gustave klint

A melhor coisa a contar é que o jornal tornou-se auto-suficiente. Não precisa de patrocínio, venda avulsa ou assinaturas. Graças à colaboração dos novos e velhos amigos seguirá circulando de dois em dois meses. O leitor encontrará aqui uma única publicidade, a da Livraria Mar de Histórias, mas porque seu proprietário é amigo (quanto e há tanto!) do panorama.

Prezados Amigos,

Escrevo-lhes para informar que o panorama da palavra 69, previsto para ser impresso em dezembro, atrasou um pouco. Pronto em janeiro, eis que acontece o imprevisto: gráfica fechada. Sem aviso, sem telefone que responda, sem informação na porta. Nada. Fechou em dezembro a Gráfica Tipológica, e até agora não abriu.

Depois que decidimos a retomada da edição impressa e que se formou o grupo para pagar a impressão, eis que os esforços foram em vão. Infelizmente, até onde sei, não há gráfica que ofereça preço tão em conta ou que possibilite a tiragem de 2 mil exemplares.

Foed Castro Chamma
Descrito pelos amigos como afável, “perdido nas vastidões de seus pensamentos”, o poeta iratiense Foed Castro Chamma era um fenômeno de vitalidade física e mental.

 
 

MOBILIDADE LÍRICA DE ARICY CURVELLO

Darcy França Denófrio

 

Ao ler o livro 50 poemas escolhidos pelo autor, de Aricy Curvello (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2007), imediatamente alguns fenômenos literários nos chamaram a atenção. Sabemos tratar-se apenas de uma antologia, portanto uma amostragem, e não tivemos acesso à sua obra completa.

À medida que avançamos na leitura dessa seleção, o estrato visual tem o poder de nos aliciar a cada instante em que o poeta infringe o estabelecido pelo código lingüístico. Ao caminhar pelas construções líricas, vamos encontrando uma arquitetura que rompe com a expectativa do leitor a serviço de um resultado estético. Não somente no campo dos metaplasmos, utilizando-se o autor de montagens poéticas por aglutinação, justaposição, ou mesmo das desmontagens com aproveitamento das contribuições do concretismo, em busca da materialização da idéia, tal como se vê em sub
terrâneo, mas também em outras esferas lingüísticas que incluem, até mesmo, os sinais de pontuação.

Fernando Py: o poeta à beira do Antiuniverso

Fernando Antônio Py de Mello e Silva nasceu em 13 de junho de 1935, no bairro do Catete, Rio de Janeiro (RJ). Filho de gaúchos, o pai, Lino Alderico de Mello e Silva, descendente de portugueses, era médico psicanalista e pianista amador. Foi amigo de Mário Quintana e de Augusto Meyer; quando jovem escreveu e publicou poesias em jornais e revistas. A mãe, Clélia Py de Mello e Silva, descende de franceses e espanhóis. O sobrenome Py é uma forma reduzida de pino (pinheiro). O tetravô, D. José Pi, natural da Catalunha, ao chegar ao Brasil, trocou o i para y, que a família ostenta até hoje.

Augusto Sérgio Bastos

 

“[...] Pois estamos, com efeito, ante uma aventura poética que por muitos títulos é de singular importância: em primeiro lugar, pervade este livro todo uma seriedade de visão, em face da busca da expressão do poético, que exige, no mínimo, que o leitor repense muitos dos seus hábitos mentais; em segundo lugar, ela se nos apresenta com uma diversidade de formas e temas em que, sob um aparente lastro de simplicidade, às vezes brotam tão fundas vivências e tão dolorosas e exatamente concretizadas, que a simplicidade primeira se nos mostra, logo em seguida, muita sabedoria e determinação. Em terceiro lugar, nos poemas mesmos em que mais fundo o sofrer-viver contemporâneo é mais apreendido, mais econômica e mais contundente é a expressão. "

(HOUAISS, Antônio. Apresentação. In: PY, Fernando. A construção e a crise. Rio de Janeiro: Simões Edições, 1969)

poesia sempre

poemas de

luís antonio cajazeira ramos | eugenia tabosa | antónio botto |
afonso felix de sousa |manuel bandeira | safo

florbela espanca | ivan junqueira | victor giudice | mário de andrade | hilda hilst

cesário verde | josé régio | carlos drummond de andrade

gilka machado | ildásio tavares| paul verlaine | leila míccolis |
armando freitas filho

yêda schmaltz | renata pallottini | lina tâmega peixoto
celina de holanda | olga savary | ricardo reis | ricardo máximo

tite de lemos | manuel maria du bocage | vinicius de moraes
artur gomes

 

poesia
 

SE FIZ, NÃO INTERESSA A NINGUÉM

Dona Leonor

Ninguém acredita, mas vou fazer 69 anos. Isso mesmo: 69! E o que já ouvi de besteiras a respeito! As amigas mais velhas (e também as mais safadas, apesar de carolas da igreja carismática!) me cochicham piadas de corar Messalina. Ainda assim, elas se riem desbragadas como essas à-toa.

Uma delas teve a desfaçatez de me perguntar se o falecido João Petra não me ensinara. E eu: “Mas ensinara o que, criatura?” E ela, já quase sem fôlego: “Ora, Leonor, o 69. Vocês nunca fizeram? Não acredito!” Ah, quase lhe passei uma descompostura, mas preferi calar.


mais crônica

o silêncio das xícaras

Helena Ortiz

quando dei pela falta não estavam mais umas xícaras que eram do tempo de Pierre antes de Pierre ir para sempre lembrei das xícaras quando ela disse que ia embora você pode achar que isso é mesquinho mas eram minhas minha mãe me deixou aquelas xícaras e também um conjunto de copos com jarra de cristal tcheco presente de casamento eu os guardava tinham grande valor estimativo agora ela se vai lembro que um dia lhe dei para guardar as xícaras e os copos dentro do armário que ficava na sala depois desceram para o quarto dela onde agora está juntando seus trastes trouxas

 

C O R P O E S T R A N H O

Rosane Carneiro

 

Neste seu pequeno livro-corpo “indevido”, Rosane Carneiro não presume a fatal destinação dos seres, desde o “ovo” condenados a uma vita breve. Evoé, ruge a poetisa, convidando homens e mulheres ao renascimento de Dionísio, seja nesta existência bailarina, seja em outras de um aquém-túmulo.

Leonardo Vieira de Almeida

As modulações de Eros, tão presentes em Prova, livro anterior de Rosane Carneiro, ressurgem ainda mais intensas e bem trabalhadas neste Corpo estranho. Na busca de palavras que digam a força da matéria, Rosane defronta-se com a “carne da aurora”, deseja a “embriaguez da luz”.

Antonio Carlos Sechin

AFETO NA MARRA

Daniel Santos

De vez em quando, ainda me visitam. Nem entram mais pela porta dos fundos, como antes, mas esperam que eu apareça na janela do sobrado para me acenarem amistosos. É como se dissessem “tudo bem” e se vão.

Ignoro o que pretendem desde quando me surpreenderam a sós, me imobilizaram sem violência e tiraram mostras de pêlos, unhas, saliva, sangue, pele ... Um acervo a meu respeito. Ou a respeito da espécie?

POR UMA NOVA COLUNA

Igor Fagundes

Depois de muito buscar uma idéia que honrasse a palavra; depois de muito tentar a palavra que honrasse este pequeno-amplo lugar em estréia; depois de muito ensaiar um finito-infinito lugar que honrasse o espaço que lhe foi doado, precioso também de silêncio, porque de poesia (pela poesia e para a poesia), decidi deixar tudo para: depois. Nenhuma resenha de livro. Sequer as boas-vindas a um poeta, talentoso, a publicar pela primeira vez. Nem a crítica de homenagem àquele autor experiente e consagrado, que não cansa de ensinar-nos o rito eterno de aprender que toda vez é primeira a cada escrever-publicar. E mais uma vez, eu aqui, em mais uma vez. Primeira. Com direito a arrepio e a frio na barriga.

 

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