Roberto Lúcio


Cada vez que se finaliza uma edição do jornal já aconteceram inúmeras coisas ao nosso redor. As guerras novas e de sempre, as mentiras, as novas chacinas. Um desentendimento e uma apatia chegaram junto com o século, sobre o qual já se pode arriscar dizer: no início, era a mediocridade.

Pois é em momentos assim que se espera que algo surja, que avance, que se levante para salvar a humanidade, perdida e confusa. O que será? Dizemos: basta. Não agüento mais. Agarramo-nos, como sempre, à nossa salvação.
Os livros foram nosso salvo-conduto para atravessar esses tempos sem descanso e sem consolo. E se conhecemos outros meios, nenhum deles se assemelha, até hoje, ao exercício e ao convívio com a poesia...


  Editorial  
 
 

ARTE E TECNOLOGIA

Izacyl Guimarães Ferreira

Imagino nosso ancestral que talhou ou riscou o primeiro signo, a primeira palavra. Terá exultado, poderia até haver saído aos gritos entre seus pares. Eureka!

Imagino o prazer de Guttenberg, dos inventores todos, da flauta ao sintetizador. De todos quantos fizeram avançar os recursos da criação, ampliando o repertório do possível - pedra, metal, plástico, a tinta imortal, a gravação eterna.

Por outro lado me indago se os descendentes das invenções, dos recursos, não andaram, andam e andarão deslumbrados em demasia com os achados e as virtualidades, esquecidos do essencial, devotos do mantra "the medium is the message".

 

crítica

 

Márcia Cavendish Wanderley

 

Márcia Cavendish Wanderley nasceu em Recife, mas vive no Rio de Janeiro desde 1976.

É autora de A voz embargada: imagem da mulher em romances brasileiros e ingleses do século XIX (Edusp); Do jeito delas – vozes femininas da língua inglesa (Faperj / 7Letras) e de Mulheres: prosa de ficção no Brasil (Faperj / Íbis Libris). Em 2006 lançou seu primeiro livro de poemas O terceiro jardim pela Editora da Palavra.
Mestre em Sociologia e Doutora em Literatura Brasileira. Realizou estudos de pós-doutorado nas Universidades de Montreal (Canadá) e Yale (EUA).
É professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito da UFF.

Já se pode ressuscitar o lirismo impune e, mesmo, criativamente, passada a onda da poesia objetivista, aquela rente à prosa. É o que faz Márcia Cavendish neste A Idade do entendimento, com temas nos quais se detectam vestígios do canto em objetos tão diferentes quanto um apartamento em Botafogo e um tango abrasivo.

 

poeta da vez

 

Raimundo Correia
(1859 – 1911)

 

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, magistrado, professor, diplomata e poeta, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado em águas do Maranhão. Foram seus pais o Desembargador José da Mota de Azevedo Correia, descendente dos duques de Caminha, e Maria Clara Vieira da Mota, de uma das mais ilustres famílias maranhenses. Dessa união nasceram 10 filhos; Raimundo foi o terceiro.

A sua infância foi bastante obscura. Era uma criança franzina, magra e sempre quieta, ausente das traquinagens comuns a essa fase da vida. A educação se processou de maneira severa. O pai, de formação profundamente católica e de feitio antigo, não admitia desvios naquela diretriz educacional.

 

poesia sempre

poemas de


Henrique Augusto Chaudon | Alberto Bresciani | Alcides Buss | Adalgisa nery | Eduardo Silveira | Bénédicte Houart | Manuel Bandeira | Rita Moutinho | Lêdo Ivo | Murilo Mendes | Mário Quintana | Elisabeth Veiga | Ricardo Máximo | Manoel de Barros | Victor Colonna | Camilo Pessanha | Rolando Revagliatti

 

poesia
 

OS INOCENTES

Marilia Arnaud

O plano resumia-se a levar Davi até a casa de praia dos pais de André, desabitada naquela época do ano, e mantê-lo quieto e encafuado no local combinado, com os olhos bem abertos, até o final. Só que, em algum momento, as coisas se desgovernaram, com todo aquele cheiro áspero de naftalina, a respiração difícil, o calor, os músculos tensos, as câimbras nas panturrilhas e, além disso tudo, uma sensação pungente, como uma ferida que não para de latejar, alastrando-se por todo o corpo. Quando nos demos conta, já estava acontecendo, e não havia como retroceder, alguma coisa que recendia a medo e prazer foi escapando ao nosso controle, meu coração num tropel, meu corpo crescendo, uma fera açulada e faminta forçando e rompendo a jaula, e a coisa redemoinhando e se avolumando e se acelerando e explodindo intensa e violentamente dentro de mim, e logo já havia acontecido, e estava tudo acabado, inclusive a nossa amizade, tudo que nos ligara até aquele dia.


mais conto

 

AVESSO DAS EXPECTATIVAS

Dona Leonor

Fui à feira e comprei um arquinho novo para os cabelos, desses de plástico, com florezinhas coloridas. Coisa boba e barata, que não sou de esbanjar. No entanto, o que para os outros seria trivialidade me deixou acesa como debutante na véspera do baile!

Sim, ando feliz da vida, até mais que umas amigas que ganharam TV de plasma no Dia das Mães. Ah, o meu arquinho! Acho mesmo que rejuvenesci. Pelo menos, me olho no espelho e percebo certa coqueteria (coque teria com pundonor) no canto dos olhos. 

 

 

mais crônica

 
 
poeta da vez
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