Paulo Eduardo Arantes

 

Alarme de incêndio no gueto francês

Uma introdução à Era da Emergência

 

Paulo Eduardo Arantes

 

Ninguém se deu conta de que isso podia acontecer , declarou um perplexo ministro francês da Coesão Social (sic), diante do outono de motins do ano passado (2005). Pode ser. Há muito tempo não se via uma camada dirigente tão pateticamente divorciada do conjunto da sociedade como a atual casta política francesa, sem tirar nem por, um caso de alienação social clinicamente puro. Quanto à elite econômica propriamente dita, faz tempo que também emigrou para o mundo offshore dos milionários nômades1. Até nada demais. Não é de hoje que a apropriação do excedente se dá preferencialmente arbitrando a concorrência entre as várias jurisdições nacionais, não fosse o obsceno contraste de fachada com a onda do momento, o patriotismo econômico alardeado pelos governos à cata de um campeão nacional para esfregar nos olhos do distinto público complexado pela pregação sob medida dos declinólogos colunistas especializados em demonstrar que a França continuará caindo enquanto providências drásticas não forem tomadas, não sendo difícil adivinhar quais, tal a monotonia da receita para combater o crescimento anêmico e o desemprego de massa, anomalia francesa num mundo em que a criação de riqueza e de emprego explode ...2 Com efeito, desde que se acrescentasse que as multinacionais francesas continuam batendo recordes mundiais na distribuição de dividendos para seus acionistas.

Algum pressentimento desse estado de coisa não se pode negar aos sauvageons dos subúrbios, de resto tão distantes dos centros irradiadores da afluência que se chegou a falar em quartiers d exil3 não querendo insinuar com isso que tenha sido esse o foco exclusivo dos incêndios nas banlieues sublevadas, sem poder deixar de lembrar no entanto que o famigerado CPE (Contrato Primeiro Emprego), na origem dos protestos de março de 2006, foi concebido, ou melhor tramado, para atender com um suplemento de precarização legal os deserdados das periferias sinistradas: deu no que deu, erraram o alvo acertando num outro enclave do gueto francês4, os estudantes universitários, banidos das Grandes Escolas (outro arquipélago de bunkers hereditários), que se reconheceram com todas as letras na falsa equação acima (estagnamos e não empregamos por excesso de proteção social), cifra condenatória do destino de uma geração da força de trabalho atrelada ao baixo custo da precariedade perpétua.5

Recapitulando. Votada sem consulta aos interessados depois dos levantes de novembro de 2005, a nova lei converteu os jovens desempregados dos conjuntos habitacionais ( cités , na terminologia urbanitária francesa) no elo mais fraco de um novo ataque ao que ainda resta de proteções salariais. Não foi a primeira investida nem será a última. Em 1993-1994, ainda sob a presidência Mitterrand, um dispositivo legal instituía um salário mínimo rebaixado em 20% para jovens titulares de diplomas ainda mais desvalorizados pelo mandarinato educacional do país. Um milhão de manifestantes, numa jornada envolvendo 130 cidades, arrastou consigo uma camada até então invisível da juventude francesa, os alunos do superior curto secções técnicas, institutos universitários de tecnologia etc aos quais se juntaram a futura ralé das periferias, os sem-diploma ou, o que dá no mesmo, os portadores dos CAPs e BEPs da vida. Por um momento, de manifestação em manifestação, a fronteira entre essas duas nações pareceu se apagar, aproximando os relegados da galera suburbana dos que acabavam de se reconhecer sob a ameaça de uma proletarização máxima. Ontem como hoje, desnecessário recordar que brilhavam pela ausência os verdadeiros estudantes, os alunos das classes preparatórias, a nova classe média das facs e as dinastias das Grandes Écoles. Em março deste ano, todavia, o fosso se reapresentou de modo ainda mais dramático: de um lado, os bons manifestantes , de outro, sem surpresa, os mauvais casseurs , sobre o fundo da segregação espacial entre os bairros freqüentáveis (mas não é claro pelos naturais dos beaux quartiers ) e as zonas de não-direito, nas quais a polícia entra6.

Pois entre a temporada arrasa-quarteirão de fogueiras e a revolta vitoriosa contra o emprego a preço vil e demissão idem (nem mesmo o luxo barato de duas palavras de explicação, legitimando assim o arbítrio patronal, na mesma medida em que incita à docilidade os jovens assalariados gratos pelo sursis concedido), deu-se um episódio farsesco do mencionado patriotismo econômico, que interessa relatar por ilustrar mas não por isso o referido encasulamento da oligarquia francesa num outro gueto este sim estratégico onde opera o novo capitalismo de redes ocultas, negocismo e manobras políticas. Trata-se do veto governamental ao grupo italiano Enel, prestes a lançar um raid de aquisição hostil ao conglomerado franco-belga Suez, expedição ofensiva estimulada aliás por um alto executivo francês freqüentador do palácio presidencial, como de resto os demais comparsas do negócio abortado na penúltima hora por motivo de brios nacionais feridos: Suez seria absorvido mas pela Gaz de France, cujo controle estatal (70%) continuava assegurado por lei aprovada dois anos antes; na prática, uma privatização branca além de predadora da GDF, integrada por este atalho numa galáxia acionária controlada por Suez que a ultrapassa em proporções tais que a participação do governo cairia para menos de 40%, não obstante a cláusula pétrea da lei promulgada pelo chiraquismo, regime que se caracteriza por descumprir ato contínuo leis por ele mesmo editadas, nas palavras do articulista que batizou o fenômeno de capitalismo de conivência exposta inclusive na desenvoltura desses senhores ayant tous leurs entrées au château 7. Não se trata por certo de uma invenção francesa, mas de uma variante local de capitalismo de compadres crony capitalism para o qual vem resvalando o mundo americano dos negócios, do Texas ao Iraque, fortemente impulsionado pelo estilo dinástico de acumulação patrocinado pela família Bush e adjacências8. O autor da matéria da Economist sobre a crise francesa de março, para melhor carregar na dose dos sarcasmos previsíveis, convenientemente deixou na sombra a matriz anglo-americana do comportamento autista dos governantes franceses, do qual aliás padece em escala grotesca o sistema vigente do outro lado do Canal é bom não esquecer que o absurdo arranjo constitucional britânico garantiu uma convincente maioria a Tony Blair nas eleições de 2005 com apenas 21,8% dos votos: na opinião de Tom Nairn, o Reino Unido deixou de ser uma democracia em qualquer acepção aceitável do termo, convertendo-se afinal em uma autocracia by ill-concealed stealth 9.

Completando o panorama do conflagrado separatismo social francês, seria preciso salientar a dimensão por assim dizer popular do capitalismo francês de conivência. Mal anunciada a venda de ações da não menos estatal EDF (Eletricité de France), 5 milhões de franceses se precipitaram sobre a chance de alcançarem igualmente o status de shareholders, quer dizer, abocanhar um naco do real poder capitalista hoje: as cifras de fato impressionantes (7 bilhões de euros) foram anunciadas com pompa e circunstância no dia 18 de novembro do ano passado, exatos 10 dias depois de decretado o Estado de Urgência, na gradação francesa da legislação de exceção, para lidar com a insurreição selvagem dos incendiários suburbanos. Não me parece trivial observar que os dois presumidos jovens contraventores de Clichy-sous-Bois perseguidos pela polícia tenham encontrado a morte acidental eletrocutados justamente numa subestação da resgatada EDF, provocando assim o curto circuito entre os vários fios desemcapados do gueto francês10. Nem um pouco trivial além do mais notar desde a rotinização da promíscua convivência entre espasmos punitivos alarmistas e euforia compensatória da corrida às compras para ficarmos no padrão consagrado nas primeiras horas do 11 de setembro. Como se há de recordar, despertando a custo do estado catatônico em que o mergulhou a primeira onda de choque, no mesmo passo em que anunciava a situação de emergência suprema em que se encontrava a nação estamos em guerra Bush incluía no pacote de medidas excepcionais deflagradas ato contínuo uma não menos paradoxal injunção à normalidade: go shopping . Embora não se trate obviamente de uma explosão de mesma escala não obstante a carga metafórica análoga, sem excluir dessa sobrecarga de sentido algo como um horizonte pós-colonial assombrando com ou sem razão todas as imaginações , na França pós-convulsão nas suas fronteiras internas não foi mais preciso sequer renovar o apelo à fibra comercial do patriotismo econômico, tal a cristalização do novo padrão na emergência contemporânea. Segundo o Wall Street Journal, a recente sublevação da ralé não afetou em nada a indústria francesa do turismo: a Torre Eiffel continuou como antes recebendo seus 10 a 15 mil visitantes diários; Notre Dame idem; o museu d Orsay chegou ao desplante de aumentar em 28% a venda de ingressos; quanto à hotelaria, verificando que as reservas se mantinham no mesmo nível, desenganou com lucro os novos hóspedes que acorreram confiando num desconto por motivo de risco social.11

Erraram de paradigma. Os prêmios de risco são outros em tempos de emergência crônica, no entanto paradoxalmente rotineira governa-se atualmente a sociedade americana por um código multicolorido de alertas abrangendo uma ampla gama de riscos , dos meteorológicos aos humanitários, passando é claro pelo terrorismo, oscilando o registro deste último entre o dado de natureza e a patologia religiosa. Sendo igualmente um tempo de vazio político absoluto vistas as coisas pelo prisma do vácuo gravitacional produzido pelo enorme girar em falso do Estado Gerencial, que literalmente aparelhou as menores sobras das finadas alternativas políticas, como se dizia no tempo em que elas pareciam reais , não deixa de ter a sua graça involuntária e sinistra o alarmismo como regra de governo, até mesmo pela impossibilidade física de se ouvir um sinal de alarme nessas condições de silêncio lunar. Excluída a hipótese de ouvir vozes como Joana d Arc, o que teria ouvido Bush nos intermináveis minutos da histórica pasmaceira com que reagiu ou melhor, não reagiu à notícia dos atentados?

Daí o compreensível desconcerto do ministro francês, para não falar do enredo de vaudeville que lhe atribuiu um surrealista ministério da Coesão Social. Pois estamos falando de gestão : em princípio, como na Lógica para Wittgenstein, nela, gestão , também não lugar para surpresas. Não do infeliz ministro mas de todo o governo francês. Na opinião de um sociólogo britânico à qual voltaremos , a resposta do regime de George W. Bush à inundação de Nova Orleans parece quase enérgica se comparada ao clima de paralisia e confusão que parece ter tomado os meios oficiais franceses 12. Com efeito, foi preciso dez noites de motim nas banlieues para que Jacques Chirac finalmente desse o ar de sua graça, morna aliás, não fosse o prenúncio, na sonolenta parolagem republicana de sempre, das medidas tomadas dois dias depois na linha do novo senso comum governamental: toque de recolher e genéricos planos sociais de reabilitação econômica. Comentando a verdadeira cacofonia governamental o jogo palaciano das rivalidades eleitorais sobre o fundo do crescimento exponencial das violências urbanas , uma colunista do Le Monde arriscou uma comparação mais do que reveladora do atual curso alarmante do mundo: pois é, vai ver que, tal como no episódio da canícula, os sinais de alarme visivelmente também não funcionaram 13. Relembro que nas semanas de julho-agosto de 2003, um verão calamitosamente quente para os padrões europeus castigou severamente milhares de idosos franceses falou-se à época em 10 mil mortos. Acusado de negligência criminosa muito embora um sem número de famílias veranistas tenha deixado para trás os seus idosos de risco , o governo de fato admitiu falhas de previdência, em suma, não decifrou em tempo os alertas que por ventura seus serviços lhe fizeram chegar. No entanto é possível duvidar e voltar a indagar: quem sabe não estamos mesmo ingressando numa idade em que os sinais de alarme não se deixam mais ouvir, literalmente ou não? Seja como for, os Estados raramente hesitam quanto à máxima da razão governamental a seguir, ao encontro inclusive da demanda das populações geridas a golpes de alertas furta-cor, a rigor retrospectivos: uma vez a porta arrombada, reforça-se ainda mais o sistema de segurança. Simples assim, esse o ponto cego securitário da ordem emergencial contemporânea: qualquer policial antimotim bem treinado sabe muito bem que o governo não espera dele ordem , mas simplesmente que organize a desordem . No jargão gestionário das novas tecnologias de poder, espera-se de qualquer agente da ordem que contribua para a governança dos novos riscos 14. Faz algum tempo que Georgio Agamben não vem dizendo outra coisa está claro que no registro de uma Teoria Crítica ainda por inventar. Não custa ir adiantando o expediente: assim, depois de referir a opinião supracitada do poliziotto de Berlusconi, sugere o seguinte roteiro: o ponto é que as pessoas não se dão conta do equívoco completo que circunda o conceito de segurança. Os cidadãos pensam que significa prevenção da desordem, das catástrofes, a vida mais organizada e mais segura. Não é absolutamente assim (...) Analisando as chamadas medidas de segurança vê-se que não são destinadas a prevenir os eventos. O importante é ter condições, no momento em que algo ocorre e diríamos que algumas vezes os governos colaboram para que essa alguma coisa aconteça , de tirar partido (...) Os cidadãos não se dão conta de viver em um Estado que não faz nada para prevenir as catástrofes. Mas constrói um aparato para intervir quando a catástrofe se produz 15. Seria preciso acrescentar todavia que é precisamente nesse momento pósdesastre que o auto-engano dos cidadãos-consumidores-de-segurança alcança o grau máximo, imprescindível ao exercício pleno do governo propriamente dito, a gestão da desordem nos termos redefinidos de agora, por isso raramente os governos se defendem com a ênfase esperada da chuva de acusações de negligência que lhe cai sobre os ombros cúmplices, pois afinal a caça às bruxas, de praxe nessas circunstâncias, reforça ainda mais sua legitimidade de provedor em última instância de toda sorte de proteção menos a única que interessa, os sistemas não por acaso ditos tradicionais de proteção social num momento de demolição conjunta da sociedade salarial e da antiga ordem assurancielle .

Assim, para voltar à fornalha francesa de 2003, e à suposta falha no sistema público de alarme, para o qual sabemos agora não fazer muito sentido o fato de ser ouvido ou não, tanto os cidadãos vitimados e ameaçados quanto o Estado, estavam no fundo de acordo que a precarização crescente dos serviços de saúde não vinha sequer ao caso, ao contrário da escandalosa desproteção das populações diante dos rigores inabituais de um verão obviamente muito mais quente do que o outono social do ano passado para todos os efeitos uma reviravolta não menos autista do que o atual comportamento retardado da classe política francesa, culminando na naturalização de uma violência social acompanhada pela politização securitária da chuva e do bom tempo. Na boa observação de Jacques Rancière acerca dessa clivagem fetichista, graças à qual até o calor de verão constitui uma ameaça à qual ainda não se prestara a devida atenção, as falhas de informação-proteção que os governos reconhecem de bom grado produzem justamente o efeito paradoxal que estamos tratando de identificar, na sua forma fenomenal invertida de um ministro atropelado pelos fatos cuja implosão deveria prevenir, ou de governantes cujo encasulamento torna redundantes os sinais de advertência enviados pelos acontecimentos: ao não nos protegerem bem os governos provam que estão mais do que nunca para fazêlo, e que devemos mais do que nunca nos abrigar em torno deles (...) Prevenir os perigos é uma coisa, administrar os sentimentos de insegurança é outra, na qual o Estado será sempre mais perito porque é esse, talvez, o princípio mesmo do seu poder 16. Ao contrário do outono quente nos subúrbios (uma vítima fatal a lamentar), a mortandade daquele verão devastador apresentou-se não obstante na figura codificada pelos experts de uma crise sem inimigo 17 : toque de recolher e outras medidas de exceção no primeiro caso, apenas alarme humanitário no segundo, todavia um caso de urgência clássico de saúde pública. Tivesse escrito seu artigo dois anos mais tarde, Rancière teria sem dúvida antevisto a convergência, que na época deixou passar, entre o Estado Gerencial movido pelo automatismo dos intermináveis ajustes de mercado e o Estado policial cimentado pelo consenso ótimo de uma sociedade reagrupada pelo medo em suma, a fusão, que não é de hoje na origem do atual paradigma de governo, o Estado de Exceção como quer Agamben18 nos termos do próprio Rancière, o recobrimento da ordem da dominação, que vem a ser a gestão infrapolítica dos interesses estabelecidos, pela desordem da ultrapolítica, a guerra, numa palavra, aliás a última19.

Resta para voltarmos ao ponto do qual partimos, o inacreditável desligamento das atuais castas dirigentes mundiais, e logo se verá porque ajustamos nosso foco pela variedade francesa dessas dinastias encasteladas numa intrincada rede de conivências e rivalidades próprias de um mundo cujo nervo é o culto do entre-soi 20 resta que esse modo de gestão da vida coletiva pelo sentimento de insegurança, administrado por sua vez por uma calibragem da incerteza gerada por alarmes reais ou imaginários, porém aos quais, via de regra, se custa a reagir, se apresenta mais uma vez paradoxalmente na forma do alheamento que se está vendo, algo como uma estranha estratégia evasiva , como a denomina o sociólogo britânico Frank Furedi citado páginas atrás. A seu ver, estratégia própria de elites desconectadas , numa acepção aliás muito peculiar, para além da mera incompetência no exercício do ofício de dominação e direção, relutância em enfrentar responsabilidades ou coisa que o valha, a desconexão em pauta se refere antes de tudo a elites que deixaram de acreditar na legitimidade de sua própria autoridade e de seu próprio modo de vida , e como se essa sensação de deriva não bastasse, não se trata nem mais de uma crise clássica de legitimidade, nenhuma onda contra-hegemônica vinda dos andares inferiores do edifício social lhe contesta a autoridade, trata-se de um processo de desintegração interna no topo da cadeia de comando21.

Difícil evitar a tentação do comentário diante desse curioso modo de ver da parte de um intelectual europeu apanhado no redemoinho do caos sistêmico contemporâneo, afinal decepção com elites absenteístas, omissas ou desviantes, raramente ou quase nunca à altura das tarefas do seu tempo, é quase coisa de latino-americano progressista amargando capitulações históricas na periferia do sistema, cujo ressentimento encontra paralelo na crença atávica na capacidade das elites criollas se reencontrarem um dia antes do Juízo Final. Acrescentando à sua posição idiossincrática outra dimensão inesperada, pois se trata afinal de um britânico, e isso pesa, é preciso ressaltar que o nosso autor se encontra inteiramente na contramão da sabedoria anglo-saxônica convencional acerca da esclerose que paralisa as sociedades européias continentais, como demonstram os impasses eleitorais na Alemanha e na Itália, ou a recente capitulação do governo Chirac diante da grita dos movimentos de rua (aliás um padrão desde a greve geral de 1995-1996) uma amostra no Guardian de 14-20/04: a propósito do triste colapso nervoso francês , se anuncia que levas de jovens desempregados franceses cruzam o Canal fugindo de um país em que 2/3 da população gostaria de ser funcionário público etc. Pois nosso autor insiste que a patologia das elites desconectadas afeta gregos e troianos. O cinismo com que contribuem para a desmoralização de suas próprias instituições é o sintoma mórbido de uma exaustão política generalizada: ao contrário dos seus antepassados dos momentos decisivos da Era da Nation-Building, as elites mundiais não têm mais pela frente o mais ligeiro senso de missão história a cumprir ... quem diria. A rigor, desde o fim da Guerra Fria encontram-se politicamente exauridas quem sabe uma outra interpretação para o mal compreendido mote triunfalista do fim da história . Seja como for, o que os acontecimentos na França demonstram é que poder sem meta ou objetivo significa muito pouco. E quanto mais essa impotência é exposta, mais isso encoraja as pessoas marginalizadas a se expressarem à sua maneira . O processo de exaustão política que se abateu sobre a vida pública do Ocidente explica por fim a sua colonização pelo automatismo de linha de montagem do management-speak : assim não surpreende que um não menos apático eleitorado tenha rejeitado o projeto gerencial elitista da Constituição Européia. Não menos curiosamente, tampouco escapou ao olhar idiossincrático do nosso autor a relação interna ou pelo menos o paralelo histórico entre o declínio da coerência no interior da elite francesa e a desintegração em curso do mundo do trabalho, porque explica inclusive o caráter exemplar do impasse francês no cenário europeu22. Por certo, o elo mais forte da desconexão com o qual logo adiante nos confrontaremos.

Por último, tampouco posso deixar de mencionar uma derradeira excentricidade do argumento acerca do desengajamento (na acepção peculiar que lhe dá Furedi) das oligarquias políticas européias associadas aos negócios do capitalismo de conivência entre cupinchas, para falar em bom português. A exaustão política de que toda essa patologia é sintoma também pode e deve ser entendida como exaustão da imaginação política ... nacional . Não por acaso veio à baila linhas atrás um certo senso de missão história de que carecem pateticamente essas cliques e suas respectivas clientelas, afinal quem se limita a administrar agendas não pode mais saber do que se trata quando se fala em purpose o ponto cego do poder sem meta ou como fim em si mesmo. Em tempo: não estou nem de longe subscrevendo qualquer tese ou vindicação assemelhada acerca de elites nacionais mais enfaticamente assertivas, apenas reparando, com a devida surpresa, o horizonte nacional retrospectivo que comanda o diagnóstico da alienação recíproca, das elites e do restante das populações entregues à erosão das várias precarizações e na base, é claro, as várias gerações de nacionais saídos da imigração, como se diz, e cujos acessos de violência insurrecional, nosso britânico excêntrico atribui aos mais corrosivo desses desmoronamentos pós-nacionais, a ausência de uma teia comum de sentido , em função da qual mesmo pequenas diferenças podem se transformar em conflitos explosivos23. Pode parecer irrelevante ou sobretudo atrasado face ao glamour cosmopolita, mas ninguém mais, triviliadades identitárias à parte, está conseguindo se imaginar francês ou britânico e essa falência múltipla das comunidades políticas imaginadas pode matar24. Agora que o famigerado modelo social francês foi desmoralizado pela explosão dos guetos, vai ficando cada vez mais difícil estancar o efeito cumulativo dessa perda de sentido , do qual o mais saliente insiste nosso autor é a desautorização das elites, cujas disputas são tão desprovidas de eixo político quanto os jovens que ateiam fogo em carros e escolas25. A essa altura, Jacques Rancière poderia acrescentar que é disso mesmo que se trata: agrupadas sob a proteção do Estado gestor do sentimento de insegurança, as outrora comunidades políticas imaginadas são hoje cada vez mais comunidades do medo 26. Por certo uma sociedade nacional de segunda mão, mas sobretudo uma grande novidade: uma anatomia do atual surto nacional americano, o único que realmente conta, como modelo e ameaça, poderia quem sabe revelar a célula-tronco de uma sociedade nacional de última geração que se deveria reconhecer como verdadeira comunidade de emergência. Assim sendo, voltemos ao gueto francês, às suas palavras e sinais.

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Sem dúvida dessa vez a extensão dos motins pegou todo mundo de surpresa. Mas não se poderia dizer com rigor, desprevenidos. Nunca um fenômeno como esse foi tão prevenido e antevisto nos últimos vinte e cinco anos costuma-se datar o primeiro alerta do verão quente nas Minguettes em 1981.27 Além do mais não é muito verossímil numa comunidade de emergência alegar ignorância a respeito. Trata-se exatamente do contrário, sobram informação e políticas escoradas em novos saberes e tecnologias. Para se ter uma idéia, a administração reconhece a existência no país de 752 Zonas urbanas sensíveis (ZUS), nas quais se empilham aproximadamente 5 milhões de pessoas, na sua grande maioria franceses de origem árabe e africana, a um tempo cadastrados nos mais diversos programas sociais compensatórios e alvo das formas mais vexatórias de vigilância e controle. Uma população portanto em estado permanente de sobressalto. Campo fértil para todo tipo de provocação. Um terço dos 341 motins oficialmente recenseados entre 1991 e 2000, foram deflagrados por excessos policiais. Para calibrá-los melhor, o próprio serviço de inteligência do Estado, mais exatamente os renseignements généraux (RG), estabeleceram uma escala da gravidade dos atos de 1 a 8, começando pelos simples ato de vandalismo, solitário ou em bando, até o motim aberto. Esta classificação foi oficializada três anos depois ao que consta do primeiro relatório dos RG, em 1990, inaugurando uma nova secção, denominada justamente violências urbanas , rebatizada a seguir villes et banlieues . Não se sabe ao certo quem primeiro consagrou o termo violência urbana , se a mídia, a polícia ou os institutos universitários de pesquisa. O fato é que na virada dos anos 80 para 90, a categoria violências urbanas havia adquirido vida própria, sendo a inspiração securitária predominante, e consensual a percepção de que a verdadeira ameaça às instituições das drogas ao terrorismo integrista provinham dessa nova vitrine urbana da violência. Novos personagens entram em cena, o policial intelectual e o expert em violência urbana, ambos voltados prioritariamente para a gestão das crises nos bairros sensíveis. Desnecessário salientar a inspiração americana e gerencial por exemplo, com a introdução do conceito de produtividade policial medida segundo padrões microeconômicos de toda essa ambiência em que prospera a nova cultura do controle, como começou a ser denominada na literatura americana. Assim, por esse tempo a França ficou sabendo que as suas periferias também estavam produzindo a granel grupos de risco . Nesses quartiers de tous les dangers populações socialmente vulneráveis correm de fato o risco de se tornarem delinqüentes, sendo portanto recomendável neutralizá-las antes que passem às vias de fato. É quando os amálgamas estratégicos começam a despontar, pouco importa a procedência das categorizações , que a luta contra a insegurança se generalizou: uma zona urbana sensível pode repentinamente se revelar uma zona de não-direito (numa e noutra direção jurídica), e logo numa zona de segurança, regida por uma lógica de guerra conforme vai ficando patente no modo como se militariza o vocabulário e as providências de experts e agentes da ordem28. Dessa normalidade punitiva não se poderia mesmo esperar qualquer surpresa. É fácil desligar-se na gestão de uma agenda em que o padrão de normalidade em qualquer escala é justamente queimar automóvel todo santo dia, por um sim ou por um não. Na primeira nota sobre os motins de outono, para variar esfregando no nariz da política assimilacionista dita republicana francesa o não menos falso sucesso da política comunitária multicultural britânica, o The Economist de 05/11, não deixou escapar a bizarria do registro: ao que parece, nessas sensitive urban zones , como se diz eufemisticamente do outro lado do Canal, vehiculeburning has become the suburban crime of choice . Voltando com um dossiê na semana seguinte, novamente não resistiu diante da anomalia peculiar, o car-burning, algo como um ritual gesture of criminal defiance in the suburbs . No princípio no fim dos anos 70, início dos 80 essas práticas se difundiram sob o nome de rodeio : carros de luxo roubados, o tempo de um racha na periferia e depois ritualmente incendiados. Em suma, esportes sem