eu tinha mão
ruim. Dinzinho que me esclareceu. Disse:
compadre sabe que não sou de envenenar
casamento de ninguém. Mas sei o que
aconteceu com seu filho. E desfiou que viu
Sebastiana ir na direção do
rio com um embrulho. Toda vez o embrulho
escapulia dela. E ela corria atrás
como se estivesse vivo. Eu pescava por ali
e vi Sebastiana torcer o pescoço
do desinfeliz. Fui pra casa. E dei surra
na mulher. Chamei ela de figueira brava.
Busquei o corpo do meu menino na beira do
rio e dei sepultura decente pra ele. Voltei
pra casa sufocado de raiva. A garganta inchando,
os olhos vermelhos. E fiz isso com Sebastiana,
pra ela nunca mais abusar de inocentes.
Quando Sebastiana saiu do armazém
todos viram que ela mancava. Os pés
enfaixados. Tirei três dedos dela.
Pouco diante do que perdi. Um filho, uma
vida. E tornou a beber a cachaça.
E tornou a empestar o ambiente com os palavrões.
A vida não pode ser esse cadinho
de desgraça, pode? Perguntava sem
querer resposta.
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ação social
Helena Ortiz
a viagem pra paquetá ia bem mas quando
a barca estava quase chegando ligaram um
aparelho em altíssimo volume. primeiro
pensei que tinha sido um daqueles malucos
que carregam aparelhos para toda a parte,
mas depois vi que o alto-falante era mesmo
da barca e foi aí que me veio a idéia.
ontem foi a primeira vez. estava num bar
com amigos e na mesa ao lado havia uma moça
voz aguda ataques de alegria brancos seios
enormes balouçantes sobre a mesa.
muitas pessoas comentaram. ficou por isso.
eu não. eu fui me irritando com o
barulho que volta e meia. levantei fui até
ela: minha filha, venha cá que eu
preciso falar com você. os amigos
estranharam. ela me acompanhou fomos ao
banheiro eu lhe disse ao ouvido, baixo mas
com firmeza: se você não parar
de gritar eu vou lhe dar um tiro nas cordas
vocais entendeu sua gasguita? ia abrir a
boca eu a impedi: pare de berrar ou vá
embora não suporto mais seus ganidos
apertei-lhe bem o braço entendeu
gasguita? acredita? quer ver? parágrafo.
relaxei o braço. ela voltou à
mesa. ficou quieta. falou baixo. daí
a pouco saíram todos. público
seleto.
hoje aconteceu de novo. fui
à farmácia passei na esquina
e senti o cheiro da fumaça que subia
até quase a altura do quarto andar.
cheguei por trás do paraíba
e disse olha aí meu, se você
estiver aqui amanhã eu vou te apagar
falou? vou encher tua boca de carne crua
e vou te enfiar um a um esses espetinhos,
tranqüilo?
ao lado da farmácia
há um bar onde criaturas vão
curtir um som altíssimo mal sintonizado.
aquilo me irritou. o aparelho estava colocado
de improviso no meio da calçada.
quando voltei da farmácia um movimento
sutil derrubou a coisa com grande espalhafato.
comoção geral. o dono do aparelho
logo se sobressai. todo o mundo acompanha
o lance. no chão, quebrado em mil,
estertora o caixote. que sensação
indizível!
que porra é essa?
tu não viu o troço aí?
respondi: foi sem querer. como foi sem querer
caralho? pois é, foi sem querer.
e agora como é que vai ser? agora
vou ter que sacrificar. tirei o meu revólver
do bolso e dei dois tiros no aparelho. o
cara abriu muito as narinas. olhou para
o revólver depois se balançou
sem saber para onde e acabou caminhando
para trás. todo o mundo foi saindo
rapidinho. o pessoal que estava no bar da
calçada em frente voltou às
conversas com bastante entusiasmo. os garçons
começaram a se mexer. há pedidos
na cozinha. a patrulhinha passa sem parar.
tomo meu caminho para casa.
o pessoal do churrasquinho já foi
embora. na calçada não está
mais nem o homem que não recolhe
o cocô do cachorro.
a rua respira. estou pensando
se vou a paquetá amanhã a
ver se ligam aquele diabo de som.
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