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Paulo Eduardo Arantes
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Alarme
de
incêndio
no
gueto
francês
Uma
introdução
à
Era
da
Emergência
Paulo
Eduardo Arantes
Ninguém
se deu
conta
de
que
isso
podia
acontecer
, declarou
um
perplexo
ministro
francês
da
Coesão
Social
(sic),
diante
do
outono
de
motins
do
ano
passado
(2005). Pode
ser.
Há
muito
tempo
não
se
via
uma
camada
dirigente
tão
pateticamente divorciada do
conjunto
da
sociedade
como
a
atual
casta
política
francesa,
sem
tirar
nem
por,
um
caso
de
alienação
social
clinicamente
puro.
Quanto
à
elite
econômica
propriamente
dita,
faz
tempo
que
também
emigrou
para
o
mundo
offshore dos
milionários
nômades1.
Até
aí
nada
demais.
Não
é de
hoje
que
a
apropriação
do
excedente
se dá
preferencialmente
arbitrando a
concorrência
entre
as várias
jurisdições
nacionais,
não
fosse o
obsceno
contraste
de
fachada
com
a
onda
do
momento,
o
patriotismo
econômico
alardeado
pelos
governos
à
cata
de
um
campeão
nacional
para
esfregar
nos
olhos
do
distinto
público
complexado
pela
pregação
sob
medida
dos declinólogos
colunistas
especializados
em
demonstrar
que
a França continuará caindo
enquanto
providências
drásticas
não
forem
tomadas,
não
sendo
difícil
adivinhar
quais,
tal
a
monotonia
da
receita
para
combater
o
crescimento
anêmico
e o desemprego de
massa,
anomalia
francesa num
mundo
em
que
a
criação
de
riqueza
e de
emprego
explode ...2
Com
efeito,
desde
que
se acrescentasse
que
as
multinacionais
francesas continuam batendo
recordes
mundiais na
distribuição
de
dividendos
para
seus
acionistas.
Algum
pressentimento desse
estado
de
coisa
não
se pode
negar
aos sauvageons dos
subúrbios,
de
resto
tão
distantes
dos
centros
irradiadores da
afluência
que
se chegou a
falar
em
quartiers d exil3
não
querendo
insinuar
com
isso
que
tenha sido
esse
o
foco
exclusivo
dos
incêndios
nas banlieues sublevadas,
sem
poder
deixar
de
lembrar
no
entanto
que
o
famigerado
CPE (Contrato
Primeiro
Emprego),
na
origem
dos
protestos
de
março
de 2006, foi concebido,
ou
melhor
tramado,
para
atender
com
um
suplemento
de precarização
legal
os
deserdados
das
periferias
sinistradas: deu no
que
deu, erraram o
alvo
acertando num
outro
enclave
do
gueto
francês4,
os
estudantes
universitários,
já
banidos
das
Grandes
Escolas
(outro
arquipélago
de
bunkers
hereditários),
que
se reconheceram
com
todas as
letras
na
falsa
equação
acima
(estagnamos e
não
empregamos
por
excesso
de
proteção
social),
cifra
condenatória do
destino
de uma
geração
da
força
de
trabalho
atrelada ao
baixo
custo
da
precariedade
perpétua.5
Recapitulando. Votada
sem
consulta aos interessados
depois
dos
levantes
de
novembro
de 2005, a
nova
lei
converteu os
jovens
desempregados dos
conjuntos
habitacionais
( cités , na
terminologia
urbanitária francesa) no
elo
mais
fraco
de
um
novo
ataque
ao
que
ainda
resta
de
proteções
salariais.
Não
foi a
primeira
investida
nem
será a
última.
Em
1993-1994,
ainda
sob
a
presidência
Mitterrand,
um
dispositivo
legal
instituía
um
salário
mínimo
rebaixado
em
20%
para
jovens
titulares
de
diplomas
ainda
mais
desvalorizados
pelo
mandarinato
educacional
do
país.
Um
milhão
de
manifestantes,
numa
jornada
envolvendo 130
cidades,
arrastou
consigo
uma
camada
até
então
invisível
da
juventude
francesa, os
alunos
do
superior
curto
secções
técnicas,
institutos
universitários
de
tecnologia
etc aos
quais
se juntaram a
futura
ralé
das
periferias,
os sem-diploma
ou,
o
que
dá no
mesmo,
os
portadores
dos CAPs e BEPs da
vida.
Por
um
momento,
de
manifestação
em
manifestação,
a
fronteira
entre
essas duas
nações
pareceu se
apagar,
aproximando os relegados da
galera
suburbana
dos
que
acabavam de se
reconhecer
sob
a
ameaça
de uma proletarização
máxima.
Ontem
como
hoje,
desnecessário
recordar
que
brilhavam
pela
ausência
os verdadeiros
estudantes,
os
alunos
das
classes
preparatórias, a
nova
classe
média
das facs e as
dinastias
das
Grandes
Écoles.
Em
março
deste
ano,
todavia,
o
fosso
se reapresentou de
modo
ainda
mais
dramático:
de
um
lado,
os
bons
manifestantes
, de
outro,
sem
surpresa,
os mauvais casseurs ,
sobre
o
fundo
da segregação
espacial
entre
os
bairros
freqüentáveis (mas
não
é
claro
pelos
naturais
dos beaux quartiers ) e as
zonas
de não-direito,
nas
quais
só
a
polícia
entra6.
Pois
entre
a
temporada
arrasa-quarteirão de
fogueiras
e a
revolta
vitoriosa
contra
o
emprego
a
preço
vil
e demissão
idem
(nem
mesmo
o
luxo
barato
de duas
palavras
de
explicação,
legitimando
assim
o
arbítrio
patronal,
na
mesma
medida
em
que
incita à docilidade os
jovens
assalariados
gratos
pelo
sursis
concedido), deu-se
um
episódio
farsesco do mencionado
patriotismo
econômico,
que
interessa
relatar
por
ilustrar
mas
não
só
por
isso
o referido encasulamento da
oligarquia
francesa num
outro
gueto
este
sim
estratégico
onde
opera o
novo
capitalismo
de
redes
ocultas, negocismo e
manobras
políticas.
Trata-se do
veto
governamental
ao
grupo
italiano Enel,
prestes
a
lançar
um
raid de
aquisição
hostil
ao
conglomerado
franco-belga Suez,
expedição
ofensiva
estimulada
aliás
por
um
alto
executivo
francês
freqüentador
do
palácio
presidencial,
como
de
resto
os
demais
comparsas
do
negócio
abortado na
penúltima
hora
por
motivo
de
brios
nacionais
feridos: Suez seria absorvido
mas
pela
Gaz de France,
cujo
controle
estatal
(70%) continuava assegurado
por
lei
aprovada
dois
anos
antes;
na
prática,
uma privatização
branca
além
de predadora da GDF, integrada
por
este
atalho
numa
galáxia
acionária controlada
por
Suez
que
a ultrapassa
em
proporções
tais
que
a participação do
governo
cairia
para
menos
de 40%,
não
obstante
a
cláusula
pétrea
da
lei
promulgada
pelo
chiraquismo,
regime
que
se caracteriza
por
descumprir
ato
contínuo
leis
por
ele
mesmo
editadas, nas
palavras
do
articulista
que
batizou o
fenômeno
de
capitalismo
de
conivência
exposta
inclusive
na
desenvoltura
desses
senhores
ayant tous leurs entrées au château 7.
Não
se
trata
por
certo
de uma
invenção
francesa,
mas
de uma
variante
local
de
capitalismo
de
compadres
crony
capitalism
para
o
qual
vem resvalando o
mundo
americano
dos
negócios,
do Texas ao Iraque,
fortemente
impulsionado
pelo
estilo
dinástico de
acumulação
patrocinado
pela
família
Bush e
adjacências8.
O
autor
da
matéria
da Economist
sobre
a
crise
francesa de
março,
para
melhor
carregar
na
dose
dos
sarcasmos
previsíveis,
convenientemente
deixou na
sombra
a
matriz
anglo-americana do
comportamento
autista
dos
governantes
franceses, do
qual
aliás
padece
em
escala
grotesca
o
sistema
vigente do
outro
lado
do
Canal
é
bom
não
esquecer
que
o
absurdo
arranjo
constitucional
britânico
garantiu uma
convincente
maioria
a Tony Blair nas
eleições
de 2005
com
apenas
21,8% dos
votos:
na
opinião
de
Tom
Nairn, o
Reino
Unido deixou de
ser
uma
democracia
em
qualquer
acepção
aceitável
do
termo,
convertendo-se
afinal
em
uma
autocracia
by ill-concealed stealth 9.
Completando o
panorama
do conflagrado
separatismo
social
francês,
seria
preciso
salientar
a
dimensão
por
assim
dizer
popular
do
capitalismo
francês
de
conivência.
Mal
anunciada a
venda
de
ações
da
não
menos
estatal
EDF (Eletricité de France), 5
milhões
de franceses se precipitaram
sobre
a
chance
de alcançarem
igualmente
o
status
de shareholders,
quer
dizer,
abocanhar
um
naco
do
real
poder
capitalista
hoje:
as
cifras
de
fato
impressionantes
(7
bilhões
de
euros)
foram anunciadas
com
pompa
e
circunstância
no
dia
18 de
novembro
do
ano
passado,
exatos
10
dias
depois
de decretado o
Estado
de
Urgência,
na
gradação
francesa da
legislação
de
exceção,
para
lidar
com
a
insurreição
selvagem
dos
incendiários
suburbanos.
Não
me
parece
trivial
observar
que
os
dois
presumidos
jovens
contraventores
de Clichy-sous-Bois perseguidos
pela
polícia
tenham encontrado a
morte
acidental
eletrocutados
justamente
numa
subestação
da resgatada EDF, provocando
assim
o
curto
circuito
entre
os
vários
fios
desemcapados do
gueto
francês10.
Nem
um
pouco
trivial
além
do
mais
notar
desde
já
a rotinização da
promíscua
convivência
entre
espasmos
punitivos
alarmistas
e
euforia
compensatória
da
corrida
às
compras
para
ficarmos no
padrão
consagrado nas primeiras
horas
do 11 de
setembro.
Como
se há de
recordar,
despertando a
custo
do
estado
catatônico
em
que
o mergulhou a
primeira
onda
de
choque,
no
mesmo
passo
em
que
anunciava a
situação
de
emergência
suprema
em
que
se encontrava a
nação
estamos
em
guerra
Bush incluía no
pacote
de
medidas
excepcionais
deflagradas
ato
contínuo
uma
não
menos
paradoxal
injunção
à normalidade: go shopping .
Embora
não
se trate obviamente de uma
explosão
de
mesma
escala
não
obstante
a
carga
metafórica
análoga,
sem
excluir
dessa
sobrecarga
de
sentido
algo
como
um
horizonte
pós-colonial assombrando
com
ou
sem
razão
todas as
imaginações
, na França pós-convulsão nas
suas
fronteiras
internas
já
não
foi
mais
preciso
sequer
renovar
o
apelo
à
fibra
comercial
do
patriotismo
econômico,
tal
a cristalização do
novo
padrão
na
emergência
contemporânea.
Segundo
o Wall Street Journal, a
recente
sublevação da
ralé
não
afetou
em
nada
a
indústria
francesa do
turismo:
a
Torre
Eiffel continuou
como
antes
recebendo
seus
10 a 15
mil
visitantes
diários;
Notre Dame
idem;
o
museu
d Orsay chegou ao
desplante
de
aumentar
em
28% a
venda
de
ingressos;
quanto
à
hotelaria,
verificando
que
as
reservas
se mantinham no
mesmo
nível,
desenganou
com
lucro
os
novos
hóspedes
que
acorreram confiando num
desconto
por
motivo
de
risco
social.11
Erraram
de
paradigma.
Os
prêmios
de
risco
são
outros
em
tempos
de
emergência
crônica,
no
entanto
paradoxalmente
rotineira
governa-se
atualmente
a
sociedade
americana
por
um
código
multicolorido de
alertas
abrangendo uma
ampla
gama
de
riscos
, dos meteorológicos aos
humanitários,
passando é
claro
pelo
terrorismo,
oscilando o
registro
deste
último
entre
o
dado
de
natureza
e a
patologia
religiosa.
Sendo
igualmente
um
tempo
de
vazio
político
absoluto
vistas
as
coisas
pelo
prisma
do
vácuo
gravitacional
produzido
pelo
enorme
girar
em
falso
do
Estado
Gerencial,
que
literalmente
aparelhou as
menores
sobras
das finadas
alternativas
políticas,
como
se dizia no
tempo
em
que
elas
pareciam
reais
,
não
deixa
de
ter
a
sua
graça
involuntária
e
sinistra
o
alarmismo
como
regra
de
governo,
até
mesmo
pela
impossibilidade
física
de se
ouvir
um
sinal
de
alarme
nessas
condições
de
silêncio
lunar.
Excluída a
hipótese
de
ouvir
vozes
como
Joana d Arc, o
que
teria
ouvido
Bush
nos
intermináveis
minutos
da
histórica
pasmaceira
com
que
reagiu
ou
melhor,
não
reagiu à
notícia
dos
atentados?
Daí o
compreensível
desconcerto do
ministro
francês,
para
não
falar
do
enredo
de
vaudeville
que
lhe
atribuiu
um
surrealista
ministério
da
Coesão
Social.
Pois
estamos falando de
gestão
:
em
princípio,
como
na
Lógica
para
Wittgenstein, nela,
gestão
,
também
não
há
lugar
para
surpresas.
Não
só
do
infeliz
ministro
mas
de
todo
o
governo
francês.
Na
opinião
de
um
sociólogo
britânico
à
qual
voltaremos , a
resposta
do
regime
de George W. Bush à
inundação
de
Nova
Orleans parece
quase
enérgica
se comparada ao
clima
de
paralisia
e
confusão
que
parece
ter
tomado os
meios
oficiais
franceses 12.
Com
efeito,
foi
preciso
dez
noites
de
motim
nas banlieues
para
que
Jacques Chirac
finalmente
desse o
ar
de
sua
graça,
morna
aliás,
não
fosse o
prenúncio,
na
sonolenta
parolagem republicana de
sempre,
das
medidas
tomadas
dois
dias
depois
na
linha
do
novo
senso
comum
governamental:
toque
de
recolher
e
genéricos
planos
sociais
de
reabilitação
econômica.
Comentando a verdadeira cacofonia
governamental
o
jogo
palaciano
das
rivalidades
eleitorais
sobre
o
fundo
do
crescimento
exponencial das
violências
urbanas , uma
colunista
do Le Monde arriscou uma comparação
mais
do
que
reveladora do
atual
curso
alarmante
do
mundo:
pois
é, vai
ver
que,
tal
como
no
episódio
da
canícula,
os
sinais
de
alarme
visivelmente
também
não
funcionaram 13. Relembro
que
nas
semanas
de julho-agosto de 2003,
um
verão
calamitosamente
quente
para
os
padrões
europeus
castigou
severamente
milhares
de
idosos
franceses falou-se à
época
em
10
mil
mortos.
Acusado de
negligência
criminosa
muito
embora
um
sem
número
de
famílias
veranistas tenha deixado
para
trás
os
seus
idosos
de
risco
, o
governo
de
fato
admitiu
falhas
de
previdência,
em
suma,
não
decifrou
em
tempo
os
alertas
que
por
ventura
seus
serviços
lhe
fizeram
chegar.
No
entanto
é
possível
duvidar
e
voltar
a
indagar:
quem
sabe
não
estamos
mesmo
ingressando numa
idade
em
que
os
sinais
de
alarme
não
se deixam
mais
ouvir,
literalmente
ou
não?
Seja
como
for, os
Estados
raramente
hesitam
quanto
à
máxima
da
razão
governamental
a
seguir,
ao
encontro
inclusive
da
demanda
das
populações
geridas a
golpes
de
alertas
furta-cor,
a
rigor
retrospectivos:
uma
vez
a
porta
arrombada, reforça-se
ainda
mais
o
sistema
de
segurança.
Simples
assim,
esse
o
ponto
cego
securitário
da
ordem
emergencial
contemporânea:
qualquer
policial
antimotim
bem
treinado
sabe
muito
bem
que
o
governo
não
espera
dele
ordem
,
mas
simplesmente
que
organize a
desordem
. No
jargão
gestionário das
novas
tecnologias
de
poder,
espera-se de
qualquer
agente
da
ordem
que
contribua
para
a governança dos
novos
riscos
14. Faz
algum
tempo
que
Georgio Agamben
não
vem dizendo
outra
coisa
está
claro
que
no
registro
de uma
Teoria
Crítica
ainda
por
inventar.
Não
custa
já
ir
adiantando o
expediente:
assim,
depois
de
referir
a
opinião
supracitada
do poliziotto de Berlusconi, sugere o
seguinte
roteiro:
o
ponto
é
que
as
pessoas
não
se dão
conta
do
equívoco
completo
que
circunda o
conceito
de
segurança.
Os
cidadãos
pensam
que
significa
prevenção
da
desordem,
das
catástrofes,
a
vida
mais
organizada e
mais
segura.
Não
é
absolutamente
assim
(...) Analisando as
chamadas
medidas
de
segurança
vê-se
que
não
são
destinadas a
prevenir
os
eventos.
O
importante
é
ter
condições,
no
momento
em
que
algo
ocorre e diríamos
que
algumas
vezes
os
governos
colaboram
para
que
essa alguma
coisa
aconteça , de
tirar
partido
(...) Os
cidadãos
não
se dão
conta
de
viver
em
um
Estado
que
não
faz
nada
para
prevenir
as
catástrofes.
Mas
constrói
um
aparato
para
intervir
quando
a
catástrofe
se produz 15. Seria
preciso
acrescentar
todavia
que
é
precisamente
nesse
momento
pósdesastre
que
o auto-engano dos cidadãos-consumidores-de-segurança alcança o
grau
máximo,
imprescindível
ao
exercício
pleno
do
governo
propriamente
dito,
a
gestão
da
desordem
nos
termos
redefinidos de
agora,
por
isso
raramente
os
governos
se defendem
com
a
ênfase
esperada da
chuva
de
acusações
de
negligência
que
lhe
cai
sobre
os
ombros
cúmplices,
pois
afinal
a
caça
às
bruxas,
de
praxe
nessas
circunstâncias,
reforça
ainda
mais
sua
legitimidade
de
provedor
em
última
instância
de
toda
sorte
de
proteção
menos
a
única
que
interessa, os
sistemas
não
por
acaso
ditos
tradicionais de
proteção
social
num
momento
de demolição
conjunta
da
sociedade
salarial e da
antiga
ordem
assurancielle .
Assim,
para
voltar
à
fornalha
francesa de 2003, e à
suposta
falha
no
sistema
público
de
alarme,
para
o
qual
sabemos
agora
não
fazer
muito
sentido
o
fato
de
ser
ouvido
ou
não,
tanto
os
cidadãos
vitimados e ameaçados
quanto
o
Estado,
estavam no
fundo
de
acordo
que
a precarização
crescente
dos
serviços
de
saúde
não
vinha
sequer
ao
caso,
ao
contrário
da
escandalosa
desproteção
das
populações
diante
dos
rigores
inabituais
de
um
verão
obviamente
muito
mais
quente
do
que
o
outono
social
do
ano
passado
para
todos
os
efeitos
uma
reviravolta
não
menos
autista
do
que
o
atual
comportamento
retardado
da
classe
política
francesa, culminando na
naturalização
de uma
violência
social
acompanhada
pela
politização
securitária
da
chuva
e do
bom
tempo.
Na boa
observação
de Jacques Rancière
acerca
dessa clivagem
fetichista,
graças
à
qual
até
o
calor
de
verão
constitui uma
ameaça
à
qual
ainda
não
se prestara a
devida
atenção,
as
falhas
de informação-proteção
que
os
governos
reconhecem de
bom
grado
produzem
justamente
o
efeito
paradoxal
que
estamos tratando de
identificar,
na
sua
forma
fenomenal
invertida de
um
ministro
atropelado
pelos
fatos
cuja
implosão
deveria
prevenir,
ou
de
governantes
cujo
encasulamento
torna
redundantes
os
sinais
de
advertência
enviados
pelos
acontecimentos:
ao
não
nos
protegerem
bem
os
governos
provam
que
estão
aí
mais
do
que
nunca
para
fazêlo, e
que
devemos
mais
do
que
nunca
nos
abrigar
em
torno
deles (...)
Prevenir
os
perigos
é uma
coisa,
administrar
os
sentimentos
de
insegurança
é
outra,
na
qual
o
Estado
será
sempre
mais
perito
porque
é
esse,
talvez,
o
princípio
mesmo
do
seu
poder
16. Ao
contrário
do
outono
quente
nos
subúrbios
(uma
vítima
fatal
a
lamentar),
a
mortandade
daquele
verão
devastador
apresentou-se
não
obstante
na
figura
já
codificada
pelos
experts
de uma
crise
sem
inimigo
17 :
toque
de
recolher
e outras
medidas
de
exceção
no
primeiro
caso,
apenas
alarme
humanitário
no
segundo,
todavia
um
caso
de
urgência
clássico
de
saúde
pública.
Tivesse
escrito
seu
artigo
dois
anos
mais
tarde,
Rancière teria
sem
dúvida
antevisto a
convergência,
que
na
época
deixou
passar,
entre
o
Estado
Gerencial
movido
pelo
automatismo dos
intermináveis
ajustes
de
mercado
e o
Estado
policial
cimentado
pelo
consenso
ótimo
de uma
sociedade
reagrupada
pelo
medo
em
suma,
a
fusão,
que
não
é de
hoje
na
origem
do
atual
paradigma
de
governo,
o
Estado
de
Exceção
como
quer
Agamben18
nos
termos
do
próprio
Rancière, o recobrimento da
ordem
da
dominação,
que
vem a
ser
a
gestão
infrapolítica dos
interesses
estabelecidos,
pela
desordem
da ultrapolítica, a
guerra,
numa
palavra,
aliás
a
última19.
Resta
para
voltarmos ao
ponto
do
qual
partimos, o
inacreditável
desligamento
das
atuais
castas
dirigentes
mundiais, e
logo
se verá
porque
ajustamos
nosso
foco
pela
variedade
francesa dessas
dinastias
encasteladas numa
intrincada
rede
de
conivências
e
rivalidades
próprias de
um
mundo
cujo
nervo
é o
culto
do entre-soi 20
resta
que
esse
modo
de
gestão
da
vida
coletiva
pelo
sentimento
de
insegurança,
administrado
por
sua
vez
por
uma calibragem da
incerteza
gerada
por
alarmes
reais
ou
imaginários,
porém
aos
quais,
via
de
regra,
se
custa
a
reagir,
se apresenta
mais
uma
vez
paradoxalmente
na
forma
do alheamento
que
se está vendo,
algo
como
uma
estranha
estratégia
evasiva
,
como
a denomina o sociólogo
britânico
Frank Furedi citado
páginas
atrás.
A
seu
ver,
estratégia
própria
de
elites
desconectadas , numa
acepção
aliás
muito
peculiar,
para
além
da
mera
incompetência
no
exercício
do
ofício
de
dominação
e
direção,
relutância
em
enfrentar
responsabilidades
ou
coisa
que
o valha, a
desconexão
em
pauta
se refere
antes
de
tudo
a
elites
que
já
deixaram de
acreditar
na
legitimidade
de
sua
própria
autoridade
e de
seu
próprio
modo
de
vida
, e
como
se essa
sensação
de
deriva
não
bastasse,
não
se
trata
nem
mais
de uma
crise
clássica
de
legitimidade,
nenhuma
onda
contra-hegemônica
vinda
dos
andares
inferiores
do
edifício
social
lhe
contesta a
autoridade,
trata-se de
um
processo
de desintegração
interna
no
topo
da
cadeia
de
comando21.
Difícil
evitar
a
tentação
do
comentário
diante
desse
curioso
modo
de
ver
da
parte
de
um
intelectual
europeu
apanhado
no
redemoinho
do
caos
sistêmico
contemporâneo,
afinal
decepção
com
elites
absenteístas, omissas
ou
desviantes,
raramente
ou
quase
nunca
à
altura
das
tarefas
do
seu
tempo,
é
quase
coisa
de
latino-americano
progressista
amargando capitulações históricas na
periferia
do
sistema,
cujo
ressentimento
só
encontra
paralelo
na
crença
atávica na
capacidade
das
elites
criollas se reencontrarem
um
dia
antes
do
Juízo
Final.
Acrescentando à
sua
posição
idiossincrática
outra
dimensão
inesperada,
pois
se
trata
afinal
de
um
britânico,
e
isso
pesa,
é
preciso
ressaltar
que
o
nosso
autor
se
encontra
inteiramente
na
contramão
da
sabedoria
anglo-saxônica
convencional
acerca
da
esclerose
que
paralisa as
sociedades
européias
continentais,
como
demonstram os
impasses
eleitorais
na Alemanha e na Itália,
ou
a
recente
capitulação do
governo
Chirac
diante
da
grita
dos
movimentos
de
rua
(aliás
um
padrão
desde
a
greve
geral
de 1995-1996) uma
amostra
no Guardian de 14-20/04: a
propósito
do
triste
colapso
nervoso
francês
, se anuncia
que
levas
de
jovens
desempregados franceses cruzam o
Canal
fugindo de
um
país
em
que
2/3 da
população
gostaria de
ser
funcionário
público
etc.
Pois
nosso
autor
insiste
que
a
patologia
das
elites
desconectadas
afeta
gregos
e troianos. O
cinismo
com
que
contribuem
para
a
desmoralização
de
suas
próprias
instituições
é o
sintoma
mórbido
de uma
exaustão
política
generalizada: ao
contrário
dos
seus
antepassados
dos
momentos
decisivos
da
Era
da Nation-Building, as
elites
mundiais
não
têm
mais
pela
frente
o
mais
ligeiro
senso
de
missão
história
a
cumprir
...
quem
diria. A
rigor,
desde
o
fim
da
Guerra
Fria
encontram-se politicamente exauridas
quem
sabe uma
outra
interpretação
para
o
mal
compreendido
mote
triunfalista
do
fim
da
história
. Seja
como
for, o
que
os
acontecimentos
na França demonstram é
que
poder
sem
meta
ou
objetivo
significa
muito
pouco.
E
quanto
mais
essa
impotência
é
exposta,
mais
isso
encoraja as
pessoas
marginalizadas a se expressarem à
sua
maneira
. O
processo
de
exaustão
política
que
se abateu
sobre
a
vida
pública
do
Ocidente
explica
por
fim
a
sua
colonização
pelo
automatismo de
linha
de
montagem
do management-speak :
assim
não
surpreende
que
um
não
menos
apático
eleitorado
tenha rejeitado o
projeto
gerencial
elitista
da
Constituição
Européia.
Não
menos
curiosamente,
tampouco
escapou ao
olhar
idiossincrático do
nosso
autor
a
relação
interna
ou
pelo
menos
o
paralelo
histórico
entre
o
declínio
da
coerência
no
interior
da
elite
francesa e a desintegração
em
curso
do
mundo
do
trabalho,
porque
explica
inclusive
o
caráter
exemplar
do
impasse
francês
no
cenário
europeu22.
Por
certo,
o
elo
mais
forte
da
desconexão
com
o
qual
logo
adiante
nos
confrontaremos.
Por
último,
tampouco
posso
deixar
de
mencionar
uma
derradeira
excentricidade
do
argumento
acerca
do
desengajamento
(na
acepção
peculiar
que
lhe
dá Furedi) das
oligarquias
políticas
européias associadas aos
negócios
do
capitalismo
de
conivência
entre
cupinchas,
para
falar
em
bom
português.
A
exaustão
política
de
que
toda
essa
patologia
é
sintoma
também
pode e deve
ser
entendida
como
exaustão
da
imaginação
política
...
nacional
.
Não
por
acaso
veio
à
baila
linhas
atrás
um
certo
senso
de
missão
história
de
que
carecem pateticamente essas
cliques
e
suas
respectivas
clientelas,
afinal
quem
se limita a
administrar
agendas
não
pode
mais
saber
do
que
se
trata
quando
se
fala
em
purpose o
ponto
cego
do
poder
sem
meta
ou
como
fim
em
si
mesmo.
Em
tempo:
não
estou
nem
de
longe
subscrevendo
qualquer
tese
ou
vindicação assemelhada
acerca
de
elites
nacionais
mais
enfaticamente assertivas,
apenas
reparando,
com
a
devida
surpresa,
o
horizonte
nacional
retrospectivo
que
comanda
o
diagnóstico
da
alienação
recíproca,
das
elites
e do restante das
populações
entregues
à
erosão
das várias precarizações e na
base,
é
claro,
as várias
gerações
de
nacionais
saídos
da
imigração,
como
se diz, e
cujos
acessos
de
violência
insurrecional,
nosso
britânico
excêntrico
atribui aos
mais
corrosivo
desses
desmoronamentos
pós-nacionais, a
ausência
de uma
teia
comum
de
sentido
,
em
função
da
qual
mesmo
pequenas
diferenças
podem se
transformar
em
conflitos
explosivos23.
Pode
parecer
irrelevante
ou
sobretudo
atrasado
face
ao
glamour
cosmopolita,
mas
ninguém
mais,
triviliadades identitárias à
parte,
está conseguindo se
imaginar
francês
ou
britânico
e essa
falência
múltipla
das
comunidades
políticas
imaginadas pode
matar24.
Agora
que
o
famigerado
modelo
social
francês
foi desmoralizado
pela
explosão
dos
guetos,
vai ficando
cada
vez
mais
difícil
estancar
o
efeito
cumulativo dessa
perda
de
sentido
, do
qual
o
mais
saliente
insiste
nosso
autor
é a
desautorização
das
elites,
cujas
disputas
são
tão
desprovidas de
eixo
político
quanto
os
jovens
que
ateiam
fogo
em
carros
e
escolas25.
A essa
altura,
Jacques Rancière
poderia
acrescentar
que
é disso
mesmo
que
se
trata:
agrupadas
sob
a
proteção
do
Estado
gestor do
sentimento
de
insegurança,
as
outrora
comunidades
políticas
imaginadas
são
hoje
cada
vez
mais
comunidades
do
medo
26.
Por
certo
uma
sociedade
nacional
de
segunda
mão,
mas
sobretudo
uma
grande
novidade:
uma
anatomia
do
atual
surto
nacional
americano,
o
único
que
realmente
conta,
como
modelo
e
ameaça,
poderia
quem
sabe
revelar
a célula-tronco de uma
sociedade
nacional
de
última
geração
que
se deveria
reconhecer
como
verdadeira
comunidade
de
emergência.
Assim
sendo, voltemos ao
gueto
francês,
às
suas
palavras
e
sinais.
*
Sem
dúvida
dessa
vez
a
extensão
dos
motins
pegou
todo
mundo
de
surpresa.
Mas
não
se
poderia
dizer
com
rigor,
desprevenidos.
Nunca
um
fenômeno
como
esse
foi
tão
prevenido
e antevisto
nos
últimos
vinte e
cinco
anos
costuma-se
datar
o
primeiro
alerta
do
verão
quente
nas Minguettes
em
1981.27
Além
do
mais
não
é
muito
verossímil
numa
comunidade
de
emergência
alegar
ignorância
a
respeito.
Trata-se
exatamente
do
contrário,
sobram
informação
e
políticas
escoradas
em
novos
saberes
e
tecnologias.
Para
se
ter
uma
idéia,
a
administração
reconhece a
existência
no
país
de 752
Zonas
urbanas
sensíveis
(ZUS), nas
quais
se empilham aproximadamente 5
milhões
de
pessoas,
na
sua
grande
maioria
franceses de
origem
árabe
e
africana,
a
um
só
tempo
cadastrados
nos
mais
diversos
programas
sociais
compensatórios
e
alvo
das
formas
mais
vexatórias de
vigilância
e
controle.
Uma
população
portanto
em
estado
permanente
de
sobressalto.
Campo
fértil
para
todo
tipo
de
provocação.
Um
terço
dos 341
motins
oficialmente
recenseados
entre
1991 e 2000, foram deflagrados
por
excessos
policiais.
Para
calibrá-los
melhor,
o
próprio
serviço
de
inteligência
do
Estado,
mais
exatamente
os renseignements généraux (RG), estabeleceram uma
escala
da
gravidade
dos
atos
de 1 a 8, começando
pelos
simples
ato
de vandalismo,
solitário
ou
em
bando,
até
o
motim
aberto.
Esta classificação foi oficializada
três
anos
depois
ao
que
consta do
primeiro
relatório
dos RG,
em
1990, inaugurando uma
nova
secção,
denominada
justamente
violências
urbanas , rebatizada a
seguir
villes et banlieues .
Não
se sabe ao
certo
quem
primeiro
consagrou o
termo
violência
urbana
, se a
mídia,
a
polícia
ou
os
institutos
universitários
de
pesquisa.
O
fato
é
que
na
virada
dos
anos
80
para
90, a
categoria
violências
urbanas havia adquirido
vida
própria,
sendo a
inspiração
securitária
predominante, e consensual a
percepção
de
que
a verdadeira
ameaça
às
instituições
das
drogas
ao
terrorismo
integrista provinham dessa
nova
vitrine
urbana
da
violência.
Novos
personagens
entram
em
cena,
o
policial
intelectual
e o
expert
em
violência
urbana,
ambos
voltados prioritariamente
para
a
gestão
das
crises
nos
bairros
sensíveis.
Desnecessário
salientar
a
inspiração
americana
e
gerencial
por
exemplo,
com
a
introdução
do
conceito
de produtividade
policial
medida
segundo
padrões
microeconômicos de
toda
essa
ambiência
em
que
prospera a
nova
cultura
do
controle,
como
começou a
ser
denominada na
literatura
americana.
Assim,
por
esse
tempo
a França ficou sabendo
que
as
suas
periferias
também
estavam produzindo a
granel
grupos
de
risco
. Nesses quartiers de tous les dangers
populações
socialmente
vulneráveis
correm de
fato
o
risco
de se tornarem
delinqüentes,
sendo
portanto
recomendável neutralizá-las
antes
que
passem às
vias
de
fato.
É
quando
os
amálgamas
estratégicos
começam a
despontar,
pouco
importa a
procedência
das categorizações ,
já
que
a
luta
contra
a
insegurança
se generalizou: uma
zona
urbana
sensível
pode
repentinamente
se
revelar
uma
zona
de não-direito (numa e noutra
direção
jurídica),
e
logo
numa
zona
de
segurança,
regida
por
uma
lógica
de
guerra
conforme
vai ficando
patente
no
modo
como
se militariza o
vocabulário
e as
providências
de
experts
e
agentes
da
ordem28.
Dessa normalidade
punitiva
não
se
poderia
mesmo
esperar
qualquer
surpresa.
É
fácil
desligar-se na
gestão
de uma
agenda
em
que
o
padrão
de normalidade
em
qualquer
escala
é
justamente
queimar
automóvel
todo
santo
dia,
por
um
sim
ou
por
um
não.
Na
primeira
nota
sobre
os
motins
de
outono,
para
variar
esfregando no
nariz
da
política
assimilacionista
dita
republicana francesa o
não
menos
falso
sucesso
da
política
comunitária
multicultural
britânica,
o The Economist de 05/11,
não
deixou
escapar
a bizarria do
registro:
ao
que
parece, nessas sensitive urban zones ,
como
se diz eufemisticamente do
outro
lado
do
Canal,
vehiculeburning has become the suburban
crime
of choice . Voltando
com
um
dossiê
na
semana
seguinte,
novamente
não
resistiu
diante
da
anomalia
peculiar,
o car-burning,
algo
como
um
ritual
gesture of criminal defiance in the suburbs . No
princípio
no
fim
dos
anos
70,
início
dos 80 essas
práticas
se difundiram
sob
o
nome
de
rodeio
:
carros
de
luxo
roubados, o
tempo
de
um
racha
na
periferia
e
depois
ritualmente
incendiados.
Em
suma,
esportes
sem |