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Roberto Schwarz |
LEITURAS
EM
COMPETIÇÃO
1a. parte
“Este
livro
resulta de
quatro
conferências
que
dei na
Universidade
de Cambridge. (…) Ao
falar
de Borges
precisamente
ali
e
em
inglês,
tive uma
impressão
curiosa.Aí
estava uma argentina falando numa
universidade
inglesa
sobre
outro
argentino a
quem
hoje
se considera “universal”.(…)
A
reputação
mundial de Borges o purgou de
nacionalidade.”
Beatriz Sarlo,
Borges,
um
escritor
na
margem
O
renome
internacional
de
Machado
de Assis,hoje
em
alta,até
meados
do
século
passado
era
quase
nenhum.Para
não
fabricar
um
falso
problema,
é
bom
dizer
que
o
mesmo
valia
para
a
literatura
brasileira
no
seu
todo,prejudicada
pela
barreira
do
idioma.Talvez
a
única
exceção
fossem os
romances
de Jorge
Amado,que
se beneficiavam da
máquina
de
propaganda
e
traduções
do
Realismo
Socialista,
atrelada à
política
externa
da finada
União
Soviética.Sem
ilusões,
comentando uma
tentativa
oficial
de
divulgar
os
escritores
brasileiros
na França,Mário de Andrade observava
que
a
nossa
arte
seria
mais
apreciada no
mundo
se a
moeda
nacional
fosse
forte
e tivéssemos
aviões
de
bombardeio.1Como
não
era
o
caso,
íamos criando uma
literatura
de
qualidade
até
surpreendente,
que
para
uso
externo
permanecia
obscura.
De
lá
para
cá,
o
romance
machadiano
foi traduzido e os
estudos
estrangeiros
a
seu
respeito
vieram pingando,
sobretudo
em
inglês.Em
parte
o empurrão foi
dado
pela
ampliação
dos
interesses
norte-americanos
no
pós-guerra,a
qual
se refletiu na
programação
da
pesquisa
universitária.
Voltada
para
regiões
que
a
Guerra
Fria
tornava explosivas, a
criação
de area
studies
facultava
currículos
mais
adaptados ao
presente,
para
mal
e
para
bem.Assim,na
esteira
da
Revolução
Cubana, o
português
foi declarado
língua
estratégica
para
os
Estados
Unidos,
com
a suplementação de
verbas
e os
dividendos
culturais do
caso.2
Já
na
parte
propriamente
literária,
o
reconhecimento
se deveu a
intelectuais
com
antena
para
a
qualidade
e a
inovação.
Por
exemplo,
Susan Sontag
conta
que
o
editor
de
seu
primeiro
romance
a cumprimentou
pela
influência
de
Machado
de Assis, cujas
Memórias
póstumas de Brás
Cubas
ele
mesmo
havia publicado há
poucos
anos.Era
engano,
pois
ela
não
conhecia
nem
o
livro
nem
o
autor,mas
logo
os adotou
como
“influência
retroativa”.3A
suposição,que
não
valia
para
Sontag,valia
entretanto
para
o
próprio
editor:
Cecil Hemley
era
romancista
por
sua
vez,e
deixou
um
excelente
testemunho
de
seu
interesse
por
Machado.
A
anedota
mostra
o
clima
de
cumplicidades
seletas
que
se estava formando
em
torno
do
escritor.4
Para
outro
exemplo,
veja-se o
prefácio
de John Barth a uma
reedição
de
seus
primeiros
livros.
O
romancista
— National
Book Award
de 1972 — lembra
que
tentava
encontrar
a
sua
maneira,
com
ajuda
de Boccaccio, Joyce e Faulkner,quando
o
acaso
fez
que
lesse
Machado
de Assis.Este
lhe
ensinou
que
as
cambalhotas
narrativas
não
excluíam o
sentimento
genuíno
nem
o
realismo,numa
combinação
à la
Sterne,que
mais
adiante
se chamaria pós-moderna.5
Quanto
à
academia,
a
pesquisa
machadiana
desenvolvida
nos
Estados
Unidos acompanhou as
correntes
de
crítica
em
voga
por
lá,como
era
natural.
O
patrocínio
teórico
vinha
entre
outros
do New
Criticism,
da Desconstrução, das
idéias
de Bakhtine
sobre
a carnavalização
em
literatura,
dos Cultural
studies,
bem
como
do
gosto
pós-moderno
pela
metaficção e
pelo
bazar
de
estilos
e
convenções.A
lista
é facilmente prolongável e
não
pára de
crescer.Mais
afinada
com
a
maioria
silenciosa,indiferente
às
novidades,havia
ainda
a
análise
psicológica
de
corte
convencional.A
surpresa
ficava
por
conta
do
próprio
Machado
de Assis,cuja
obra,originária
de
outro
tempo
e
país,
não
só
não
oferecia
resistência,
como
parecia
feita
de
propósito
para
ilustrar
o
repertório
das
teorias
recentes.
O
ponto
de
contato
se encontrava no
questionamento
do
realismo
ou
da
representação,
e
em
certo
destaque
da
forma,
concebida
como
estrangeira
à
história.Há
aqui
uma
questão
que
vale
a
pena
enfrentar:
como
entender
a
afinidade
entre
um
romancista
brasileiro
do
último
quartel
do
século
XIX e o
conjunto
das
teorias
críticas
em
evidência
agora,nas
Metrópoles?
O percurso da
crítica
brasileira
no
mesmo
período
foi
distinto.
Ela
não
tinha
diante
de
si
um
grande
escritor
desconhecido,mas,ao
contrário,
o
clássico
nacional
anódino.
Embora
fosse
coisa
assente,
a
grandeza
de
Machado
não
se entroncava na
vida
e na
literatura
nacionais.
A
sutileza
intelectual
e
artística,
muito
superior
à dos
compatriotas,
mais
o afastava do
que
o aproximava do
país.
O
gosto
refinado, a
cultura
judiciosa,
a
ironia
discreta,
sem
ranço
de
província,
a
perícia
literária,
tudo
isso
era
objeto
de
admiração,
mas
parecia
formar
um
corpo
estranho
no
contexto
de precariedades e
urgências
da
jovem
nação,
marcada
pelo
passado
colonial
recente.
Eram
vitórias
sobre
o
ambiente
ingrato,
e
não
expressões
dele,a
que
não
davam
seqüência.Dependendo
do
ponto
de
vista,as
perfeições
podiam
ser
empecilhos.
Um
documento
curioso
dessa
dificuldade
são
as ambivalências de Mário de Andrade a
respeito.Este
antecipava
com
orgulho
que
Machado
ainda
ocuparia
um
lugar
de
destaque
na
literatura
universal,
mas
nem
por
isso
colocava os
seus
romances
entre
os
primeiros
da
literatura
brasileira.6
Pois
bem,
a
partir
de
meados
do
século
XX a
tônica
se inverte,
com
apoio
numa
sucessão
de
descobertas
críticas.
O
distanciamento
olímpico
do
Mestre
não
desaparece,
mas
passa
a
funcionar
como
um
anteparo
decoroso,que
permite a
relação
incisiva
com
o
presente
e a
circunstância.
O
centro
da
atenção
desloca-se
para
o
processamento
literário
da
realidade
imediata,pouco
notado
até
então.Em
lugar
do
pesquisador
das
constantes
da
alma
humana,acima
e
fora
da
história,indiferente
às
particularidades
e aos
conflitos
do
país,
entrava
um
dramatizador
malicioso
da
experiência
brasileira.
Este
não
se filiava
apenas
aos
luminares
da
literatura
universal,
a Sterne, Swift,
Pascal,
Erasmo etc.,
como
queriam os
admiradores
cosmopolitas.Com
discernimento
memorável,
ele
estudara
igualmente
a
obra
de
seus
predecessores
locais,
menores
e
menos
do
que
menores,para
aprofundá-la.Mal
ou
bem,os
cronistas e
romancistas
cariocas
haviam formado uma
tradição,
cuja
trivialidade
pitoresca
ele
soube
redimensionar,
descobrindo-lhe o
nervo
moderno
e erguendo uma
experiência
provinciana à
altura
da
grande
arte
do
tempo.7
Quanto
ao propalado
desinteresse
do
escritor
pelas
questões
sociais,
um
dos
principais
explicadores
do Brasil pôs
um
ponto
final
à
controvérsia:
sistematizou as
observações
de
realidade
espalhadas na
obra
machadiana,
chamando a
atenção
para
o
seu
número
e a
sua
qualidade,
e
com
elas
documentou
um
livro
de 500
páginas
sobre
a
transição
da
sociedade
estamental à
sociedade
de
classes.8
O
trabalho
escravo
e a
plebe
colonial, o
clientelismo
generalizado e o
próprio
trópico,além
da
Corte
e da
figura
do
Imperador,davam
à
civilização
urbana
e a
seus
anseios
europeizantes uma
nota
especial.
Compunham uma
sociedade
inconfundível,
com
questões
próprias,que
o
romancista
não
dissolveu
em
psicologia
universalista
— contrariamente ao
que
supôs o historiador.9
Nas
etapas
seguintes
desta
virada,
que
ainda
está
em
curso,
a
composição,
a
cadência
e a
textura
do
romance
machadiano
foram
vistas
como
formalização
artística
de
aspectos
peculiares
à ex-colônia,
apanhados
onde
menos
em
falta
e
mais
civilizada
ela
se supunha. Explorados
pela
inventiva
do
romancista,esses
aspectos
ganhavam conectividade e expunham a
teia
de
suas
implicações,
algumas das
quais
muito
modernas,
além
de incômodas. As
peculiaridades
prendiam-se a) ao
padrão
patriarcal;
b) a
nosso
mix
de
liberalismo,
escravidão
e
clientelismo,
com
os
seus
paradoxos
estridentes;
c) à
engrenagem
também
sui generis
das
classes
sociais,
inseparável
do
destino
brasileiro
dos
africanos;d)
às
etapas
da
evolução
desse
todo;e
e) à
sua
inserção
no
presente
do
mundo,que
foi e é
um
problema
(ou
uma
saída)
para
o
país,
e
aliás
para
o
mundo.
De
tal
sorte
que
as
questões
estéticas,
de
congruência
e
dinâmica
interna,
bem
como
de
originalidade,passaram
a
envolver
a
reflexão
sobre
o
viés
próprio
e o
significado
histórico
da
formação
social
ela
mesma.Assim,embora
notória
por
desacatar
os
preceitos
elementares
da
verossimilhança
realista,a
arte
machadiana
fazia de ordenamentos
nacionais
a
disciplina
estrutural de
sua
ficção.10
Sem
prejuízo
da
diferença
entre
os
críticos,
a
natureza
complementar
dos
trabalhos
que
levaram a essa
mudança
de
leitura
se impõe, sugerindo uma
gravitação
de
conjunto.
Passo
a
passo,
o
romancista
foi transformado de
fenômeno
solitário
e
inexplicável
em
continuador
crítico
e coroamento da
tradição
literária
local;em
anotador e
anatomista
exímio
de
feições
singulares
de
seu
mundo,
ao
qual
se dizia
que
não
prestava
atenção;
e
em
idealizador de
formas
sob
medida,capazes
de
dar
figura
inteligente
aos
descompassos
históricos
da
sociedade
brasileira.
Recentemente,
por
ocasião
de
novas
traduções
das
Memórias
póstumas e
do
Dom
Casmurro,a
New York
Review of Books
publicou uma
resenha
abrangente e consagradora do
romance
machadiano,
assinada
por
Michael Wood.11 Note-se
que
o
autor
não
é
especialista
em
Machado,
nem
brasilianista,
mas
um
crítico
e comparatista às
voltas
com
a
latitude
do
presente.
O
lugar
da publicação e o
rol
dos
autores
sobre
os
quais
o
crítico
tem
escrito
— Beckett, Conrad, Stendhal, Calvino, Barthes, García Márquez — parecem
indicar
que
depois
de
cem
anos
o
romancista
brasileiro
entrou
para
o cânon da
literatura
viva.
Aliás,
Machado
nos
Estados
Unidos
começa
a
ser
ensinado
também
fora
dos
departamentos
de
literatura
brasileira,na
área
de
literatura
comparada,em
cursos
sobre
os
clássicos
do
romance
moderno.
A
certa
altura
de
seu
ensaio,
que
leva
em
conta
a
crítica
brasileira,
Wood propõe uma
dissociação
sutil.As
relações
com
a
vida
local
podem
existir,
tais
como
apontadas,
sem
entretanto
esclarecer
a “maestria
e modernidade” do
escritor.Ou,
noutro
passo:
seria
preciso
interessar-se
pela
realidade
brasileira
para
apreciar
a
qualidade
da
ficção
machadiana?
Ou
ainda,a
peculiaridade
de uma
relação
de
classe,mesmo
que
fascinante
para
o historiador,não
será “um
tópico
demasiado
monótono
para
dar
conta
de uma
obra-prima?”
E,
finalmente,
faltaria
saber
“por
que
os
romances
são
mais
do
que
documentos
históricos”.
Não
há
resposta
fácil
para
essas
questões,
que
não
recusam as
ligações
entre
literatura
e
contexto,
mas
situam a
qualidade
num
plano
à
parte.
As
perguntas
têm a
realidade
a
seu
favor,
pois
é
fato
que
a
reputação
internacional
de
Machado
se formou
sem
apoio
na
reflexão
histórica.
Tomando recuo, digamos
que
elas,as
perguntas,resumem
a
seu
modo
a
situação
atual
do
debate,
em
que
se perfilaram uma
leitura
nacional
e
outra
internacional
(ou
várias não-nacionais),
muito
diversas
entre
si.
A
divergência
tem
base
em
linhas
de
força
da
cena
intelectual
contemporânea
e
não
há
por
que
esquivá-la.Para
prevenir
o primarismo,que
sempre
ronda
essas
diferenças,
não
custa
lembrar
que
várias
contribuições
para
a
linha
nacional
vieram de
estrangeiros,
e
que
boa
parte
da
crítica
brasileira
acompanhou a
pauta
dos
centros
internacionais.
Contudo,
se a
cor
do
passaporte
e o
local
de
residência
dos
críticos
não
são
determinantes,é
certo
que
as
matrizes
de
reflexão
a
que
a
divergência
se prende têm
realidade
no
mapa
e
dimensão
política,além
de competirem
entre
si,
como
partes
do
sistema
literário
mundial.12
Uma das
matrizes
é a
luta
inconclusa
—
agora
em
xeque
—
pela
formação
de uma
nacionalidade
moderna,quer
dizer,integrada
sob
o
signo
dos
direitos
civis.Do
ângulo
da
história,seria
a
dialética
entre
a
nação
e o
seu
fundo
de segregações coloniais, processada no
campo
de
forças
regido
pelos
países
adiantados e
pelo
Imperialismo.No
ponto
de
partida
está o
enigma
estético-social representado
pelo
surgimento
de uma
obra
de
primeira
linha
em
meio
ao
despreparo,à
falta
de
meios
e ao
anacronismo
gerais.Como
é
possível
que
nessas
condições
de inferioridade se tenha produzido
algo
de equiparável às
grandes
obras
dos
países
do
centro?
Trata-se de
um
acontecimento
que
sugere,por
analogia,que
a
passagem
da
irrelevância
à
relevância,da
sociedade
anômala à
sociedade
conforme,da
condição
de
periferia
à
condição
de
centro
não
só
é
possível,
como
por
momentos
de
fato
ocorre.Assim,a
obra
bem
sucedida vai
ser
interrogada
sob
o
signo
da
luta
contra
o
subdesenvolvimento.
A
reflexão
busca
identificar
nela os
pontos
de
liga
entre
a
invenção
artística,
as
tendências
internacionais
dominantes
e as
constelações
sociais
e culturais do
atraso,
com
as
sinergias
correspondentes.Estas
últimas
são
a
prova
viva
de possibilidades
reais,
devidas a
conjunções
únicas —
algo
de
agudo
interesse,
cuja
análise
promete
conhecimentos
novos,autoconsciência
intensificada,
além
de
graus
de
liberdade
imprevistos
em
relação
aos
determinismos
correntes.
Entretecidas
com
o
desejo
coletivo
de
alavancar
um
salto
histórico,
as
observações
estéticas
adquirem
conotação
peculiar.
Combinadas a
observações
e
categorias
econômicas e
políticas,
bem
como
a
aspirações
práticas,
elas
fazem
figura
de
recomendação
oblíqua
ao
país.
Tomam a
contramão
da
teoria
da
arte
nos
países
centrais,
a
qual
vê
nos
aspectos
referenciais
ou
nacionais
da
literatura
uma
velharia
e
um
erro.
Dito
isso,
é
claro
que
a
integridade
própria
à
grande
obra
é
sempre
um
enigma
que
cabe à
crítica
elucidar,
seja
onde
for. No
quadro
de uma
sociedade
inferiorizada,
entretanto,
a
explicação
adquire
relevância
nacional,
como
parte
de
um
discurso
crítico
sui generis.Trata-se
de
um
programa
tácito,
bastante
difundido,
meio
impensado,
raramente
cumprido na
íntegra,
cujo
significado
esclarecido,
veleitário
ou
desdiferenciador está
em
aberto.
Assim
por
exemplo
lugares-comuns da
história
da
arte
mudam de
conotação.A
dialética
entre
acumulações
artísticas localizadas e
viravolta
com
potência
estrutural,entre
empréstimo
estrangeiro
e
eclosão
da
originalidade
nativa,
entre
vanguardismo
artístico
e
incorporação
de
realidades
sociais
relegadas,
entre
acentuação de ten- dências,explosão
das
coordenadas
e
elevação
do
patamar,assim
como
a
criação
genial
de
nexos
e
saídas
onde
só
parecia
existir
descontinuidade
cultural e
descalabro
na
relação
de
classes,
tudo
isso
compõe
um
desenho
imprevisto,que
foge aos
esquemas
do
evolucionismo
e do
progresso
lineares.13
Com
risco
evidente
de
regressão,
o
anseio
retardatário
de
integração
nacional
ajudaria o
país
a se
revolucionar,ou
a se
reformar,ou
a
vencer
a
distância
que
o separa dos países-modelo,ou
a se
refundar
culturalmente (e
em
todo
caso,se
tudo
falhasse,permitiria
refletir
a
respeito).
Sejam
quais
forem os
resultados
para
o
futuro,
a
discussão
dessas
defasagens
históricas e dessas
soluções
artísticas,próprias a
nossa
integração
social
precária,
responde à
ordem
presente
do
mundo,
de
cujo
“desenvolvimento
desigual
e combinado”
fixa
aspectos
substantivos.
Na
outra
matriz,com
sede
nos
países
do
centro,uma
guarda
avançada
de
leitores
— os
intermediários
poliglotas
e
peritos
a
que
se refere
Casanova
— empenha-se na
identificação
de obras-primas remotas e avulsas,
em
seguida
incorporadas ao
repertório
dos
clássicos
internacionais.
14 É nesse
espírito
cosmopolita
que
Susan Sontag conclui a
sua
apresentação
das
Memórias
Póstumas,
desejando aos
leitores
que
o
livro
de
um
longínquo
romancista
latino-americano
os torne
menos
provincianos.
Como
parte
dessa
segunda
matriz,o
trabalho
acadêmico
dos
países
do
centro
coloca-se
ele
também
as
tarefas
de
reconhecimento
e
apropriação.
As
teorias
literárias
com
vigência
nas
principais
universidades
do
mundo,
hoje
sobredeterminadas pelas americanas, buscam
estender
o
seu
campo
de
aplicação,
como
se fossem
firmas.
O
interesse
intelectual
não
desaparece,
mas
combina-se ao
estabelecimento
de
franquias.
Nessa
perspectiva,uma
obra
de
terras
distantes,
como
a de
Machado
de Assis, na
qual
se possam
estudar
com
proveito
— suponhamos — os procedimentos
retóricos
do narrador, as
ambigüidades
em
que
se especializam os desconstrucionistas, a
salada
estilística
do pós-modernismo etc.,estará consagrada
como
universal
e
moderna.A
natureza
sumária
desse
selo
de
qualidade,que
corta o
afluxo
das
conotações
históricas,
ou
seja,das
energias
do
contexto,salta
aos
olhos.É
claro
que
não
se
trata
de
desconhecer
o
bom
trabalho
feito
no
interior
de
cada
uma dessas
linhas
críticas,
que
só
pode
ser
discutido
caso
a
caso,
mas
de
assinalar
o
efeito
automático
e conformista das
assimetrias
internacionais
de
poder.
Por
outro
lado,
a
cesta
de
teorias
literárias
em
voga
nas
pós-graduações
dos
Estados
Unidos é
heterogênea
por
sua
vez,
originária
em
boa
parte
de
lugares
tão
pouco
americanos
quanto
a
União
Soviética,
Paris
ou
Nova
Déli, e neste
sentido
não
parece uniformizadora.
Contudo,
o caldeamento no
mercado
acadêmico
“local”,
este
último
uma
novidade
histórica,distancia
as
teorias
de
suas
motivações de
origem.O
mecanismo
lhes
sobreimprime uma
involuntária
feição
comum,
mediante
a
qual
passam a
exercer
as
suas
funções
de
hegemonia,se
possível
em
escala
planetária,
e
dentro
de
muito
desconjuntamento. Os
lados
incongruentes
dessa neo-universalidade
talvez
sejam
mais
visíveis
para
críticos
periféricos,ao
menos
enquanto
não
a tratam de
adotar.
Assim,
a
consagração
atual
de
Machado
de Assis é sustentada por explicações opostas.Para
uns, a
sua
arte
soube
recolher
e desprovincianizar uma
experiência
histórica
mais
ou
menos
recalcada,
até
então ausente do
mapa
do
espírito.
A experimentação
literária
no
caso
arquitetaria
soluções
para
as
paralisias
de uma ex-colônia
em
processo
de formação nacional.A
qualidade
do
resultado
se deveria ao
teor
substantivo das
dificuldades
transpostas,que
são
de várias
ordens,não
só
artísticas.
Para
outros,a
singularidade e a
força
inovadora
não
se alimentam da vida extra-literária,
muito
menos
de uma
história
nacional
remota
e
atípica.
Observam
que
não
foi
necessário
conhecer
ou
lembrar
o Brasil
para
reconhecer a
qualidade
superior
de
Machado,
nem
para
apontar
a
sua
afinidade com
figuras
centrais
da
literatura
antiga
e
moderna,ou
com
as teorias em
evidência
no
momento,ou,sobretudo,com
o
próprio
espírito
do
tempo.
A
idéia
aqui,
salvo
engano,
é de
diferenciação
intra-literária, ou seja,
endógena,
no
âmbito
das obras-primas:
Machado
é
um
Sterne que não é
um
Sterne,
um
moralista
francês
que
não
é
um
moralista
francês,
uma
variante
de Shakespeare,
um
modernizador tardo-oitocentista e
engenhoso
do
romance
clássico,
anterior
ao
Realismo,
além
de
ser
um prato
para
as
teorias
do
ponto
de
vista,
embora
muito
diferente
de seu contemporâneo Henry James.Em
suma,um
escritor
plantado na tradição do
Ocidente,e
não
em
seu
país.A
figura
não
é
impossível
— embora a
exclusiva
seja
tosca
— e cabe à
crítica
decidir.Não
custa
notar
entretanto a
semelhança
com
o
clássico
anódino
de
que
falávamos
páginas
atrás,
cujas
superioridades
cosmopolitas,ou
dessoradas,a
crítica
com
referência nacional tentou
contestar.
A
oposição
se presta à
querela
de
escolas
e convida a
tomar
partido.
Mas
ela
assinala
também
o
movimento
do
mundo
contemporâneo,
uma
guerra
por
espaço,
movida
por
processos
rivais,
que
não
se
esgota
em
disputas
de
método.
As
relações
entre
os
adversários,
cada qual desqualificando o
outro,embora
apresentando
também
algo
que lhe faz
falta,
não
são
simples.
Para
dar
uma
idéia,
note-se
que
dificilmente
um
adepto
do
Machado
“brasileiro”
reclamará da
nova
reputação internacional do
romancista,
por
mais
que
discorde
de
seus
termos.
Com
efeito,
que
machadiano
não
se sente enaltecido
com
o
reconhecimento
enfim
alcançado
pelo
compatriota
genial?
A nota algo
ridícula
da
pergunta
faz
eco
ao
amor-próprio
insatisfeito dos
brasileiros,
que
em
princípio
não
teria
cabimento
num
debate
literário que se preze,
para
o
qual
essa
ordem
de
melindres
é
letra
vencida.Mas o
ridículo
no
caso
é o de
menos,
pois
nada
mais
legítimo
que
a vaidade de
ver
refletidos os
expoentes
nacionais
naquelas
teorias
novas
em folha,
que
são
depositárias da
conversação
crítica
internacional
e, mal ou
bem,do
presente
do
mundo
— de
que
é
preciso
participar,mesmo
que ao
preço
de
algum
auto-esquecimento. Adotando a
pergunta
do
campo
oposto,
por
que
diabo
enterrar
um
autor
sabidamente
universal no particularismo de uma
história
nacional
que
não
interessa a
ninguém
e
não
tem
interlocutores?
Nessa
linha,o
sucesso
internacional
viria de
mãos
dadas
com
o desaparecimento da
particularidade
histórica,
e a
ênfase
na particularidade histórica seria
um
desserviço
prestado à universalidade do
autor.O
artista
entra
para
o cânon,
mas
não
o
seu
país,
que
continua no
limbo,
e a
insistência
no
país
não
contribui
para
alçar
o
artista
ao cânon.Pareceria
que
a supressão da
história
abre as
portas
da
atualidade,ou
da universalidade,
ou
da
consagração,
que
permanecem fechadas aos
esforços
da
consciência
histórica,
enfurnada numa
rua
sem
saída
para
a
latitude
do
presente.Veremos
que
a
disjuntiva
está
mal
posta
e
que
não
há
por
que lhe
dar
a
última
palavra.Mas
é
certo
que
no
estado
atual
do
debate
ela
carrega alguma
verdade,pois
a
falta
de
articulação
interna,de
trânsito
intelectual entre
história
nacional
e
história
contemporânea
é
um
fato,com
conseqüências
políticas
tanto
quanto
estéticas.
Quanto
aos trabalhos artísticos de
primeira
linha
produzidos
em
ex-colônias,a
tese
da inutilidade crítica das
circunstâncias
e da
particularidade
nacional
talvez
não saiba o
bastante
de
si.Falta-lhe
a
consciência
de
seus
efeitos,
que
são
de marginalização cultural-política
em
âmbito
mundial.
Ou
ainda,
desconhece a
construção
em
muitas
frentes,
coletiva
e cumulativa,
em
parte inconsciente,sem
a
qual
não
se constelam a
integridade
estética
e a relevância histórica, as
quais
pretende
saudar.Seja
como
for, a neo-universalidade das
teorias
literárias
poderia
também
ser
bem-vinda
a seu adversário,que
ao criticá-la sairia do cercadinho
pátrio
e colocaria
um
pé no
tempo
presente,
ou
melhor,
num
simulacro
dele. O reconhecimento internacional de
um
escritor
muda
a
situação
da
crítica
nacional,
que nem
sempre
se dá
conta
do ocorrido.
Helen Caldwell
começa
The
Brazilian Othello of
Machado
de Assis —
o
primeiro
livro
americano
sobre
o
romancista
—
com
uma afirmação
sonora.
O
escritor
seria
um
diamante
supremo,um
Kohinoor brasileiro que cabe ao
mundo
invejar.Logo
adiante,Dom
Casmurro
é
considerado “talvez
o
melhor
romance
das Américas”.
Não
é
pouca
coisa,
ainda mais se lembrarmos
que
eram os
anos
da revalorização de Hawthorne e Melville,e
sobretudo
da
imensa
voga
crítica
de Henry James.
Dito
isso,
prossegue Caldwell,é
possível
que
“só
nós
de
língua
inglesa” estejamos
em
condições
de
apreciar
devidamente
o
grande
brasileiro,
“que
constantemente usava o
nosso
Shakespeare
como
modelo”.Assim,ao
reconhecimento e à
cortesia
segue-se a
surpreendente
reivindicação
de
competência
exclusiva,
ainda
que
envolta
em
humorismo
(“com
perdão da
megalomania”).15
Mas
é
fato
que
a
intimidade
com
Shakespeare permitiu a Caldwell
virar
do
avesso
a
leitura
corrente
de
Dom
Casmurro,
tributária
até
então dos pressupostos
masculinos
da
sociedade
patriarcal
brasileira.
Mais imersa
nos
clássicos
da
tragédia
que
na idealização de
si
de nossas famílias abastadas,a
crítica
americana
— professora de
literatura
grega
e latina — estava
em
boa
posição
para
notar
algumas das segundas intenções de
Machado.
A uma shakespeariana
não
podiam
passar
despercebidas a
confusão
mental
e a
prepotência
de
Bento
Santiago,o
amável
e melancó- lico marido-narrador do
romance.
A
lição
barbaramente equivocada que ele, o
Casmurro,
tira
do
desastre
de Otelo
era
a
indicação
segura,
entre muitas outras,de
que
seria
preciso
desconfiar
de
suas
suposições
sobre
a
infidelidade
da
mulher.
Veja-se a
respeito
o
capítulo
decisivo
em
que Bento,agoniado
pelo
ciúme,vai
espairecer
no
teatro,onde
por
coincidência assiste à
tragédia
do
mouro.
Em
vez
de
lhe
ensinar
que
os
ciúmes
são maus
conselheiros,
esta o confirma na
sua
fúria
e
lhe
dá a
justificação
do precedente
ilustre:
se
por
um
lenço
Otelo estrangulou Desdêmona, que era
inocente,
o
que
não
deveria
ter
feito
o narrador à
sua
adorada Capitu,
que
com
certeza
tinha
culpa?16
O
curto-circuito
mental,
quase
uma gag,
não
deixa
dúvida
quanto
à
intenção
maliciosa
de
Machado,
que
escolhia a
dedo
os
lapsos
e
contra-sensos
obscurantistas
que
derrubariam — se
não
fossem
passados
por
alto
— o
crédito
de
seu
narrador
suspeitoso,
transformando-o
em
figura
ficcional propriamente
dita,
que
contracena
com
as
demais
e é
tão
questionável
quanto
elas.
À
maneira
do estranhamento brechtiano,
são
pistas
para
que
o
leitor
se emancipe da
tutela
narrativa,
reforçada
pela
teia
dos
costumes
e dos
preconceitos
sancionados. Se a
campainha
artística
for
ouvida,
ele
passa
a
ler
com
independência,
quer
dizer,
por
conta
própria
e a
contrapelo,
mobilizando
todo
o espírito crítico de
que
possa
dispor,
como
cabe a
um
indivíduo
moderno.
A confiança singela e
aliás
injustificável
que
até
segunda
ordem
os narradores costumam
merecer
fica desautorizada. A
inversão
de
perspectivas
não podia
ser
mais
completa:
o
problema
não
estava na
infidelidade
feminina,
como
queria o protagonista-narrador,mas
na
prerrogativa
patriarcal,
que
tem o
comando
da
narração
e está
com
a
palavra,
que
não
é fiável nem neutra.Graças
a
esse
dispositivo
formal,que
desqualifica o
pacto
narrativo, a
disposição
questionante engolfa
tudo,
da
precedência
dita
normal dos
maridos
sobre
as
mulheres
— o
foco
da
polêmica
de Caldwell — ao
crédito
devido
a
um
narrador bem-falante, à
virtude
patriótica
do encantamento romanesco, à respeitabilidade das
elites
ilustradas brasileiras. De
padrão
nacional
de memorialismo
elegante
e
passadista,o
livro
passa a
experimento
de
ponta
e
obra-prima
implacável.
A
descoberta
crítica
no
caso
eleva
muito
a
voltagem
intelectual
do
romance.Já
notamos o
que
ela
deveu à
familiaridade
com
os
clássicos,ou
melhor,à
estranheza
causada
por
um
desvio
clamoroso na compreensão de
um
deles,
independente
de
considerações
de
contexto.
Ou
por
outra,
o
seu
contexto
efetivo
foi a
própria
tradição
canônica,
cujas
luzes
serviram de revelador das
hipocrisias
entranhadas na
ordem
social.
Aliás,
a
intimidade
com
esta podia
até
atrapalhar,como
de
fato
atrapalhou a crítica brasileira
durante
sessenta
anos,
entre
a publicação do
romance
em 1899 e o
estudo
de Caldwell
em
1960.Foi
com
justa
satisfação
que
este saiu a
campo
para
corrigir
“três
gerações
de
críticos”,a
quem
as insinuações do ex-marido,hoje
um
viúvo
amalucado
no
papel
de pseudo-autor, convenceram da
culpa
de Eva/Capitu.17 É
claro
que
muitos
brasileiros haviam lido
Otelo
e é
provável
que
tivessem notado
que
o
Casmurro
tira uma
conclusão
aberrante
da
morte
de Desdêmona.Contudo,filiados
ao universo
ideológico do narrador,
não
deram ao “deslize”
a importância necessária
para
questionar
o
fundamento
de
poder
da
situação
narrativa.
Inclinados a
acatar
o
ponto
de
vista
patriarcal
e a veracidade dos
memorialistas,
ou,
também,
despreparados
para
duvidar
da
boa-fé
de
um
narrador de boa
sociedade,dono
de uma
prosa
sem
igual
na literatura brasileira,bem
como
de
apólices,escravos
e
casas
de
aluguel,não
acharam
que
fosse o
caso
de
suspeitar
uma
personagem
tão
bem
recomendada. Ficavam
aquém
da
vertigem
inscrita no
dispositivo
literário machadiano,
que
atrás
dos
traços
de
um
memorialista
fino
e poético,
cidadão
acima
de quaisquer
suspeitas,
fazia
ver,
primeiro,
o
marido
discretamente empenhado na
destruição
e
difamação
de
sua
mulher,
e, em seguida, o
senhor
patriarcal
na
plenitude
de
suas
prerrogativas
incivis.
Cotejado
com
seu
modelo,
o
Casmurro
aparece
como
uma variante original,seja
porque
recombina Otelo e Iago
em
uma
só
pessoa,seja
porque mistura as
condições
de
personagem
e de narrador, tornando incerta uma
distinção
importante.
No
que
respeita
ao
enxadrismo
das situações literárias, a
invenção
machadiana
é
diabólica.
Investido da
credibilidade
que
a
convenção
realista associa à
função
narrativa,Bento
Santiago é
não
obstante
parte
parcialíssima do
drama.
O garante do
equilíbrio
expositivo
não
tem
equilíbrio
ele
próprio:
o memorialista honesto e
saudoso
é
um
marido
desgovernado,
que
trata
de
persuadir
a
si
mesmo
e ao
leitor
de
que
fizera
bem
ao
expulsar
de
casa
e
desterrar
para outro
continente
a
sua
Capitu/Desdêmona.
Aí
estão,
com
raio
de generalidade tão supranacional
quanto
as
instituições
do
casamento
ou
da
narração,
os
estragos
causados
pelo
ciúme,
pela
prerrogativa
masculina
e pela autoridade inquestionada de
quem
detém a
palavra.São
resultados
de
tipo
universal,
obtidos
por
Caldwell no
espaço
como
que
atemporal
e homogêneo das obras-primas do
Ocidente,por
meio
da comparação
abstrata
de
caracteres
ou
situações,
e de
análises
também
elas
universalistas.
Os
paralelos
com
Shakespeare,a
Bíblia
e a
mitologia,as
especulações
sobre o
significado
dos
nomes
próprios
das
personagens
machadianas, no
campo
geral
da
onomástica,o
estudo
da
consistência
funcional
de complexos imagísticos,à
maneira
de Freud e do
New Criticism
shakespeareano, a
revelação
da duplicidade do Otelo narrador,
que
é
um
feito
crítico notável —
nada
disso requereu o
recurso
à
configuração
peculiar
do
país,que
não conta
para
efeitos
de
interpretação.
Isso
posto,
Bentinho
não
é Otelo, Capitu
não
é Desdêmona, José
Dias
e o Pádua
não
são
Iago e Brabantio,
nem
o
Rio
de
Janeiro
oitocentista é a Europa
renascentista.
O
século
XIX e
seu
sistema
de sociedades distintas
entre
si
e no
tempo
entram
pela
outra
porta,
e
mal
ou
bem
a
cegueira
do
universalismo
para
a historicidade do
mundo
fica
patente,
sem
prejuízo
de
eventuais
descobertas
sensacionais.As
diferenças
entre Machado, Shakespeare e
demais
clássicos
importam,
pois
têm desempenho estrutural-histórico,sugerindo
mundos
correlativos e separados,
que
esteticamente seria
regressivo
confundir.
A
presença
ubíqua
da
cor
local não pode
ser
mera
ornamentação,sob
pena
de rebaixamento
artístico.A
própria
desautorização
do narrador
masculino,
tão
esclarecedora, só atinge a
plenitude
de
sua
irradiação
quando
combina os
atropelos
do
ciúme
— uma
paixão
relativamente
extraterritorial
— às particularidades do
patriarcalismo
brasileiro
do
tempo,
vinculado a
escravidão
e
clientelismo,
assim
como
à auto-complacência das
oligarquias,além
de
vexado
pela
sombra
do
progresso
europeu.
Pensando
em
vantagens
comparativas,
ou
no
que
as
leituras
podem
oferecer
ou
invejar
uma à
outra,observe-se
que
a
interpretação
universalista dá
como
favas
contadas a
grandeza
que
a
interpretação
com
base nacional quereria
demonstrar.
Será uma
superioridade?
uma inferioridade? É
claro
que
grandeza
no
caso
tem
dois
significados
que
brigam
entre
si.Semelhanças
e
diferenças
com
Otelo,Romeu
e Julieta,Hamlet,Macbeth
etc.,
além
de
convergências
com
teses
do New
Criticism,
decidem a
questão
da
estatura
artística
pela
simples
indicação
dos
patronos
ilustres,
que
não
deixam de
constituir
um
establishment.
Assim,
o procedimento
que
faz
admitir
Dom
Casmurro
entre
os
seus
pares
no
campo
das
obras
universais
tem
algo
de cooptação,ou
de reconfirmação de protótipos (de
cera?)
no
ultramar.Graças
a
um
sistema
de
menções
cultas,meio escancaradas e
meio
escondidas
—
aliás
escolhidas
por
Machado
com deliberação
meticulosa
—
um
romance
que
não
constava
como
canônico troca de
estante.Por
outro
lado,embora
ponha o
livro
nas
alturas
e o subtraia ao
acanhamento
provinciano,com
ganho
inegável,essa
universalidade
não
satisfaz a
outra
leitura,ainda
que
a possa
ajudar
muito.Para
esta, o
caminho
para
a
qualidade
passa
pelo
aprofundamento
crítico
de uma
experiência
estético-social
precária,em
boa
parte
inglória,até
então mantida à
margem,
cuja
densidade
interna
se
trata
de
consolidar
e cuja relevância se
trata
de
argüir
e,mesmo,construir.Não
há
como
desconhecer o
papel
que
a
tradição
clássica
tem na
obra
de
Machado,
mas
o que interessa
identificar
é o redirecionamento
nada
universal
que,
graças
ao
Autor,a
problemática
particular
do
país
lhe
imprime.A
nota
de
reivindicação,
bem
como
o
esboço
de
um
contra-establishment,
ou
a reconsideração a
nova
luz
do
establishment
anterior,
não
existem na
outra
leitura.
Ainda
nesse
capítulo
da
ajuda
entre
adversários,veja-se
que
o Brazilian
Othello
causou uma
viravolta
memorável
em
nosso
meio,
sem
ser forte
em
seu
próprio
terreno:
conforme
entra pelas
semelhanças
e diferenças de
personagens
machadianas, shakespearianas e outras, postas para
flutuar
na
região
comum
das
obras
universais,onde
tudo
se compara a
tudo,
Caldwell vai se perdendo no inespecífico,
para
não
dizer
arbitrário.
A
verdade
é
que
o
melhor
de
sua
intervenção
— o
tino
para
a máfé do pseudo-autor —
não
frutifica no
âmbito
comparatista,e
sim
no da
reflexão
nacional.
Esta
última,
demasiado
bloqueada
para
enxergar
o
artifício
machadiano,
fizera
um
papelão.
Por
isso
mesmo,
entretanto,
uma
vez
esclarecida
a
respeito,
era
ela
quem
tinha
mais
elementos
para lhe
apreciar
o
gume
e
explicitar
o
alcance,
seja
artístico,
seja de
crítica
de
costumes,
seja
político.
Em
suma,
o
resultado
substancioso do
livro
foi a inviabilização da
leitura
conservadora de
um
clássico
nacional,
até então assegurada
por
uma
aliança
tenaz
de
convencionalismo
estético
e
preconceitos
de
sexo
e
classe.
A
solidez
social
dessa
liga
conferiu aos
novos
argumentos
um
valor
de
contestação
inesperado,
que
escapa
à
imaginação
das
teorias
literárias
universalistas.Invertendo
a
blague
inicial da Autora,
segundo
a
qual
só
anglófonos e shakespearianos teriam
condições
de
apreciar
Machado
de Assis, digamos
que
foi no ambiente saturado de
injustiças
nacionais
e de
história
que
o
achado
universalista adquiriu a
densidade
e o
impulso
emancipatório
indispensáveis
a uma
idéia
forte
de
crítica.
Por
que
supor,mesmo
tacitamente,
que
a
experiência
brasileira tenha
interesse
apenas
local,ao
passo
que
a
língua
inglesa,Shakespeare, o
New Criticism,
a
tradição
ocidental
e tutti
quanti
seriam
universais?
Se a
pergunta
se
destina
a
encobrir
os
nossos
déficits de ex-colônia,
não
vale a
pena
comentá-la.Se o
propósito
é
duvidar
da universalidade do
universal,
ou
do localismo do
local,
ela
é
um
bom
ponto
de
partida.
A questão tem
importância
para
a
arte
de
Machado,que
a dramatizou numa crônica das
mais
engenhosas,chamada
“O
punhal
de Martinha”.18Trata-se da
apresentação,
em
prosa
clássica
pastichada, dos
destinos
paralelos
de
dois
punhais.
Um
lendário
e
ilustre,
que
serviu ao
suicídio
de Lucrecia, ultrajada
por
Sexto
Tarquínio.
Outro
comum
e
brasileiro,
mas
destinado à “ferrugem
da
obscuridade”,
que
permitiu a Martinha vingar-se das
importunações
de
um
certo
João
Limeira.
A
moça,
diante
da insistência deste, previne: “Não
se aproxime,
que
eu
lhe
furo”.Como
ele
se aproxima, “ela
deu-lhe uma punhalada,
que
o matou instantaneamente”. A
notícia,
pescada
num
jornal
da
Cachoeira,
do
interior
da Bahia, é posta lado a
lado
com
o
capítulo
célebre
da
História
Romana
de Tito
Lívio. Desenvolvendo os
contrastes,
o cronista concede
que
a
gazeta
baiana não pode
competir
com
o historiador
insigne;que
Martinha ao
que
tudo indica
não
é
um
modelo
de
virtude
conjugal
romana,
antes
pelo
contrário;
e
que
João
Limeira
não
tem
sangue
régio
nas
veias.As
comparações, todas desabonadoras,
são
feitas
do
ângulo
do
literato
ultra-afetado do
Rio
de
Janeiro,que
diverte os
leitores
à
custa
de uma
cidade
modesta,que a
ninguém
ocorreria
comparar
ao
padrão
da Antigüidade.
Dito
isso,
Machado
inverte a
ironia
—
sem
o
que
não
seria
quem
é — e observa que a cachoeirense
não
fica a
dever
à
romana
em
bravura:
Martinha vinga-se
com
as próprias
mãos
onde
a
outra
confia a
vingança
ao
marido
e ao
pai,
sem
contar
que
pune uma
simples
intenção,
e
não
o
ultraje
consumado.
Entre
parênteses,
vindo de
um
retificador
de
injustiças,
a
nota
cafajeste da
segunda
distinção,
destinada a
pôr
defeito
na
honestidade
de Lucrecia, abre uma
perspectiva
infinita…
Seja
como
for,
por
um
momento
é Lucrecia
quem
se deve
mirar
no
exemplo
de Martinha, e
não
vice-versa,
uma
viravolta
de
alcance
quase
inconcebível.É
claro
que
essas
superioridades |